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GRAVATAÍ, 16/01/2022

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    jeane bordignon

    A gravataiense Aura Tamaris é mais uma brasileira vítima de feminicídio

    Aura Tamaris: até quando morreremos por sermos mulheres?

    por Jeane Bordignon | Publicada em 31/08/2021 às 12h08| Atualizada em 31/08/2021 às 13h31

    Aura Tamaris tinha 37 anos e sustentava os três filhos, de 18, 16 e 7 anos, trabalhando como motorista de aplicativo. Como qualquer pessoa jovem e solteira tem direito, começou um novo relacionamento com um rapaz da mesma idade. Alguns podem dizer que é natural que o parceiro tenha ciúmes de uma moça tão bonita como aquela morena de olhos verdes. Mas já passou da hora de mudar essa ideia: quem entra em um relacionamento precisa confiar, ou é melhor ficar sozinho.

    Na noite de 3 de agosto, Aura e o namorado tiveram uma discussão. Foi a última. O homem jogou gasolina no rosto e nos cabelos dela, ateou fogo a trancou no apartamento com os três filhos. A tragédia só não foi maior porque os meninos ajudaram a tirar daquele inferno a irmã caçula e a mãe, com apoio dos vizinhos.

    Aura lutou pela vida no hospital, com queimaduras no rosto, perna, nuca, costa e braços, além dos pulmões comprometidos pela fumaça. Na sexta-feira (27), entrou para as estatísticas como mais uma vítima de feminicídio. Dessa vez aconteceu em Gravataí, mas de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020 o país teve 3.913 homicídios de mulheres, dos quais 1.350 foram registrados como feminicídios.

    Os dados também mostram que 81,5% das vítimas foram mortas pelo parceiro ou ex-parceiro íntimo. Pelo homem em quem elas confiaram. Dos quais elas esperavam amor e respeito. Ninguém entra em um relacionamento esperando o pior, mas acreditando ter encontrado alguém que lhe fará bem, uma pessoa para evoluir juntos.

    Mas vivemos numa sociedade doentia onde muitos homens não se relacionam para crescer com uma mulher, mas para exercer a posse dela. Eles acreditam ter direito sobre o corpo e a vida da parceira, e que ela tem diversas obrigações perante o parceiro. Caso contrário, não será “mulher de família” ou outros termos que os machistas costumam usar.

    É, tem gente que parou no tempo. Ainda vivem numa época em que as mulheres tinham muitos deveres e quase nenhum direito. E não conseguem aceitar quando uma de nós quer viver livre. Foi o que aconteceu com Aura Tamaris e acontece todos os dias, com mulheres de diferentes idades e nacionalidades.

    São mortas apenas por não aceitarem mais se submeter a um homem. Por perceberem que são fortes sozinhas. Morrem por quererem viver a vida como melhor lhes convir, sem nenhum homem achando que é seu dono.

    Sempre que ouço ou leio a frase “ele não aceitou o fim do relacionamento”, acho bizarro. Se não fosse o contexto cultural machista da nossa sociedade, diria que é falta de amor-próprio. Quando a parceira não te quer mais, junta tuas trouxas e vai seguir tua vida, meu filho! Mas a gente sabe que na verdade o que esses homens têm mesmo é orgulho ferido.

    Como se um macho não pudesse jamais ser rejeitado por uma mulher, como se isso fosse uma grande afronta! Eles veem ofensa grave à sua dignidade onde as pessoas sensatas veem apenas como um ciclo que se encerra. Relacionamentos começam e teminam, faz parte da vida.

    É fácil julgar a mulher por ter se envolvido com um homem descontrolado e violento. Mas a maioria é um príncipe no começo do relacionamento. Quando a gente começa a perceber os sinais, muitas vezes já está muito envolvida para avaliar com clareza. E muitos desses homens são manipuladores, distorcem tudo a favor deles. De repente, estamos duvidando de nós mesmas.

    Parece roteiro de filme? Mas o difícil é encontrar mulher que não tenha vivido alguma história de violência psicológica e sexual. Forçar relação sexual quando a parceira está desacordada, bêbada ou simplesmente não quer, também é violência. Quase todas as mulheres que eu conheço tem algumas histórias para contar de caras que forçaram a barra com elas.

    Nem sempre a gente entende logo que o gesto foi violento. Porque aprendemos muita coisa errada a respeito dos homens, que “eles são assim mesmo”, e naturalizamos tantos atos… Além de só ligar o sinal vermelho quando há agressão física. Só que palavras podem doer muito mais do que um tapa.

    Muitas mulheres conseguem “cair fora” antes da relação chegar no nível da violência física. Mas tantas, por estarem frágeis emocionalmente ou dependentes financeiramente, têm muito mais dificuldade de sair do relacionamento-cativeiro. Quantas não conseguem sair com vida…

    É difícil ter paz sendo mulher. Se entramos em um relacionamento, corremos risco de nos envolver com um possessivo que não sabe perder. Sair sozinha também é arriscado. Escolhemos os caminhos mais movimentados e iluminados, porque podemos encontrar um homem que acha que tem direito sobre nosso corpo. Ou deixamos de sair mesmo, porque não nos sentimos seguras.

    Ser mulher é sair de casa já pensando em como fazer para voltar em segurança. É deixar de curtir a festa depois de certo horário, porque as ruas ficarão desertas se você permanecer mais tempo. É não poder relaxar na pista de dança, porque um babaca acha que pode chegar se esfregando. É evitar beber mais uma cerveja, para não ficar vulnerável. É andar com spray de pimenta e chaveiro de defesa, sempre em estado de alerta.

    Mulher não descansa nunca.

    O homem que tentou matar Aura está preso preventivamente na Penitenciária Estadual de Canoas. Foi indiciado por feminicídio, três tentativas de homicídio contra os filhos e incêndio doloso. Consigo ser otimista para quase tudo na vida, mas para esse tipo de macho eu não acredito em recuperação. Que fique na cadeia o maior tempo possível.

    E que um dia a gente viva num mundo onde as mulheres possam ter paz.

    (Se você, mulher, vive uma situação de violência, ligue 180.)

     

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