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GRAVATAÍ, 22/06/2021

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    crise do coronavírus

    Guile registra um momento no paraíso neozelandês

    O gravataiense que na pandemia vive no melhor lugar do mundo

    por Rafael Martinelli | Publicada em 03/06/2020 às 17h51| Atualizada em 17/06/2020 às 13h21

    Enquanto o Brasil e os Estados Unidos calculam casos – e mortes – aos milhares por dia, a Nova Zelândia é, sob qualquer parâmetro científico, o exemplo de país bem sucedido no enfrentamento da crise do coronavírus. São apenas 21 óbitos e, desde 20 de março, ninguém infectado com a COVID-19. Será apenas geografia?

    Um gravataiense mora lá. É o Guilherme Prux Athanazio, o Guile, 40 anos e residente há 17 anos na singular ilha da Oceania. Ele responde, e conta ao Seguinte: como é viver no ‘Show de Truman’.

    Siga trechos da entrevista.

     

    Seguinte: Apenas 21 mortos em 5 milhões de habitantes confirmam Nova Zelândia como país que melhor trata a crise do coronavírus. Descreve-se a estratégia como “Bata firme e rápido”. Tudo fechado, para sair antes da ‘quarentena’. E fato é que a ‘curva do contágio’ não achatou, mas foi praticamente extinta.

    Guile – Realmente os números foram bem baixos por aqui. Mesmo a Nova Zelândia tendo uma população pequena e, em geral, baixa densidade demográfica, acredito que nem as previsões mais otimistas no início da pandemia, apontavam para um número tão baixo de mortes ou até mesmo infectados. A ideia de achatar a curva de contágio foi feita com sucesso devido às ações rápidas e preventivas do governo que não esperou nem sequer a primeira morte para pô-las em prática.

     

    Seguinte: Quais medidas são perceptíveis para você, como residente?

    Guile As medidas que vimos logo no início foram a agilidade e transparência na comunicação por parte do governo. Foi comunicado rapidamente que passaríamos por 4 níveis de alerta. Cada um com suas medidas de restrição, sendo o nível 1 mais leve, até o nível 4, o mais restritivo. As fronteiras já foram fechadas no nível 1, alguns dias depois já implantaram quarentena para os residentes e cidadãos que estavam voltando para o país e distanciamento social, nível 2. Já na semana seguinte veio o nível 3 fechando o comércio, proibindo eventos esportivos e aglomerações. Dois dias depois o nível 4, onde somente serviços essenciais poderiam funcionar (supermercados, farmácias, postos de gasolina e o setor primário). Nesse momento a Nova Zelândia parou. Ruas, estradas, centros comerciais ficaram desertos.

    Nesse momento, com a população já informada e contida em casa, começaram então a cuidar da parte econômica e financeira. De imediato foi elaborado um pacote de ajuda para trabalhadores, empresas e autônomos que seriam afetados pelo fechamento do comércio. Foi dado um benefício de Nz$580,00 por semana por funcionário por 3 meses, pago pelo governo diretamente para os donos das empresas, e estas repassariam para os funcionários. Ao meu ver, essa foi uma estratégia essencial para manter a população mais calma durante a quarentena, pois não faltaria dinheiro para o aluguel e alimentos e todos poderiam ficar em casa com segurança até a situação ficar mais controlada. Também fizeram um acordo com os bancos para dar umas ‘férias da hipoteca’. Quem tinha casa financiada, poderia parar de pagar as prestações por 6 meses.

     

    Seguinte: A primeira-ministra é hoje a pop star mundial dos ‘progressistas’. Camisetas e souvenirs estampados com o rosto de Jacinda Ardern esgotam rápido. Como você a percebe, sendo um residente que no dia a dia convive com o governo?

    Guile A primeira-ministra teve uma atuação exemplar durante todo o processo da pandemia. Sempre foi muito clara, transparente e calma nos pronunciamentos que aconteciam diariamente às 13h em rede nacional. Ao mesmo tempo foi dura e incisiva quanto às duras restrições às quais estava impondo à população. É uma pessoa muito preparada para lidar com questões pessoais e técnicas também. Ela transparece ser uma pessoa simples, ‘como nós’, bem ao estilo ‘kiwi’ e bem ‘pé no chão’. Eu assistia ou escutava o pronunciamento das 13h na tv ou na rádio, depois assistia a live dela no Facebook onde ela respondia às perguntas por ali mesmo, direto com a população, da sala da casa dela, usando moletom, sem maquiagem e bem à vontade. Esse comportamento, a franqueza com que fala e o carisma fazem dela uma grande líder sem dúvidas. Jacinda passou por várias dificuldades desde que assumiu a liderança do país. Os atentados de Christchurch, a explosão do vulcão White Island, a pandemia da COVID-19 e agora o grande desafio é retomar a economia.

    Eu, particularmente, gosto e admiro a primeira-ministra e o governo de modo geral, mas também tenho minhas críticas. A popularidade dela é realmente muito alta, mas vejo bastante contrapontos, principalmente da parte do empresariado neozeolandês, que vem cobrando um plano mais palpável para a retomada econômica, o qual não foi visto ainda.

    As eleições serão agora em setembro e o National (partido da oposição que governou por 8 anos antes da Jacinda) tem um histórico de lidar bem com as finanças e isso agrada uma parte grande da população.

    A política na Nova Zelândia é bem diferente da do Brasil. Por ser um parlamentarismo o sistema de eleições e de governo é mais dinâmico. O governo da Jacinda vem da coalisão de 3 partidos.  Labour Party (partido dos trabalhadores), Green Party (partido verde) e o NZ First (partido conservador). Juntos eles têm a maioria das cadeiras do parlamento o que garante a governabilidade mesmo com suas diferenças ideológicas entre si, teoricamente representando a maioria da população. As trocas de governo são vistas como saudáveis para a democracia e se fazem menos traumáticas quando ocorrem. No geral, politicas boas são reconhecidas e/ou mantidas e até aperfeiçoadas nas trocas de governo. No momento, a oposição reconhece que a Jacinda fez um ótimo trabalho durante esse período, mas não acha que ela é a melhor pessoa para seguir em frente e assim pensa uma boa parte da população também.

     

    Seguinte: A gente ouve aqui que a Nova Zelândia é a ‘nova Escandinávia’, com um governo de bem-estar social, boa convivência e ideias liberais. Ouve-se até que há discussão sobre semana de trabalho de 4 dias. É isso mesmo para quem mora aí?

    Guile – Não sei muito sobre a Escandinávia, mas a Nova Zelândia é um país incrível! Sou e estou feliz aqui. Por vezes é algo meio surreal, um universo paralelo tão longe de toda essa loucura que acontece mundo à fora. Parece que vivemos um mundo à parte por aqui. Tudo parece tão limpinho, organizado, padronizado. "Uma maquete", dizia meu irmão, quando veio me visitar. Parece ‘O Show de Truman’, aquele filme com Jim Carrey, onde ele vive dentro de uma cidade/estúdio. O sentimento é de igualdade, pouca diferença social, e não existem favelas. Os índices de violência são baixos, a polícia não anda armada, as estradas são boas. Existe pouca burocracia e tudo é muito prático. A percepção da corrupção é mínima. Não quer dizer que ela não exista e também não é tudo perfeito. Existem sim problemas e alguns muito graves como em qualquer lugar. Mas, no geral, é muito bom. Por aqui, ainda se foca muito no positivo, ao invés do negativo. Sinto que a mídia por aqui não é tão sensacionalista e os jornais não batem tão forte e por tanto tempo nas tragédias. A Nova Zelândia é um país alegre e seguro, que depende muito do turismo e essa é a visão e a experiência que eles querem vender pro mundo. Por isso dão o exemplo. Parece um grande ‘experimento social’. É socialista em vários aspectos, liberal em outros, conservador em alguns.

     

    Seguinte: O Brasil é visto hoje como um ‘país pária’, de ‘infectados’? O governo Bolsonaro faz nossa nação passar vergonha por aí?

    Guile – O Brasil de vez em quando aparece nos telejornais, mas sem muito tempo de matéria. Sabe-se por aqui que o Brasil está entre os países com maiores números de mortes e infectados mas o interesse deles está mais nos Estados Unidos e China do que no Brasil. Ainda não foi tomada nenhuma medida restritiva oficial em relação ao Brasil, mas há especulações de que quando começarem a abrir as fronteiras da Nova Zelândia, alguns países vão ficar de fora e o Brasil certamente será um deles, até que surja uma vacina.

    O presidente brasileiro também aparece em matérias esporádicas por aqui. Nunca por suas benfeitorias, muito pelo contrário. É visto como uma figura meio bizarra e meio cômica ao mesmo tempo. Não entendem se o que ele fala é sério ou se simplesmente segue a linha Trump de desdenhar de tudo. Sabe-se que está fazendo um péssimo trabalho para mitigar a pandemia e que não respeita o distanciamento social. Acho que o pessoal por aqui não consegue fazer sentido das falas do nosso presidente, quando são traduzidas para o inglês. Resumindo, é marionete de extrema-direita do Trump da América do Sul

     

    Seguinte: O que faz esse gravataiense na Nova Zelândia? Conta um pouco da tua rotina antes e depois da pandemia.

    Guile – Minha rotina antes da pandemia era trabalhar e aproveitar o final do verão. Era início de março, quando ainda é calor por aqui, as ondas são boas para surfar, água quente e dias longos... trabalho na área de logística, e com maquinário agrícola, no setor primário. Era início da colheita e tínhamos cerca de 20.000 toneladas de kiwi para exportação para serem processados. Uma indústria de 7 bilhões de dólares que estava incerta do que ia acontecer com a pandemia. Por fim, o setor foi classificado como serviço essencial e seguimos trabalhando durante todo o lockdown. Com as devidas precauções de distanciamento, higiene, checagem de temperatura e algumas visitas do Ministério da Agricultura e da Saúde, conseguimos finalizar a colheita com sucesso e sem maiores problemas.

    Para mim, particularmente, a rotina não mudou muito. Pegava estrada de manhã, chegava no trabalho, voltava pra casa (sem praia no fim-de-tarde pois estava proibido) e as vezes até esquecia que estávamos em quarentena. Só me dava conta quando ia no supermercado uma vez por semana e via a realidade. Filas, máscaras, luvas, álcool gel, clima de tensão. Em certo momento, me senti muito privilegiado, pois podia sair e transitar de carro, ver gente no trabalho, enquanto a maioria estava trancada dentro de casa.

    Depois da pandemia (aqui o sentimento é que ela já passou) sigo trabalhando, agora com mais liberdade de ir ver o pôr-do-sol na praia, tomar um mate com os amigos, churrasco no fim-de-semana e uma merecida cervejinha no pub sexta à noite. Existe vida pós pandemia!

     

    Seguinte: Deixa uma mensagem para tua Gravataí.

    Guile – Gravataí é meu pago, minha querência saudosa e amada. Lugar onde eu cresci e me criei, onde tenho minha família e meus amigos mais antigos. Amo essa cidade! Sempre que posso, volto pra matar as saudades de tudo e de todos. Foi daí que eu saí e é pra aí que eu volto quando o coração aperta. E quando abrirem as fronteiras, podem esperar uma visita do cidadão gravataiense expatriado direto da Nova Zelândia.

     

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