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GRAVATAÍ, 06/04/2020
personagens

Ator Sirmar Antunes, homenageado deste ano na Feira do Livro de Gravataí, fala sobre ser artista, conta um pouco de sua história e se mostra um ferrenho ativista do movimento negro.

COM VÍDEO | A ’ponte aérea’ de Sirmar do ônibus Norte à Rede Globo

por Silvestre Silva Santos | Edição de imagens: Guilherme Klamt | Publicada em 20/11/2019 às 19h30| Atualizada em 28/11/2019 às 14h10

Ex-entregador de malotes dos Correios, demitido por fazer parte do movimento sindical em uma época em que não havia estabilidade no emprego para funcionário de empresa pública, ele foi tentar a vida em São Paulo. Aqui por Gravataí, morou entre os anos 2000 e 2011 “unindo o útil ao agradável”, como ele mesmo diz, referindo-se a um relacionamento amoroso que teve durante este tempo em que residiu no Bairro Bonsucesso, pertinho da sucateada e agora interditada Escola Estadual de Ensino Médio Tuiuti.

Sirmar Antunes, carnavalesco, ativista do movimento negro, ator dos palcos, das telonas e da telinha, é o homenageado da 33ª Feira do Livro de Gravataí, em andamento na praça central da cidade, a Praça da Bíblia, na frente da Prefeitura, até o próximo domingo (24/11). Aos 64 anos, completados dia 28 de outubro passado, o portoalegrense atualmente mora no bairro Glória, na capital.

--- A gente brinca dizendo que o mundo é uma porção de terra em volta da Glória, que é uma extensão do Medianeira, o bairro onde me criei --- disse Sirmar, hoje (20/11) pela manhã, em um encontro com a reportagem do Seguinte: nos jardins do quinto andar da imponente Casa de Cultura Mário Quintana, na capital.

Sobre Gravataí, garante:

--- Tenho muitos amigos na cidade, principalmente gente de teatro, pessoas ligadas à cultura, à educação. Morei por um bom tempo na cidade e sempre que posso estou em Gravataí. Minha ligação com a cidade é amorosa-passional-espiritual, também por causa da religiosidade que eu sigo, de matriz africana, e artística --- diz Sirmar.

O ator, que se nega a falar seu nome de batismo – “o nome que está no documento é uma coisa, uso só quando é preciso. Meu nome artístico é Sirmar Antunes e só esse que eu uso no dia a dia, no trato com o público. É assim que sou conhecido” --- afirma que é um amante da vida e das artes, além de se confessar um bon vivant que aproveitou - e aproveita! - muito as coisas boas da vida.

Atualmente com cuidados médicos por causa de problemas cardíacos, Sirmar jura que deixou de consumir bebidas alcoólicas e que está abandonando o vício do tabagismo. E garante: O que estragou sua saúde foi o excesso de uísque e muito cigarro. Hoje, mais comedido e evitando exageros, por vezes enfrenta dificuldades respiratórias e sua em excesso.

 

A homenagem

 

Ser homenageado na Feira do Livro de Gravataí, que tem como patrono Zé Vitor Castiel, outro gaúcho e ator do teatro, televisão e cinema, tem um significado especial para Sirmar. Segundo ele, mesmo que não seja autor de uma obra literária, a homenagem representa o reconhecimento ao seu trabalho artístico e, ao mesmo tempo, celebra a união da arte visual com o ato de escrever um livro.

--- Brinco falando sério que ser homenageado em uma feira de livros me torna uma pessoa cuja eternidade está bem próxima. Ou seja, serei tão eterno quanto os personagens que moram nos livros.

 

O início

 

Sirmar Antunes nasceu em um bairro periférico e habitado predominantemente por famílias de poder aquisitivo baixo. A vontade de ser ator sempre se manifestou, desde sua infância, embora ele fosse assimilar e entender isso bem mais tarde. Na escola, já “gostava de aparecer” e fazia declamação de poemas. Queria fazer as pessoas se emocionarem. Mais adiante, entrou para um grupo de teatro montado por professoras na escola em que estudava, bem pertinho da casa onde morava.

O rádio no qual sua avó escutava telenovelas, as quais ele reproduzia fazendo imitações depois que acabavam, e o ator Grande Otelo nas telas do cinema, foram suas inspirações e o impulsionaram, de fato, à carreira artística. O rádio lhe encaminhou para o teatro, e Grande Otelo o impulsionou rumo ao cinema, garante Sirmar.

 

OS NÚMEROS

 

1

Aos 64 anos, Sirmar contabiliza 45 anos de atividade como ator em cena, no teatro, cinema e televisão, e 43 anos como profissional na arte de representar.

 

2

Até então, era um amador, como ele mesmo diz. O primeiro trabalho pelo qual foi remunerado, ganhou “cachê” que é como se diz do pagamento aos artistas, foi no ano de 1976.

 

3

No ano seguinte, 1977, tornou-se sindicalizado e em 1979 conseguiu, por fim, o registro profissional como ator, salvaguarda necessária para trabalhar em qualquer set de filmagem ou palco do país.

 

Principais Filmes

 

A cabeça de Gumercindo Saraiva – 2018

Em 97 era assim – 2018

A superfície da sombra – 2018

Os senhores da guerra – 2016

Enquanto a noite não chega – Data de lançamento não informada

Em teu nome – 2009

Valsa para Bruno Stein – 2007

Netto perde sua alma – 2001

Lua de outubro – 1998

O dia em que Dorival encarou a guarda - 1986

 

Sirmar nos palcos

 

: Entre 1972 e 1975 o homenageado da 33ª Feira do Livro de Gravataí fez teatro amador. Ele debutou na peça de Oraci Gimba – Como revisar um marido Oscar, atuando pelo grupo da Sociedade Gaúcha de Artes (Soga), de Canoas.

 

: Também atuou na peça Calabar, de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, em Porto Alegre, vivendo o personagem Henrique Dias.

 

: Participou no Espetáculo Afro-latino – musical sobre raízes negras no Rio Grande do Sul, remontado em 1988 para discutir e questionar as comemorações do centenário da abolição da escravidão, fazendo a direção cênica e a iluminação.

 

: Em 1987 fundou o grupo de teatro dos Correios e Telégrafos, onde trabalhava – Cartaberta – , dirigindo o espetáculo O Planeta dos Palhaços – de Pascoal Lorenço, inaugurando o auditório dos Correios como casa de espetáculos.

 

: Entre 1990  foi morar em São Paulo onde trabalhou como arte-educador, na área de teatro, na Casa Aberta Leide das Neves, em Itaquera.

 

: Ainda em São Paulo, trabalhou na TV Bandeirantes como assistente de iluminação, por questões de sobrevivência.

 

: Também no centro do país, em 1993 atuou no espetáculo de dança - Ministros de Olorum - de Ari Matos, com coreografia a partir da dança ritual dos orixás.

 

: No ano de 2000, de volta a Porto Alegre, Sirmar participou como ator do espetáculo de dança Lanceiros Negros, onde representou o personagem de um lanceiro, que conta a história não contada pelos historiadores considerados oficiais.

 

Sirmar nas telonas

 

1 Sua primeira participação foi como poeta no longa metragem Domingo no Grenal, de 1979. Em 1986 participou do curta O dia em que Dorival encarou a guarda, considerado um dos melhores curtas brasileiros de todos os tempos (Festivais de cinema de Gramado, Espanha e Cuba).

 

2 Ainda em 1986 representou um dos principais personagens, o maragato El negro Juan Bispo, no filme Lua de Outubro, papel adaptado já que não foi criado para um ator negro.

 

3 Outros filmes com sua participação: 
Tolerância, de Carlos Gerbase,
Slake, de Rogério Ferraz,
Quadrilha, de Mariângela Grando.

 

4 No filme Concerto Campestre, que retrata o final do século XIX, na região das charqueadas, no Rio Grande do Sul, Sirmar interpretou um escravo rebelde convidado por um maestro espanhol a fazer parte de uma orquestra.

 

5 No ano 2000 Sirmar participou do longa Netto perde sua alma, baseado no livro homônimo de Tabajara Ruas, que também é diretor. Foi co-protagonista, interpretando o Sargento Caldeira, um líder dos lanceiros negros.

 

(com informações do site portalafro.com.br)

 

Sirmar na televisão

 

O ator porto-alegrense e quase gravataiense não chegou a fazer uma carreira de grande sucesso na televisão. Participou de algumas produções na rede Globo e na RBS-TV, mas conta que sua preferência são mesmo o teatro e o cinema. Para a emissora gaúcha afiliada da “vênus platinada”, participou de 11 episódios do Curtas Gaúchos e Contos de Natal.

Para a emissora que tem os maiores estúdios de produção de teledramaturgia da América Latina no Rio de Janeiro, a Globo, trabalhou em especiais como da também gaúcha Xuxa Meneghel, de Natal, ao lado do também ator de Gravataí, Paulo Adriane, e em novelas, entre elas Como uma Onda e Senhora do Destino.

--- Eu morava em Gravataí e ia gravar no Rio de Janeiro. Pegava o Norte (ônibus para Porto Alegre) para ir ao aeroporto toda semana, fiz uma ponte aérea entre Gravataí e o Rio de Janeiro. No ônibus já me conheciam e até pediam autógrafo – relembra o ator.

 

Vale a pena assistir

 

Confira o vídeo com a entrevista de Sirmar Antunes para o Seguinte:. Clique na imagem abaixo e, depois, siga na matéria.

 

 

20 de novembro

 

Ativista do movimento negro, Sirmar Antunes é um crítico do 13 de maio de 1888, data em que a Lei Áurea, de abolição da escravatura, foi assinada pela princesa Dona Isabel, filha do príncipe Dom Pedro II. Confira o toma-lá-dá-cá com o ator sobre o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra!

 

Seguinte: - Ainda há muito preconceito no Brasil?

Sirmar Antunes – Sem dúvida, claro que há. Não há uma pessoa, do mais jovem ao mais idoso, capaz de dizer que não foi vítima de alguma forma de preconceito. Eu mesmo fui vítima de preconceito, e isso acontece de várias formas. É num processo de seleção, quando o negro entra em uma loja ou supermercado e é olhado de forma diferente pelo vigilante, quando está bem arrumado e parado na frente de um hotel e chega uma pessoa e lhe entrega a chave do carro pensando que se trata do manobrista ou recepcionista...

 

Seguinte: - És a favor da política de quotas para inclusão dos negros no mercado de trabalho, nas universidades...?

Sirmar – Sou totalmente a favor, embora saiba que o resultado desta política de quotas só vai aparecer mesmo daqui a 40 ou 50 anos. As quotas não estão aí para beneficiar o pobre, o negro ou a mulher, ou o índio. É uma reparação da dívida que o Brasil, enquanto estado, tem para com a comunidade negra. Por exemplo, nos pouco mais de 500 anos de existência do Brasil, por uns 400 anos, por aí, tivemos a pena de morte. E quem é que morria, condenado? Os negros!

 

Seguinte: - Por que condenas o dia 13 de maio de 1888?

Sirmar – O dia 13, que é quando foi assinada essa tal lei Áurea, foi uma droga. E pior ainda foi o dia seguinte porque os escravos foram libertados apenas no papel. No dia 14 eles tinham que continuar comendo, tinham que ter onde dormir! Só que não deram aos negros um pedaço de terra com um lugar para eles ficarem, nada para que tivessem com o que trabalhar... O que aconteceu? Para ter o que comer, onde dormir, tiveram que continuar como escravos porque os donos das terras passaram a cobrar pela comida, pelo espaço que os negros ocupavam. Isso foi libertação? Não adiantou nada a tal de lei.

 

Seguinte: - O que falta para acabar o preconceito racial no Brasil?

Sirmar – O problema é que o Brasil, e os brasileiros, não aceita ser um pais negro. Esse é um problema que vai muito além da cor da pele. É econômico, social, cultural. O Brasil não é um país mulato, é um pais negro! Depois da Nigéria, na África do Sul, é onde está a maior população negra do mundo. Nos Estados Unidos são menos de 20% de negros, e aqui no Brasil somos mais de 50%. E embora sejamos a maioria populacional, somos a minoria social, constituímos a maior parte da massa carcerária nos presídios, entre muitas outras situações que criam, estabelecem uma diferença abissal entre as oportunidades que têm os brancos e as que são dadas aos negros.

 

Seguinte: - E como superar isso, o que deve ser feito?

Sirmar – O negro tem que se valorizar mais, colocar em evidencia a sua autoestima. O negro tem que recontar a sua história, tem que divulgar a história que não está nos livros das escolas, tem que ser o protagonista desta sua própria história. As pessoas têm que pensar em algo muito importante que costumo dizer: É obrigação de qualquer cidadão negro ou não-negro, antes de não ser racista, ser um antirracista. Temos que ser anti-preconceituosos, todos nós, brancos, negros, amarelos... Só assim vamos conseguir chegar a algum lugar, nos policiando como antirracistas, para evitar os atos racistas que são tão comuns na nossa sociedade atual.

 

 

 

 

 

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