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    jeane bordignon

    Alzheimer: o mal que dói em quem está ao lado

    por Jeane Bordignon | Publicada em 21/09/2021 às 16h25

    Escova é um jogo de cartas de origem italiana, que se joga com o baralho espanhol. Tiram-se as cartas 8, 9 e 10, e esses valores passam para Valete, Cavalo e Rei. Para começar, cada jogador recebe três cartas, e são colocadas mais 4 na mesa. O objetivo principal é juntar 15 pontos. Se conseguir limpar a mesa, o jogador fez uma escova. Além do número de escovas, são contados mais quatro pontos: maior quantidade de cartas, maior quantidade de ouros, sete belo (de ouro) e a primeira, q é a soma das maiores cartas de cada naipe sem ser as figuras.

    A vó Elza gostava muito de jogar, e se tivesse parceria, jogava todas as noites. Por pura diversão, nunca jogou a dinheiro. Por isso, quando ela de repente esqueceu como contar os pontos e começou a se atrapalhar com as cartas, foi um sinal de alerta. Mais ou menos na mesma época, ela parecia ter desaprendido a fazer o crochê que era outra coisa que tanto gostava. Também aconteceu de um modo repentino demais para que atribuíssemos ao declínio natural da idade.

    Minha mãe já tinha percebido que a vó estava se alimentando pouco e com dificuldade para dormir. Com os novos indícios de que algo não ia bem, começou a insistência para levá-la ao médico. Mais difícil ainda foi convencer a dona Elza de que ela não podia mais ficar sozinha. Nós já esperávamos por esse momento, porque depois de uma certa idade, os pais se tornam filhos dos seus filhos. Mas a vó tinha se acostumado a ser independente.

    E não havia sido uma escolha. Vô Ampílio faleceu em 1993, com 72 anos. Vó Elza tinha só 66, e ainda dois filhos solteiros. Apesar de ter sofrido muito (ela me disse várias vezes que preferia ter partido antes dele), a vó aprendeu a viver sem seu companheiro de vida. Pegava o ônibus e ia ao supermercado, à missa, ao banco, tudo sozinha. E dizia com orgulho: “Só tive um homem na vida e nunca vou ter outro.”

    Depois uns 20 anos vivendo com essa independência, como ela se acostumaria a ter alguém controlando seus passos? Mas dali em diante, seria necessário. A vó passou por vários exames para descartar outros diagnósticos, até que nos fosse apresentada a palavra que passaria a fazer parte do nosso cotidiano: Alzheimer.

    O declínio inicial foi bem rápido: logo vó Elza estava usando fraldas e tendo comportamento infantil. Às vezes queria “ir pra casa”, ficava agitada, mas estava se referindo à casa da infância, em Casca, na região da Serra Gaúcha. Quando ficava muito inquieta, meu pai (o genro que é como um filho), levava para dar uma volta de carro, como se fosse levar ela para a tal casa, e quando voltavam, ela também já tinha “voltado” a si.

    Não demorou também para a vó ir para a cadeira da rodas, e se comunicar cada vez menos. Nessa época, conseguimos trazê-la aqui para casa, trazendo primeiro a cama e outros móveis, para que sentisse estar em seu próprio quarto. Mas a estadia durou menos de um ano. Vó Elza tinha cada vez mais dificuldades para se alimentar, para engolir. Praticamente acamada e ficando fraca, teve uma pneumonia.

    O mês que a vó passou no hospital foi um dos mais longos desse processo. Mas enfim acertaram o antibiótico, e a pneumonia foi controlada. Só que havia outra realidade para nos acostumarmos: dali em diante, vó Elza se alimentaria por um tubo nasogástrico. Foi o ponto de limite para minha mãe, que por mais que quisesse cuidar pessoalmente da vó, entendeu que ela seria melhor assistida numa clínica.

    Já faz oito anos que vó Elza vive na clínica. É duro vê-la com aquele tubo enfiado no nariz, mas compensa a visão das bochechas fofas e coradas. Ela faz fisioterapia, mas praticamente não tem mais movimentos. Também não fala, só emite uns balbucios. É a nossa bebezinha.

    Antes da pandemia, a mãe visitava pelo menos uma vez por semana. Desde março do ano passado, a gente recebe fotos todos os dias. Na maioria a vó está dormindo. Mas às vezes ela abre bem aqueles olhos azuis, que são os mais lindos do mundo. Hoje em dia, o maior presente que ela nos dá é abrir os olhos.

    O médico diz que ela não sente dor. A gente não sabe se ela entende alguma coisa do mundo ao redor. Mas nós sentimos muita, mas muita saudade. O Alzheimer nos coloca numa situação muito estranha: sentir falta de alguém que ainda está vivo. Dói e confunde a gente ao mesmo tempo. Quando digo que minha vó tem 94 anos, sempre me questiono internamente se vale a pena viver tanto, mas sem viver de verdade.

    O Alzheimer é uma sentença pesada também porque é um caminho sem volta. Nossa pessoa amada não vai se recuperar. Pelo contrário. Vai ficar cada vez mais dependente e distante. E você assiste aquela pessoa cheia de vida virar uma sombra de si mesma.

    Além de muitos familiares e “amigos” se afastarem… porque não aguentam ver a situação, ou porque não há mais vantagens em estar perto. Sabe aquela história de que enquanto a mesa está cheia, você tem muitos amigos? Não faltava gente para saborear as delícias que a vó fazia. Melhor não comentar quantos perguntam dela hoje em dia.

    O Alzheimer não deteriora só o cérebro do doente. Gera crises financeiras e familiares. Só quem tem ou já teve um familiar acamado sabe que os gastos não são poucos. E que aquele ditado “uma mãe cuida 10 filhos, mas 10 filhos não cuidam de uma mãe” não surgiu por acaso. Geralmente, tanto os custos quanto os cuidados ficam com uns poucos, não com todos os filhos e netos.

    A vida quando se tem um familiar com Alzheimer tem sempre uma boa dose de preocupações. E de saudades.

    Não tem um dia que eu não lembre de alguma comida que a vó fazia. Da polenta na chapa aos bolos de aniversário. E não adianta, posso comprar mil queijos frescos, que nenhum vai ser igual ao que ela fazia. O pudim da mãe fica quase igual, e o tio Vitor chega perto nos capelettis. Mas como me arrependo te ter sido uma criança fresca que não gostava de moranga! A vó sempre deixava umas massas sem recheio para mim, mas eu devia ter comido os tortéis antes que fosse tarde demais.

    Queria também poder jogar escova de novo com ela, ver aquela alegria quando conseguia o sete belo ou uma escova. O baralho dela está comigo, como lembrança de uma vó que já se foi, embora ainda esteja aqui, nos olhando com aqueles olhos lindos.

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