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    Início de ano nada animador

    por Luiz Felipe de Seixas Corrêa | El País | Publicada em 14/01/2017 às 13h33| Atualizada em 14/01/2017 às 14h55

    Estamos passando por um período de quase obscurantismo que lembra os piores momentos da História da humanidade. O Seguinte: recomenda e reproduz a análise publicada no El País

     

    Estamos passando por um período de quase obscurantismo que lembra os piores momentos da História da humanidade: as invasões bárbaras, a Inquisição, as grandes fomes, as guerras mundiais, o Holocausto, para citar os mais dramáticos e traumáticos, ressoam no terrorismo, nas guerras civis, no surgimento dos grupos fundamentalistas radicais, na tragédia dos imigrantes, nas ameaças ao meio ambiente e na inércia e inépcia das classes governantes. Enquanto o mundo se desagrega, os responsáveis por sua direção política e econômica, como se munidos de antolhos, só enxergam a ponta de seu próprio nariz que fareja apenas o que afeta seus interesses mais diretos e mais mesquinhos.

    Só os desastres naturais ocorrem espontaneamente. Os desabamentos de prédios são sempre causados por falhas na concepção, na construção ou na manutenção dos projetos. Os desastres sociais são assim também. Desde a companhia de aviação que toma decisões erradas na manutenção de seus equipamentos e dá instruções equivocadas a seus pilotos, até o Estado que coloca uma certa noção de estabilidade política como valor absoluto, acima da eficiência governamental.

    O Brasil é um microcosmo representativo desses fenômenos. Muitos desastres anunciados decorrem de decisões tomadas sem uma noção clara dos riscos, com base em casuísmos e na busca de soluções precárias. E tantos outros que no atordoamento do dia a dia deixamos de lado. "Não mexe porque está funcionando.” Um dia deixa de funcionar e cai!

    A mentalidade casuística, primária que permeia nossa História construída por colonizadores extrativistas, incapazes de pensar no futuro de um mundo que haviam descoberto e do qual se estavam apossando: um DNA persistente que continua a nos escravizar. O importante é o hoje e o agora: o imediatismo. "Também sou filho de Deus. Se o Zé da Silva fez, eu posso fazer. Também tenho de pensar na minha família". E assim por diante.

    Fenômenos como o aprofundamento do abismo que separa classes sociais e regiões, a decomposição de uma classe política em boa parte corrupta, alheia à noção de bem público, o agravamento da violência radical nas ruas e nas penitenciárias do Brasil, por exemplo, bem revelam essas pesadas marcas do nosso temperamento e da nossa formação.

    Na universidade, no princípio dos anos sessenta tínhamos longas discussões entre amigos: todos, como eu, angustiados diante do fosso que se abria no país e preocupados com a possibilidade de que ocorresse alguma ruptura no processo político. Muitos queriam que essa ruptura acontecesse: “esse país só pode ser governado pela força e pela disciplina — que venham as Forças Armadas para botar ordem na casa!” Outros queriam que a ruptura se desse pelo lado da revolução social. Ambos os lados revelaram-se equivocados: não veio a revolução social e a que veio cometeu trágicos exageros e não resolveu os problemas do país.

    O poder pouco a pouco voltou para a classe política: “los que mandan” para utilizar as expressões de José Luis Imaz, um grande analista argentino, em livro que explica a ascendência e a permanência do peronismo no poder. Uma classe política pouco interessada e menos ainda preparada para lidar com qualquer coisa além dos seus interesses pessoais ou patrimoniais. Assim se passou no Brasil. Em constantes rivalidades, muitos políticos, sempre associados a grandes patrimônios, alternam-se no poder para fazer negócios e promover seus interesses pessoais sob o pretexto do interesse público. Fez-se a grande política de conciliação na metade do século XIX e o poder passou a ficar predominantemente compartilhado. “Nada mais parecido a um conservador do que um liberal no poder”, dizia-se na época.

    A República tentou impulsionar transformações. No começo do século XX, logo se voltou ao sistema tradicional, cabendo a São Paulo e Minas alternarem-se no Poder central. Tudo voltou ao que era antes. Dizem os franceses: “chassez le naturel, il revient au galop” — afaste o natural e ele volta a galope.

    A revolução de 30 e o longo mando de Getúlio Vargas mantiveram os vícios que os haviam precipitado. Até que Getúlio, para salvar o que restava de sua honra e forçar uma transformação no país, optou pelo suicídio. E a transformação acabou não vindo.

    Passado o período do Governo militar, voltamos ao regime civil, que tantas esperanças levantou na sociedade brasileira e que hoje sofre o impacto da corrupção, da falência econômica e administrativa, do espectro da inflação, do desemprego, da violência gerada pelo tráfico de drogas, sem que o país tenha uma voz clara de liderança capaz de dizer quem somos, onde estamos e para onde vamos.

    É trágico. E quanto mais passa o tempo, menos tempo resta para colocar nossa História num rumo certo e compartilhado pela sociedade.

    O Brasil e o mundo vivem, na realidade, uma grande catástrofe feita pela mão do homem. Como se um período histórico estivesse ruindo sob nossos olhos sem que tivéssemos a capacidade de ver e entender o que está-se passando e menos ainda de articular soluções.

    Mais recentemente, a falta de lideranças na Europa e o radicalismo "provinciano", responsável pela vitória de Trump nos EUA, diminuem ainda mais as possibilidades de encontro de soluções para os problemas globais.

    O Brasil poderia e deveria ser parte do encaminhamento dos grandes problemas atuais. Seria preciso, entretanto, que pudéssemos pôr nossa casa em ordem sem demora. Em outras palavras, o desgoverno gera o descaso. Os grandes crimes justificam os pequenos. O individualismo e a irresponsabilidade que movem os que deveriam dar o exemplo acabam provocando o desânimo e a revolta que, por sua vez, põem em cheque qualquer tentativa de progresso econômico e social duradouro.

    Talvez seja possível que o atual esforço de recuperação pelo qual passamos possa ser o prenúncio de uma nova e tão desejada realidade. O problema é que quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito.

     

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