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    O que tem a ver a guerra entre PCC e CV com a queda de Dilma e a Lava Jato? | Carlos Wagner

    por Carlos Wagner | Histórias Mal Contadas | Publicada em 13/01/2017 às 21h26| Atualizada em 14/01/2017 às 14h55

    A maneira como estamos informando os leitores dá a entender que são fatos isolados três acontecimentos que sacodem o Brasil: a guerra entre facções criminosas, envolvendo, de um lado, o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e, de outro, o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e seu aliado Família do Norte (FDN), de Manaus (AM), que empilham cadáveres decapitados e esquartejados pelos presídios e ruas do país; as articulações do grupo que conspirou e derrubou a presidente Dilma Rousseff (PT-RS); e o trabalho da força-tarefa formada por procuradores da República, técnicos da Receita Federal e agentes da Polícia Federal (PF) na Operação Lava Jato, cujo símbolo é o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba (PR).

    Os fatos têm ligação. Basta fazer uma autópsia do contexto político do país e os pontos que os unem irão aparecer.

    Um exemplo: a falta de pessoas qualificadas na área de segurança pública no governo federal é resultado da montagem de uma equipe feita às pressas pelos conspiradores. A consequência foram os massacres de presos em Manaus e Boa Vista(RR). Outro exemplo: sem conhecer o contexto do crime organizado do Rio do Janeiro, os investigadores da Lava Jato encarregados dos casos do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB) não levaram em conta que o Rio é território do CV, uma organização com muitas ramificações entre as instituições cariocas e entre os lavadores de dinheiro (eventualmente também conhecidos como doleiros).

    Se cavar fundo nos acontecimentos é possível encontrar muita coisa comum entre alguns deles. Há um, em especial, que me preocupa enquanto repórter. Nos massacres de Manaus e Boa Vista, na conspiração para derrubar Dilma e na Lava Jato, o nosso trabalho deixou muito a desejar, tanto que colegas americanos se espantaram com a superficialidade da imprensa brasileira no caso de Dilma.
    Justamente no momento que os leitores precisam de um maior volume de informações precisas, as redações estão sendo desmontadas por conta de erros estratégicos dos donos das empresas. Isso resultou em uma vulnerabilidade da apuração jamais vista.

    Cito como exemplo o seguinte: não se sabe exatamente quando e como o grupo do então vice-presidente Michel Temer decidiu desistir de salvar o mandato de Dilma e assumir o lugar dela. Esclarecer este ponto neste episódio é fundamental para entender o futuro do atual governo do presidente Temer.

    No caso da Lava Jato, a cobertura jornalística está produzindo uma Escola de Base por dia, ou seja, um exemplo do que não se deve fazer em jornalismo (relembre o Caso Escola de Base clicando aqui). Sem condições de fazer uma investigação própria, estamos publicando relatórios da força tarefa como se fossem verdades absolutas. Também fizemos manchetes de conteúdos de delação premiada que ainda não foram investigados.

    Na questão das facções, estamos vendendo aos leitores a ideia de que PCC, CV e FDN são organizações formadas por criminosos violentos e ignorantes. A violência a que assistimos é a parte visível destas organizações que funcionam como se fossem grandes empresas administradas por gestores capacitados.

    Para entender o que está acontecendo é preciso atar o nó do que está rolando. A história costuma ser cruel com quem publica o fato pela metade.

     

    Carlos Wagner é repórter e o texto foi publicado originalmente em seu imperdível blog Histórias Mal Contadas.

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