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    #TodasAsFamílias

    Você acessa a campanha #TodasAsFamília no www.todasasfamilias.com.br

    Campanha recebe mais de 3 mil sugestões sobre novo conceito de família

    por Andreia Verdélio | Agência Brasil | Publicada em 08/05/2016 às 19h51

    E para você, o que é família?

    Esta é a pergunta feita pelo Houaiss, que está buscando sugestões para redefinir o significado da palavra família no dicionário. A campanha #TodasAsFamílias, promovida pela agência NBS com o Grande Dicionário Houaiss, recebeu mais de 3 mil sugestões de texto sobre o conceito de família, uma nova definição “sem preconceito ou limitações”.

    - Recebemos sugestões de todos os tipos, o que sustenta nossa defesa por um olhar diverso e sem preconceitos para o mundo, mas se eu pudesse achar um ponto em comum entre elas, seria o uso da palavra amor, a mais frequente nas definições - disse o sócio e vice-presidente de criação da NBS, André Lima.

    A ideia para a campanha, segundo Lima, surgiu “a partir da nossa consternação” com a definição de família do Estatuto da Família, aprovado em comissão especial da Câmara dos Deputados, em 2015. Pelo texto, “define-se entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”.

    Para o relator da Comissão Especial sobre Estatuto da Família, deputado federal Diego Garcia (PHS-PR), o estatuto trata da “família-base da sociedade, da família que está esperando desde a promulgação da Constituição uma lei infraconstitucional que a proteja e que traga os principios constitucionais dentro de uma lei ordinária”.

    O vice-presidente de criação da NBS discorda da definição apresentada no Estatuto da Família.

    - É só olhar à nossa volta para perceber como esta definição é reducionista e anacrônica, não reflete, de modo algum, a realidade em que vivemos. O mundo é dinâmico, diverso e abrangente e a definição da palavra 'família' precisa levar tudo isso em conta. Hoje, estamos mais interessados em atualizar a definição e ajudar no debate sobre quais são os verdadeiros laços que unem as pessoas em forma de família - disse Lima.

     

     

    Quem manda é o amor

     

    Para o microempresário Cláudio Maia, de 57 anos, o que manda mesmo é o amor. Há um ano, ele descobriu que seu filho de 17 anos é homossexual, mas diz que sempre achou errado manter uma definição padrão para família.

    - É muito radicalismo querer categorizar como normal ou não uma coisa que pode ter tantas facetas. Havendo amor, havendo cuidado, não importa se for um casal gay, ou um pai e uma mãe, ou dois pais ou duas mães, ou só um dos pais - disse.

    Cláudio se emociona ao falar sobre seu filho.

    - Eu tenho muito orgulho dele, ele é tudo de bom. É especial, educado, preocupado com o outro, e isso não tem nada a ver com homossexualidade. Sorte da criança que vier a ter ele como pai, seja biológico ou não - disse.

     

    Nem pior, nem melhor por ser gay

     

    O microempresário, que mora no Rio de Janeiro, diz foi criado em uma família católica, de uma maneira bastante conservadora e que quando descobriu a homossexualidade do filho houve um misto de sentimentos, como vergonha, preconceito e medo de como seria o futuro dele.

    A família procurou a Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas (Abrafh) para se informar e Cláudio diz que mudou sua mentalidade depois de entender mais sobre o assunto.

    - Isso não muda absolutamente nada, ele não é pior ou melhor que ninguém, o que falou mais alto (para a aceitação da homossexualidade] foi o amor. Nossa maior preocupação é a questão da segurança, porque infelizmente, assim como eu era, a sociedade é muito preconceituosa.

     

    LEIA MAIS:

    Comissão aprova Estatuto da Família com conceito que exclui casais homoafetivos

    No Rio, Parada LGBT critica Estatuto da Família e pede fim da violência

     

    E os filhos do coração?

     

    A campanha da NBS e do Houaiss tem o apoio da Abrafh e da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro. Para o presidente da Abrafh, Rogério Koscheck, muitos lares brasileiros não têm mais apenas uma família tradicional, como diz o Estatuto da Família.

    - Ele tem dois problemas sérios, um é eliminar qualquer conjugação homoafetiva, que é o principal objetivo do estatuto; e outro é descaracterizar formações familiares que são tradicionais, seja avó com neto, seja sobrinhos com tios e até mesmo crianças adotadas. Quando o estatuto fala o homem, a mulher e seus descendentes, podem entender que sejam apenas os biológicos - disse.

    Rogério é casado com Weykman e tem quatro filhos adotivos, todos irmãos. Ele conta que na época da votação do Estatuto sua filha mais velha, com 12 anos, observando toda a discussão, questionou se teria que voltar para o abrigo.

    - Antes mesmo de ser aprovado ele está criando problemas. Hoje eles são nossos filhos, estamos em um momento mais tranquilo porque os quatro já tem filiação (certidão de nascimento com o nome do casal), mas entendemos que a não aprovação do estatuto é uma segurança jurídica para nossa família também - disse.

     

    Jesus não era filho de José...

     

    É um erro, para Rogério, impor valores religiosos à instituição familiar.

    - Se levar ao pé da letra o Estatuto da Família, uma das famílias mais conhecidas, não seria família, afinal Jesus Cristo não era filho de José - disse o presidente da Abrafh, dizendo que espera que o Estatuto não seja aprovado pelo plenário da Câmara.

    - Esperamos mostrar que os valores do amor, do afeto, da preocupação, da educação, da transmissão de conhecimento e da ética são mais importantes que essa definição estreita e completamente fora da realidade.

     

    Fundamentalistas e preconceituosos

     

    Para o projetista Alexandre Louzada, de 38 anos, sempre que há um avanço social e dos direitos humanos, há uma tentativa reacionária de retrocesso por parte de pessoas “fundamentalistas e preconceituosas”. No caso do Estatuto da Família, segundo ele, “é de uma parcela dos deputados que tem pensamentos muito retrógrados e que tem uma visão muito retrógrada do que é o papel dos sexos, do que é a família, do que é a sociedade”.

    Alexandre é casado com Francisco e tem três filhos adotivos. Para ele, essa definição de família do Estatuto, assim como o projeto para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, é, na realidade, uma maldade.

    - Acho isso aviltante. Meus filhos eram crianças que estavam há cinco anos no abrigo, nenhum casal heterossexual quis adotá-los. Tiramos esses meninos de uma situação que não é favorável, damos casa, carinho e vem uns maus dizendo que eles não podem ter isso, que não somos uma família. Ainda tem o movimento para baixar a maioridade penal, isso está tudo relacionado, querem punir cedo, mandar para cadeias particulares, não querem dar a chance. Isso é de uma maldade sem proporção - disse.

     

    Atualização no dicionário

     

    Segundo o diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do Grande Dicionário Houaiss, Mauro Villar, o instituto aceitou a proposta por seu interesse e pelo valor humanitário de dar voz a pessoas e grupos.

    - Os dicionários são espelhos do mundo, refletindo a sua realidade. Registram os sentidos que cada palavra foi ganhando na língua através da sua história. Não podem, porém, ficar apenas com o passado, como é óbvio - disse Villar.

    - Se o meio social se altera, se novos conceitos aparecem, se novas palavras e acepções de palavras já existentes surgem todos os dias, é preciso acompanhar essa dinâmica para continuar a espelhar o mundo.

    A versão online do dicionário deverá ser atualizada assim que o novo conceito, a partir da colaboração das pessoas, for definido. O diretor do Houaiss explicou que a 2ª edição do Grande Dicionário Houaiss existe apenas na internet e que há 15 anos alterações são diariamente introduzidas na sua base de dados.

    - Com isso o dicionário ganha definições mais aperfeiçoadas, palavras e acepções novas, afina as suas etimologias e antedata os anos em que as palavras entraram na língua, entre outras melhorias. Essas mudanças são um processo natural, porque os dicionários definham e morrem quando não se atualizam - disse Villar.

    - A família é um núcleo fundamental da organização social humana e merece toda a atenção se o seu conceito se altera.

     

    #detodasasfamílias

     

    Para participar, as pessoas podem enviar as sugestões pelo site todasasfamilias.com.br e compartilhar a campanha nas redes sociais com a hashtag #‎todasasfamilias .

     

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