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    Moisés Mendes

    A boiada, a cachorrada, as hemorroidas e os vagabundos, um ano depois

    por Moisés Mendes | Publicada em 21/04/2021 às 16h53

    Completa um ano amanhã a famosa reunião ministerial da boiada de Ricardo Salles, das hemorroidas de Bolsonaro, do Programa Pró-Brasil de Braga Netto e da última troca de olhares entre Sergio Moro e seu chefe.

    Há reuniões definidoras de governos e projetos de poder. A ditadura mostrou a cara e apostou na longevidade naquela reunião de 13 de dezembro de 1968, quando o AI-5 foi considerado pronto e parido.

    A reunião reveladora do que era o governo Bolsonaro aconteceu naquele dia 22 de abril. Todos tinham suspeitas das liturgias grotescas do sujeito nos encontros ministeriais. Mas poucos podem ter imaginado tanta bizarrice.

    Os militares de 1968 revelaram lá naquele dia 13, na formatação da repressão, que tinham métodos, que eram formais até no improviso, esquemáticos e com noção de futuro.

    Bolsonaro revelou-se, no dia 22 de abril, como um sujeito sem método algum, preocupado apenas com a blindagem dele e dos filhos. Havia excesso de presente e ausência de futuro na reunião ministerial do dia 22 de abril.

    Aquele foi um encontro raro. Teve muitas cenas chocantes e essa foi uma delas: pela primeira vez na República um civil (Paulo Guedes) chamou um general e ministro (Braga Netto) de despreparado.

    Aquela foi uma reunião de arromba. Ficamos sabendo que Weintraub era autorizado a chamar os ministros do Supremo de vagabundos, que os generais pensavam ter ali um plano desenvolvimentista para o país, que Sergio Moro era um estorvo, que Salles agia com autorização como destruidor (esse sim com método) da Amazônia, que Hamilton Mourão não abria a boca e que Bolsonaro só queria proteger os filhos com a ajuda de Augusto Heleno, porque o ex-juiz escalado para a tarefa era um imprestável.

    Depois daquela reunião, Bolsonaro ofereceu cloroquina a uma ema, Sara Winter ameaçou comandar a invasão do Supremo, Celso de Mello passou um pito em Heleno, o genocídio virou a principal política de governo, Moro caiu, Abraham Weintraub arrumou emprego em Washington, Bolsonaro não conseguiu criar um partido, a famiglia ficou sem Trump, prenderam Queiroz, Bolsonaro demitiu todo o alto comando das Forças Armadas como quem troca o guardinha do Alvorada, Braga Netto teve uma queda de pressão e saiu da Casa Civil e foi para a Defesa, Kajuru grampeou Bolsonaro e Ricardo Salles continuou passando a boiada e a cachorrada.

    Só o que mudou mesmo, desde aquela reunião, é que os ‘bandidos’ do Supremo decidiram enfrentar Bolsonaro, a extrema direita e o lavajatismo e que foi criada a CPI do Genocídio.

    O resto é igual, com o acréscimo de detalhes, como o aluguel do Centrão por Bolsonaro e pelos militares e a compra da casa de R$ 6 milhões por Flavio Bolsonaro.

    Daquela reunião, sobraram poucas coisas. O Programa Pró-Brasil de Braga Netto foi evaporado ainda no computador, a Polícia Federal abriu um inquérito para saber se Bolsonaro manipula a Polícia Federal e Moro foi demitido e arrumou emprego na consultoria que tenta salvar empresas que ele quebrou na Lava-Jato. E Bolsonaro nunca mais fez reuniões ministeriais como aquela.

    Aquela reunião ministerial avisou que, se quisesse, o Brasil acabaria com Bolsonaro em poucos meses. Se a pandemia se agravasse, se a economia fosse destruída, se não houvesse emprego, se o botijão de gás dobrasse de preço, se o povo passasse fome e se faltasse oxigênio nos hospitais, claro que ficaria mais fácil. Ficaria?

    O vídeo daquela reunião de 22 de abril nos ofereceu subsídios para abreviar o sofrimento do país e devolver Bolsonaro ao mundo dos milicianos. Estava ali o caráter de um governo que funcionava como uma gangue.

    Naquela reunião, Bolsonaro aprimorou-se como aberração política e humana e denunciou a seu modo o temor de ser derrubado. “O que os caras querem é a nossa hemorroida”, disse o sujeito.

    Bolsonaro está aí, altivo, os filhos continuam soltos, Queiroz está impune e os militares estão conformados.

    Até agora, Bolsonaro preservou as hemorroidas, livrou-se dos subalternos vacilantes civis e fardados e até retornou com vigor ao cercado do Alvorada.

    As confusões e os conflitos seriam geridos, mesmo sem qualquer método, se os problemas fossem apenas esses. Bolsonaro sabe se virar.

    Mas, um ano depois daquela reunião, Lula está de volta, e agora Bolsonaro o compara a Jesus. Esse talvez seja o único grande problema de Bolsonaro.

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