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    tráfico

    Líderes dos Bala na Cara foram transferidos para fora do estado | DIVULGAÇÃO SSP

    OPINIÃO | A Lava-Jato contra as facções e a conexão Gravataí

    por Eduardo Torres | Publicada em 11/10/2018 às 16h49| Atualizada em 29/10/2018 às 12h16

    Ouvido pela Rádio Gaúcha na manhã desta quinta, o juiz da Vara do Júri, de Porto Alegre, Felipe Keunecke, citou: “A luz do Sol é o melhor remédio para tudo”.

    A frase resumia a importância da assustadora revelação do plano da facção dos Bala na Cara — inclusive com um planejamento de execução em plena Arena do Grêmio — para executar o juiz. Ele tornou o caso público e provavelmente preservou não só a si mesmo, como agentes do Ministério Público, da Polícia Civil e Defensoria Pública. A “claridade” de Keunecke também pode ter garantido sucesso à grande operação que é encarada nos corredores das delegacias como uma verdadeira Lava-Jato do tráfico de drogas da Região Metropolitana. A chamada Operação Gangster, que atacou principalmente as finanças dos Bala na Cara, foi só o aperitivo do que já estaria nas mãos da justiça.

    O plano para executá-lo, como revela a denúncia do Ministério Público, tinha participação decisiva de advogados que, de defensores, se tornaram o “braço jurídico” da facção. Faziam o serviço de levantamento dos hábitos do juiz e de outros alvos e, para o risco da operação, mapeavam testemunhas dos processos contra o líder do bando, José Dalvani Nunes Rodrigues, o Minhoca. A cada recado com informações sigilosas dos processos, fornecidas pelos advogados, testemunhas não apareciam nas audiências.

     

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    Conforme o sub-procurador geral do MP, Marcelo Dornelles, os advogados faziam viagens ao Paraguai fazendo o “leva e traz” para a quadrilha, falsificavam documentos e ordenavam a coação das testemunhas fundamentais para a implosão da facção como se desenha nesta Lava-Jato do tráfico.

    Se a ameaça ao juiz espantou, há muito mais por vir na revelação de como o bando controla seus territórios e se embrenha no sistema de segurança pública. Por isso, exatamente como nos seriados sobre os grandes cartéis da droga, quem investiga vira alvo.

    Assim como a Lava-Jato, aquela de Curitiba, desde fevereiro de 2017, sem nenhum alarde, agentes do Departamento de Homicídios, e posteriormente, do Ministério Público, desenrolam pelo menos uma centena de inquéritos sobre homicídios e tentativas a partir de uma delação premiada. O delator, hoje incluído no programa de proteção, não à toa, temia ser a próxima vítima do chefão dos Bala na Cara na zona norte de Porto Alegre. Entre os resultados da delação, há quase 70 denúncias por homicídios só contra o Minhoca.

    Por muito pouco a própria delação não foi perdida. Há informações de que, ainda na fase inicial da apuração, os mesmos advogados já estivessem fazendo este “serviço” para a facção. Antes que a proteção fosse concretizada, a testemunha foi ameaçada.

     

    Plano Gravataí

     

    Um dos pontos de partida da investigação está em Gravataí, em uma espécie de “sobra” da Operação Clivium, desencadeada em 2015, com mais de 100 presos. Áudios reconhecidos como sendo de Minhoca mostram como ele tramava um plano para controlar todos os pontos de tráfico da cidade a partir da queda da quadrilha liderada por Vinícius Otto, o Vini da Ladeira, um dos mais influentes na facção Os Manos. A polícia não descarta o envolvimento dele em assassinatos na onda de violência que assolou Gravataí no ano passado.

    Foram ordens como esta que deram aos investigadores a certeza do poder de comando do criminoso do bairro Mario Quintana sobre a facção e a sua influência na região. Pudera, conforme as apurações, um ponto de tráfico controlado pelo grupo chega a render R$ 30 mil por dia. Dinheiro suficiente para extrapolar sua influência bem além dos soldados do crime. Atualmente, Minhoca está recolhido em um presídio federal, assim como Luis Fernando da Silva Soares Júniror, o Júnior Perneta, apontado pelo MP como o número um dos Bala na Cara.

     

    : Operação Clivium atacou um dos núcleros da facção Os Manos, em Gravataí | DIVULGAÇÃO SSP

     

    A ameaça ao juiz espanta, mas também já há know-how das facções da região neste ponto. Em novembro de 2016, foi revelado o plano dos presos da Operação Clivium para eliminar a juíza de Gravataí responsável pelo caso e policiais envolvidos na investigação.

    Na sua entrevista à Rádio Gaúcha, o juiz Keunecke apontou duas explicações para o atual poder das facções criminosas: a atual legislação contra drogas, que já não prevê prisão a usuários, e a forma como o sistema penitenciário gaúcho está perdido. De um lado, segundo ele, estes grupos enriquecem com uma facilidade jamais vista, de outro, arregimentam verdadeiros exércitos justamente nas cadeias.

    Ao menos nesta frente contra os Bala na Cara, a queda de braço do Estado com o crime, com investigação exaustiva e cerco real contra a influência do tráfico na Região Metropolitana, vale à pena. Se a Lava-Jato do tráfico resistir e avançar, será histórica.

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