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GRAVATAÍ, 25/05/2018
dia do trabalhador

Tyno criou a sua barbearia há pouco mais de um ano | Fotos EDUARDO TORRES

O churrasquinho do Sandro, a barbearia do Davide e o boom do empreendedorismo

por Eduardo Torres | Publicada em 30/04/2018 às 21h23| Atualizada em 07/05/2018 às 14h02

Neste feriado do Dia do Trabalhador, provavelmente o Sandro Santos Trindade, 45 anos, conseguirá descansar um pouco. É raro uma paradinha, já que o sustento do mês para o Sandro depende exclusivamente do que renderem os churrasquinhos diariamente. Se o último Índice da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), referente ao primeiro trimestre do ano, demonstra a taxa de 13,1% de desempregados no Brasil, o Sandro faz parte de um fenômeno impulsionado pela reforma trabalhista, e não tem muito do que reclamar. Quase três em cada dez empresas de Gravataí já são microempresas individuais (28%), como a carrocinha do Sandro.

— Durante muito tempo eu fui empregado, funcionário de uma empresa, mas percebi que como empregado demoraria muito para conseguir crescer e ter um rendimento melhor. Resolvi empreender e ganhar o meu próprio faturamento — conta.

Faz 14 anos que ele está estabelecido em uma das esquinas da Avenida Teotônio Vilela, no bairro Parque Florido, com o churrasquinho Fome Zero.

— Dei este nome pelo preço, né. Eu consigo fazer a R$ 3, bem menos do que se vê por aí hoje em dia — comenta.

No cardápio, bem adesivado na carrocinha que, primeiro o Sandro alugou, depois comprou, estão o espetinho de carne, frango, misto, pão de alho... E até a iguaria que ele resolveu testar e “não sobrou nem para os cachorros no final”.

— Fiz espetinho de costela a R$ 4. Foi tudo rapidinho, tive que fazer bem mais — diz

O Fome Zero abre sempre às 17h e funciona até por volta das 21h. Tudo depende do movimento do comércio próximo. E, a cada noite, são pelo menos 70 espetinhos vendidos. O rendimento está diretamente relacionado à qualidade no mercado dos autônomos, que se multiplica. Conforme o Portal do Empreendedor, Gravataí tem 307 churrasqueiros ambulantes formalizados como microempreendedores individuais (MEIs). É como se a cada quilômetro quadrado e meio de área do município, o morador tivesse um churrasquinho a sua escolha.

Sandro é formalizado. Ser churrasqueiro ambulante, aliás, é a terceira função com maior volume de registros deste tipo na cidade. E é apenas uma das que explodiram, sobretudo, a partir de novembro, quando a reforma trabalhista entrou em vigor. Hoje, Gravataí tem 10.638 MEIs registradas.Uma parcela que já chega a 28% das 37,5 mil empresas ativas na cidade até a última sexta-feira.

 

Nova legislação

 

Tornar-se autônomo virou uma opção, em muitos casos, bastante lucrativa com a flexibilização das relações trabalhistas. Pela nova legislação, as empresas podem contratar autônomos e, mesmo havendo relação de exclusividade e continuidade na prestação do serviço, não há vínculo empregatício.

— O movimento em busca da regularização como micro-empreendedor aumentou consideravelmente a partir do segundo semestre do ano passado. Em parte, pela reforma trabalhista, mas também porque as pessoas começaram a buscar a regularização. O nosso papel é de orientar para a importância de estar regularizado. É uma garantia que o trabalhador autônomo tem, porque ele vai estar, por exemplo, contribuindo para o INSS — explica a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Luana Krumberg.

Segundo ela, em média, a Sala do Empreendedor atende entre 60 a 80 interessados por semana. Criada há três anos, no Centro Administrativo Leste, a sala teve os maiores picos de atendimento justamente no segundo semestre do ano passado, quando vigorava o período para adaptação à legislação trabalhista.

O estímulo ao empreendedorismo fica evidente nos números. Foram 1.495 empresas abertas em 2017 na cidade. Uma alta de 34,3% em relação ao ano anterior, quando 1.113 haviam sido criadas. Em média, 125 empresas surgiram em Gravataí a cada mês no ano passado. A tendência é de alta. Desde o começo do ano, outras 522 já foram formalizadas. Na média mensal, o aumento já chega perto de 5%.

 

: Aos 45 anos, Sandro Trindade comanda o "Fome Zero" todas as noites no Parque Florido

 

Trabalho de sobra

 

Quando percebeu o tamanho da demanda e o que poderia ganhar não estando dependendo de um único empregador na construção civil, o morador do bairro Novo Mundo, Éverton dos Santos Martins, 32 anos, resolveu arriscar. Criou a Primus, sua própria empresa de funilaria, calhas e todos os serviços relacionados a telhados. Parece específico demais, não é?

Pois a atividade de calheiro é a terceira com maior número de autônomos registrados em Gravataí. São 678 profissionais dessa especialidade.

— Tenho 20 anos de experiência como funileiro, e vi muito daquele negócio de, quando a construção civil fica em baixa, um monte de gente ser demitida. Ora, trabalhar para mim mesmo, fazendo um bom serviço, seria muito mais vantagem — diz.

Há pouco mais de dois anos ele atende por Primus, inclusive agendando serviços pelas redes sociais.

— Tem que estar atualizado para garantir o teu espaço, né. Nos últimos meses aumentou muito a concorrência porque as obras voltaram a aquecer — explica.

Por semana, a Primus recebe entre cinco e dez novos serviços. E o Éverton avisa:

— Faço de tudo relacionado a telhados.

 

Davide criou sua própria barbearia e trabalha com o filho. O irmão também se prepara para dividir as tesouras

 

A onda das barbearias

 

No ranking das atividades autônomas com profissionais registrados em Gravataí, como em qualquer cidade da região, a dos comerciantes autônomos lidera o número de registros, com 1.031 MEIs. A característica da profissão é justamente esta. O segundo lugar da classificação é que reflete um fenômeno bastante atual: a multiplicação de barbearias e salões de beleza.

Em Gravataí, são 838 barbeiros ou cabeleireiros formalizados como empreendedores individuais. É um barbeiro para cada 327 moradores. Parece exagero, mas tem uma explicação além do empreendedorismo.

— Houve uma mudança na tributação de salões de beleza. Agora, cada barbeiro pode ser um colaborador, e é tributado individualmente, como uma MEI. Isso estimulou a formalização e o compartilhamento dos salões entre diversos profissionais — explica a secretária Luana.

Quem aproveitou a onda das barbearias foi o Davide Pinto Mateus, 35 anos. Qualificou-se e abriu a barbearia, no bairro Parque Florido, um ano e meio atrás. O filho, de 18 anos, trabalha com ele. E o próximo a pegar a tesoura será o irmão.

— Minha profissão anterior já não estava rendendo o que eu precisava, e, como a minha sogra já trabalhava como cabeleireira, eu achei que era uma boa — conta.

Ali, ele atende, durante a semana, uma média de até 20 clientes diários. No final de semana, este número dobra. Tyno, que é como Davide é conhecido e batizou a barbearia, está satisfeito com os resultados até agora, mas ele ainda não faz parte daquele volume de mais de 800 profissionais das tesouras e navalhas. Por isso, o próximo passo, garante ele, será a formalização como um barbeiro micro-empreendedor.

 

RANKING DOS AUTÔNOMOS DE GRAVATAÍ*

1.031 comerciantes autônomos

838 barbeiros/cabeleireiros

678 calheiros

307 churrasqueiros ambulantes

271 instaladores de equipamentos de segurança

(*) Levantamento refere-se somente aos microempreendimentos individuais

 

SAIBA MAIS

: A reforma trabalhista flexibilizou a atividade dos autônomos no mercado de trabalho. Pela nova legislação, em vigor desde novembro, empresas podem contratar autônomos e, mesmo se houver relação de exclusividade e continuidade na prestação do serviço, não haverá vínculo empregatício.

: Há duas modalidades de empreendimentos individuais, com tributações diferentes. Uma delas, abrange as empresas individuais com faturamento de até R$ 4 milhões por ano. Outra, é a MEI, com acesso facilitado e tributação mínima, abrange, desde o ano passado, empresas individuais com faturamento de até R$ 81 mil anuais. Até então, este grupo recebia somente empresas individuais com até R$ 60 mil anuais.

: Com a possibilidade de chegar a qualquer cliente, com a abertura do mercado para as MEIs, o diferencial da qualidade do serviço tornou-se mais importante para se firmar. A consequência natural é também a qualificação deste profissional.

: Pesa contra as MEIs, quando entram com tudo no mercado, a guerra de preços contra empresas maiores e com maior possibilidade de flexibilizar a margem de lucros.

: Se, para quem está na informalidade, já trabalhando como autônomo, a formalização como uma MEI é uma solução importante, por exemplo, por contribuir para a previdência, para quem é empregado e pensa em tornar-se autônomo, o fundamental é ter bastante informação e segurança sobre o meio em que quer atuar. Planejar seus próximos passos é fundamental.

 

 

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