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GRAVATAÍ, 14/11/2018
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Inscrições para candidatos a dindos de crianças e adolescentes abrigados estão abertas | ARQUIVO PESSOAL

Dindos do afeto

por Eduardo Torres | Publicada em 27/07/2018 às 12h02| Atualizada em 13/08/2018 às 16h46

Está escrito no Estatuto da Criança e do Adolescente: todos têm o direito à convivência familiar e comunitária. Quando se trata de crianças mantidas em abrigos pelo poder público, essa necessidade é ainda mais importante. Na última semana, a prefeitura de Gravataí oficializou o convênio com o poder judiciário e a ONG Elo para estimular ainda mais o programa de apadrinhamento afetivo.

— O apadrinhamento é uma forma de permitir que crianças que teriam poucas chances de adoção tenham convívio com a comunidade e, principalmente, tenham um bom exemplo para se guiarem no futuro. Porque, ao completarem 18 anos, eles saem do abrigo. O que vai ser desses meninos e meninas se não tiverem uma referência? A ideia do padrinho afetivo é justamente criar estes laços — explica o presidente da Elo, Peterson Rodrigues dos Santos.

 

 

Não se trata de uma etapa antes do processo de adoção. Ao contrário, quem deseja ser um padrinho afetivo não pode ser candidato a adotar crianças. É justamente para evitar que aqueles períodos de convivência no abrigo ou fora dali sejam um "test-drive".

Atualmente, Gravataí tem 76 crianças e adolescentes em cinco abrigos. Em torno de 30 delas são aptas ao apadrinhamento afetivo. Há em torno de 20 pessoas atualmente inscritas no programa na cidade. Na prática, a Elo já atuava em conjunto com o governo municipal e o judiciário para facilitar o apadrinhamento. O convênio oficializou o que já vem dando certo.

— Propiciar o encontro e a convivência com esses padrinhos, que apesar de não quererem adotar, possuem o desejo de manter um convívio, que é extremamente importante, pois também é uma forma de trocar experiências, afeto e criar vínculos — observou a juíza da Vara da Infância e Juventude de Gravataí, Luciana Barcellos Tegiacchi, no momento da assinatura do convênio.

O convênio atende às metas do judiciário para promover a Justça Restaurativa. 

— Neste processo todos serão ouvidos: tanto os adolescentes quanto os padrinhos, que passarão por uma formação a fim de receberem suporte e orientações com psicólogos e assistentes sociais sobre o que constitui o apadrinhamento afetivo, visando garantir o bem estar de todos os envolvidos — destacou.

 

Do afeto, nasceu uma causa

 

O trabalho da ONG surgiu a partir da experiência pessoal do Peterson. Morador de Gravataí, em 2013, ele queria participar de alguma ação voluntária. Encontrou em Porto Alegre uma organização que auxiliava o apadrinhamento afetivo.

— Nos abrigos, há crianças com baixa possibilidade de adoção. Aquelas que já passaram dos cinco anos, portadoras de doenças ou por alguma outra questão familiar. Nesta convivência eu percebi que elas não podem ficar desassistidas pela sociedade. O papel de integra-las não é do poder público, é nosso, da comunidade — diz o presidente da Elo.

 

: Lucas escolheu o Peterson, que foi depois "promovido" a pai | ARQUIVO PESSOAL

 

Naquela oportunidade, Peterson fez parte do método aplicado pela ONG de Porto Alegre para o apdrinhamento. Foram oito encontros pedagógicos, ensinando sobre o ECA, a importância do apadrinhamento e a responsabilidade dos candidados a apadrinhar. Foi organizada uma festa em que os canidatos a padrinhos e as crianças "apadrinháveis" usavam pulserinhas verdes. Foi aí que o Lucas, então com sete anos, escolheu o Peterson. 

— Ele se aproximou de mim e me entregou um balão, depois, pediu que eu segurasse o casaco dele. Eu perguntei se ele já tinha um padrinho, e ele me olhou e disse: "sim, dindo, é tu". Virei dindo na hora — conta.

Foram 14 meses de encontros no abrigo e passeios nos finais de semana, até que, em 2014, o Peterson resolveu ingressar com o pedido de guarda do menino. 

— Eu jamais pensei que eu conseguiria. Sou homossexual, solteiro e tenho condições humildes — lembra.

Um ano depois, o pedido foi aceito. Mais do que isso, Peterson tornou-se o primeiro pai solteiro a conseguir licença-maternidade no Estado. A livraria onde trabalhava lhe concedeu seis meses para convivência com o Lucas.

 

ONG surgiu em Cachoeirinha

 

O Peterson poderia ter guardado para si a experiência, mas durante o período de licença, percebeu o quanto ainda havia de informações distorcidas sobre o apadrinhamento. A começar pelo método.

— Não me agradou a forma como eu conheci o Lucas. Aquela festa com as pulserinhas, parecia que as crianças estavam em uma vitrine. Havia também muito desconhecimento. Eu percebia que muitos ingressavam como candidatos a apadrinhar, mas com a intenção de adoção. Ao invés de entenderem o papel de referência na vida daquelas crianças, agiam como alguém que está ali para ajudar o abrigo ou a criança. Não é este o objetivo do programa — resume.

Em 2015, ele tomou a iniciativa de criar a ONG, dentro da Cesuca, em Cachoeirinha. Hoje, o grupo atua em seis municípios da Região Metropolitana, tanto com o apadrinhamento, quanto na capacitação de profissionais para atuar nesta área. Além de Gravataí e Cachoeirinha, a Elo atende Canoas, Novo Hamburgo, Porto Alegre e Alvorada. Já há projetos também em Palmeira das Missões e, em agosto, deve iniciar um grupo em Montenegro.

 

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O método aplicado em Gravataí segue alguns passos. Os candidatos a padrinhos afetivos inscrevem-se e passam por cinco oficinas até gravarem um vídeo que servirá como apresentação deles aos possíveis apadrinhados. Por outro lado, as crianças e adolescentes também passam por oficinas e gravam vídeos se apresentando. Mas não é o padrinho quem as escolhe. São as crianças, a partir dos vídeos, que vão apontar quem poderá ser o seu padrinho afetivo.

Os primeiros encontros acontecem com o acompanhamento da equipe técnica, que avalia a continuidade ou não da relação. 

— Nossa ideia era desconstruir aquela imagem de que o padrinho é superior, ou que está ali para ajudar o abrigo. É preciso uma relação de afeto pessoal, e de entrega real — define Peterson.

O padrinho, ou madrinha, afetivo convive com a criança ou adolescente de maneira duradoura. Precisa ter disponibilidade de partilhar tempo e afeto, justamente para ser um ator fundamental na construção de um projeto de vida e autonomia do apadrinhado. Como o objetivo é possibilitar um vínculo fora da instituição de acolhimento, padrinhos podem, por exemplo, passar os finais de semana e as férias com o afilhado. 

Uma nova turma de formação para padrinhos afetivos está sendo aberta. As inscrições de candidatos podem ser feitas pelo 36007131 (secretaria municipal da família, cidadania e assistência social) ou pelo apadrinhargravatai@gmail.com ou informe-se na Vara da Infância e Juventude, ou ainda pelo site da ONG Elo.

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