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    Arte adaptada de Christian Bloom

    Em nome do capital | Luiz Ruffato

    por Luiz Ruffato | El País | Publicada em 16/02/2017 às 12h03

    O que se encontra em jogo é o que determinou, sempre, o caminho da história da Humanidade: o dinheiro. O Seguinte: recomenda e reproduz a coluna publicada pelo El País

     

    Tempos estranhos, esses!

    À frente das mais bem equipadas forças armadas do planeta, o insano presidente Donald Trump administra os Estados Unidos como uma criança mimada. Em menos de um mês, exibiu o viés autoritário de sua maneira de governar, passando por cima de preceitos jurídicos e fomentando, fosse um caubói alucinado, o ódio e o ressentimento contra minorias étnicas e religiosas e adversários econômicos. Seu lema, America First (Estados Unidos primeiro), carrega um tom nacionalista e xenófobo que remonta às ideologias totalitáriasda primeira metade do século XX, quando nos vimos mergulhados em dois conflitos que resultaram em um saldo de 34 milhões de soldados e 65 milhões de civis mortos e 56 milhões de feridos.

    Também autoritário, nacionalista e xenófobo é o ex-chefe da temida KGB soviética, o presidente russo Vladimir Putin, que tem à sua disposição o segundo maior arsenal nuclear do mundo. Além de acusado de fazer desaparecer inimigos políticos internos, Putin já teve oportunidade de demonstrar seu profundo desprezo por tratados ou acordos, ao ocupar militarmente a Crimeia, parte integrante da Ucrânia. Vale lembrar que essa mesma região foi palco de uma conflagração de amplas proporções, a chamada Guerra da Crimeia, que durou de 1853 a 1856, opondo a coligação formada pelo Reino Unido, França, Sardenha e Império Otomano, com apoio do Império Austro-Húngaro, às pretensões expansionistas russas.

    Autoritário, nacionalista e xenófobo também é o Partido Comunista que controla a China desde 1949. Expansionistas como os russos, os chineses ocuparam o Tibete em 1950, tornando-a uma região autônoma sob jugo da administração central de Pequim. Comandando um agressivo crescimento econômico, à revelia de direitos humanostrabalhistas e ambientais, a China está presente hoje em todos os continentes, seja por meio de produtos baratos, seja por meio de capital. Para defender seus interesses, o presidente Xi Jinping tem à sua disposição o quinto maior arsenal nuclear do planeta e 2,3 milhões de militares ativos, a maior força armada do mundo.

    Além de Estados Unidos, Rússia e China, a fechadíssima Coreia do Norte tem, de maneira patética, conquistado protagonismo geopolítico. À frente de uma ditadura hereditária, o infantil líder Kim Jong-un assumiu o poder em 2011, com a morte de seu pai, Kim Jong-il, que, por sua vez, havia sucedido seu pai, Kim Il-sung, mandante único do país entre 1948 e 1994. A Coreia do Norte, que tem com a China a principal parceria política e econômica, vem realizando testes com ogivas nucleares, buscando fabricar bombas capazes de atingir seus inimigos, como os Estados Unidos e aliados nas vizinhanças. Além disso, calcula-se que mantenha cerca de 1,1 milhão de militares em atividade para uma população de 25 milhões, o que a torna proporcionalmente a maior força mobilizada da Terra.

    Enfim, entre outros agentes desestabilizadores, o chamado Estado Islâmico, inimigo da civilização ocidental, grupo de militantes fanáticos alimentados pela humilhação e pelo ressentimento, que potencialmente podem causar estragos impensáveis, justamente por serem quase invisíveis. Não agem em nome da religião, que dizem professar, mas da cegueira e da autodestruição. São os deserdados da riqueza econômica, que, ao fim e ao cabo, move os interesses de todos os países citados acima.

    Embora assentados em pretensas divergências ideológicas – falsas, insisto – Estados Unidos, Rússia e China convergem todas as suas diferenças para o campo da influência econômica. O que se encontra em jogo é o que determinou, sempre, o caminho da história da Humanidade: o dinheiro. Com uma pequena, mas fundamental novidade, a quase inexistência de vozes dissonantes. Não há lugar mais para a defesa do Humanismo – o mundo tornou-se um espaço áspero, desértico, estéril, no qual impera o egoísmo e a mediocridade.

    Em 1919, um ano após o término da Primeira Guerra Mundial, o escritor italiano Italo Svevo (1861-1928) começou a escrever o romance A consciência de Zeno, publicado em 1923. Abalado pela violência inaudita dos conflitos daquela que seria a guerra para acabar com todas as guerras, Svevo encerra o livro de uma maneira premonitória – antecipa visionariamente a criação da bomba atômica – e apocalíptica: “Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos outros (...) inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitas e das enfermidades”.

     

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