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    Jeane Bordignon

    Jeane Bordignon é jornalista e poeta. Autora do livro Brado Carmesim. Publica seus poemas na página facebook.com/voos.e.palavras e no Instagram @jeanebordignon
    jeane bordignon

    Deformação da autoestima de uma menina dos anos 80/90

    Por Jeane Bordignon | Publicada em 27/07/2021 às 17h33

    Minha geração foi “atropelada” pela Barbie. Foi nos anos 80 que a famosa boneca se tornou popular no Brasil. A Estrela, grande fabricante de brinquedos, fez um acordo com a Mattel, que fabrica a Barbie, e passou a produzir a versão brasileira. Para garantir o destaque à Barbie, a Estrela tirou sua boneca própria, a Susi, do mercado.

    Então, quem era menina nos anos 80 como eu não conheceu a Susi, com seu corpinho de adolescente, muito mais realista (A forma foi aproveitada para a Skipper, irmã mais nova da Barbie, mas ninguém ligava para a irmãzinha). O modelo de boneca adulta que tínhamos era a Barbie e sua cintura minúscula, suas pernas e braços longilíneos… ah, e seus cabelos loiros e olhos azuis. Não existia Barbie morena. A boneca de cabelos castanhos que aparecia no catálogo era Teresa, a amiga. E quem queria a amiga? Queríamos a Barbie!

    Essa falta de diversidade era geral. Praticamente todas as bonecas, de todos os tipos, eram loiras de olhos azuis. Era muito raro encontrar alguma de cabelo escuro. Tive uma indiazinha, que era daquelas bem baratas, de plástico tão fininho que não dava nem para abraçar mais forte que já amassava a boneca. Acho que foi a única não-loira das minhas bonecas.

    Quase simultaneamente ao domínio da Barbie sobre as meninas brasileiras, outra loira se tornava rainha das crianças: a Xuxa foi um fenômeno tão grande que mesmo não assistindo o Xou diariamente e nem sendo fã, eu tive disco (o do Ilariê!), tênis, gibi, álbum de figurinhas, o “dixicionário” e sim, me emociono com Lua de Cristal e Arco-Íris (mas Brincar de Índio realmente é constrangedora, para dizer o mínimo).

    Porém, nunca fui como a maioria das garotas da minha geração, que sonhavam em ser paquitas, as assistentes de palco da Xuxa. Tanto por ser muito introvertida para isso, quanto por estar distante do perfil. Todas as paquitas eram parecidas com a Xuxa: altas, loiras e magras, olhos claros. Inclusive pareciam com a Barbie.

    Eu era o oposto: baixinha, gordinha, cabelos e olhos castanhos. Então, meu raciocínio lógico foi entender que eu não era bonita. Conforme fui entrando na adolescência e entendendo que minha altura não ia avançar muito, que minha constituição física não é de magrela e que descolorir o cabelo não faria milagre, ia me convencendo de que ser bonita não era para mim.

    Era pior do que uma dúvida quanto à aparência. Eu tinha certeza de que não era bonita. Como poderia ser, com um nariz avantajado, lábios quase invisíveis, uma testa gigantesca? Como poderia ser bonita, se eu não tinha um corpo magro? Era bem difícil pensar diferente, com o slogan da Barbie ecoando na minha cabeça: “Tudo que você quer ser...”.

    Eu queria aquela cintura, o rosto delicado, os cabelos dourados… Mas eu jamais seria parecida com a Barbie, nem com as paquitas. Logo, jamais seria bonita. Esse foi o estrago que o padrão de beleza dos anos 80 fez com minha autoestima. Levei mais de 30 anos para ver beleza em mim. E aceitei muitas migalhas de afeto por pensar que uma feia como eu não conseguiria algo melhor.

    Lembro que minha princesa preferida era a Branca de Neve. Depois de adulta passei a problematizar várias coisas da história, como ela ser beijada estando desacordada ou limpar a casa para sete homens. Mas quando criança, via na Branca de Neve a única princesa de cabelos e olhos escuros como os meus. Todas as demais clássicas (Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel) são loiras de olhos claros.

    Quando estreou o filme do Aladdin, fiquei encantada com a Jasmine e seus longos cabelos castanhos (eu tinha fios até a cintura), mas ela é uma jovem do oriente, não uma princesa de contos de fada. Podem tentar o quanto quiserem incluí-la entre as princesas, mas não é a mesma coisa, principalmente na cabeça de uma menina vivendo a transição da infância para a adolescência. É uma fase onde você quer se encaixar na maioria, não se identificar com uma heroína exótica.

    Se uma criança branca como eu não se sentia representada nos brinquedos e nas histórias, imagina como era para as crianças negras? Nos anos 80 não existiam bonecas negras. Pelo menos não lembro de ter visto durante minha infância. Tenho vagas memórias de alguma amiga da Barbie com cabelos cacheados e pele mais escura, mas com os mesmos traços finos das bonecas brancas.

    A falta de representatividade entrou anos 90 adentro. É bizarro pensar que mesmo que a década tenha proporcionado bonecas da Taís Araújo e da personagem Pata da novela Chiquititas, elas ainda eram apenas o mesmo modelo das brancas com um pouco mais de cor. Quem não acredita ou não lembra, procure fotos no Google e fique chocado também. A própria Taís postou foto da sua boneca no Instagram há pouco tempo, ironizando a falta de semelhança.

    Também foi nos anos 90 que a Estrela voltou a fabricar a Susi. Se não me engano, foi na versão da loira e da morena do É o Tchan. Eu já era adolescente e não brincava mais de boneca, mas pelo menos a geração mais nova que a minha pôde se enxergar um pouco mais nos brinquedos. Eu já começava a vida adulta quando finalmente foi mudada a cintura da Barbie para algo mais realista. Ainda um corpo magro que eu nunca teria, mas pelo menos parecendo uma mulher de verdade.

    Após muitos anos de uma autoestima lá embaixo, aprendi a reconhecer minha beleza. A enxergar o encanto das curvas e dos tons mais escuros. Foi uma longa caminhada, que ainda não terminou. Há pouco tempo me libertei da ideia de que meus lábios finos não combinavam com batom vermelho. Agora estou me achando linda com essa cor.

    Apesar da Barbie ter representado um modelo cruel na minha formação, nunca perdi meu fascínio pela boneca. Por isso foi emocionante vê-la sair daquele padrão que tanto me oprimiu e ganhar vários formatos de corpos, alturas, cabelos, tons de pele. Claro que a gente sabe que a Mattel não mudou por bondade, mas porque o mundo está mudando e seu público consumidor também. Mas minha criança interior ficou muito feliz de poder se enxergar numa Barbie.

    Ainda não sobrou dinheiro, mas um dia vou adquirir uma do modelo Petite, baixinha igual a mim. E também uma Curvy, porque é tão legal ver uma Barbie de pernas grossas! Acho que quero algumas de cabelo colorido também, não tenho maturidade para elas, confesso. Agora sim, posso querer ser como a boneca mais famosa do mundo.

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