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    dia das mães ou da família

    No Dom Feliciano, já faz dez anos que a celebração se tornou uma homenagem à família | Foto: DIVULGAÇÃO

    Domingo é dia de celebrar o afeto

    por Eduardo Torres | Publicada em 11/05/2018 às 09h39| Atualizada em 18/05/2018 às 13h17

    Família não é sangue. Família é união.

    Família não é sangue. Família é sintonia.

    A letra da banda O Rappa soa cada vez mais atual. Para o casal Lucimar Quadros e Rafael Gerhardt, e o filho deles, o menino João Vitor, este é um lema. O primeiro casal homoafetivo a conseguir a união estável e a adoção de uma criança em Gravataí, em 2010, o domingo, tradicionalmente lembrado como o Dia das Mães, não é uma data a ser esquecida, mas serve como mais um momento para celebrar o afeto.

    — Família é amor, é afeto, carinho e doação. Sempre lutamos para que o João Vitor, na escola, não tivesse uma data restrita como sendo para as mães ou para os pais. Não só por nós, mas por todas as outras crianças. Quantas delas têm pais ou mães solteiras? Quantas são criadas pelos avós? Celebrar o afeto em família eu considero muito mais importante — diz o proprietário de salão de beleza, Rafael.

    A batalha do casal para formar esta família virou livro: "Amor sem preconceito". E o menino, hoje com sete anos, está 2ª série do Ensino Fundamental justamente na escola particular mais tradicional da cidade, o Colégio Dom Feliciano. Ali, o Dia da Família já foi adotado.

    — Faz 10 anos que adotamos essa celebração porque nos preocupamos com as crianças. Sentimos por aquelas que não têm mãe ou pai, ou que são criadas por famílias que não seguem o modelo tradicional. Não poderíamos excluir ninguém de uma data que serve justamente para celebrar a vida — justifica a diretora da escola, irmã Jane Segaspini.

     

    : A família do Lucimar, Rafael e João Vitor foi parar no livro "Amor sem preconceito" | Foto: ARQUIVO PESSOAL

     

    Foi da própria diretora a iniciativa, ao deparar com duas crianças que eram órfãs de mãe e choravam muito durante a missa de celebração do Dia das Mães. Jane, também órfã, se identificou, e lançou o desafio aos educadores da escola.

    — Não é nenhuma adequação a novos tempos, por famílias com outras configurações, porque alguém assume a função materna e a função paterna. O importante é celebrarmos o afeto e o ambiente familiar das nossas crianças — aponta.

     

    Missa da família

     

    Neste sábado, haverá a celebração da missa da família na paróquia da escola, com a temática "berço do cuidado". Outra acontecerá em agosto, quando se comemora o Dia dos Pais. Como a irmã Jane reforça, não foi uma substituição de datas, já que os alunos seguem fazendo trabalhinhos e algumas apresentações referentes às datas tradicionais, além da celebração da família.

    Na rede pública de Gravataí, assim como em toda a rede estadual, comemorar ou não as datas dedicadas às mães e pais é opcional de cada comunidade escolar. Na rede municipal, porém, há uma orientação.

    — Nós entendemos que é importante trabalhar a questão da família com as crianças, e não restringir a Dia das Mães e Dia dos Pais. A maioria das escolas tem organizado o Dia da Família — diz a secretária municipal da Educação, Sônia Oliveira.

    Antes que os mais conservadores façam cara feia, não se trata de nenhum malabarismo para eliminar datas tradicionais. O dia dedicado à família foi instituído internacionalmente pela ONU, na data de 15 de maio, a partir de 1993. Não sem razão. Diante da cada vez menos constante "família tradicional" na concepção cristã, a intenção era homenagear laços de familiaridade e discutir o tema mundialmente.

     

     

    Nova realidade

     

    No Brasil, por exemplo, há 10 anos o IBGE apurou que 50,1% das famílias têm 18 tipos de laço familiar diferentes do modelo homem e mulher, como definido na Constituição. Em Gravataí, o João Pedro foi o primeiro a ter dois pais na certidão de nascimento. O documento, assim como a carteira de identidade, refere apenas por "filiação" quando registra os nomes de Lucimar e Rafael. Na agenda escolar também já não consta o espaço para preencher com nome da mãe e do pai, e sim como "nomes dos responsáveis".

    Mas, como lembra Rafael, nem todas as estruturas burocráticas estão adaptadas a uma realidade já não tão nova.

    — Nós precisamos viajar com o João Pedro e ele precisava ter o CPF, mas a Receita Federal não aceitava que não houvesse o nome da mãe. Como o nome do Lucimar serve para o masculino e o feminino, usamos o nome dele neste espaço, mas foi um "jeitinho". Não deveria ser assim — lamenta.

    Três anos atrás, ainda em outra escola, o João Pedro não quis fazer o trabalho de Dia das Mães. Acabou fazendo referência à avó, para apontar uma forma feminina no trabalho escolar. Ele já não precisa disso. Todos na turma sabem que ele tem o pai Rafael e o pai Lucimar. E que, neste domingo, eles passarão o Dia das Mães em família. Celebrarão a sintonia.

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