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    a coluna da jeane

    Da arte que nos salva

    por Jeane Bordignon | Publicada em 22/02/2021 às 16h25

    “Temos a arte para não morrer ou enlouquecer perante a verdade. Somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida”, escreveu Nietszche.

    E eu concordo. A arte nos salva de enlouquecer, principalmente nesses tempos pandêmicos, em que a vida humana parece valer tão pouco. Quando escrevo ou faço meus artesanatos, acalmo o coração e a mente.

    Enquanto costuro palavras e panos, também organizo meus pensamentos. E sinto uma energia única, que só quem faz arte entende. A gente se se sente mais vivo.

    Também acredito que é uma coisa que nasce conosco. Minha mãe guardou minhas primeiras poesias, escritas na infância. É um caderninho simples, mas onde copiei os poemas com a letra mais bonita que a Jeane criança conseguia fazer, e ainda criei um desenhinho colorido para cada texto.

    Ninguém me ensinou ou instruiu a organizar aquele caderno, foi algo espontâneo. Já havia uma artista dentro daquela menininha.

    Ainda na infância, tentei aprender crochê e tricô, mas não tive muito jeito. Tentei o bordado também, me dei melhor, mas ainda não tinha paciência para um trabalho minucioso. Gostava mais de criar cartões, principalmente para meus pais.

    Tive fase de pintura em tecido, de EVA, de dobraduras, de decoração de aniversário, de brinquedos para os primos mais novos, de desenhar… Em toda a minha vida, sempre estive criando alguma coisa. Entendo como uma necessidade.

    Há alguns anos descobri o feltro e não larguei mais. Em momentos em que tudo parecia desmoronar, a costura me ajudava a manter a sanidade. Também é uma forma de acarinhar as pessoas que amo, com peças únicas feitas por mim.

    A poesia é mais descarrego e instinto, difícil de planejar. Na maioria das vezes sinto que sou instrumento de algo maior, que escreve por meio das minhas mãos. Acho bem difícil escrever poesia a partir de um tema, poucas vezes deu certo.

    Só sei que não me vejo sem escrever, sem criar. É tão fundamental quanto comer, dormir e respirar.

    Quando meu sobrinho fez 8 anos, o presenteei com um violão. E algumas vezes disse a ele: “Quem toca um instrumento nunca está sozinho”. Em muitos momentos ele seguiu o conselho, e encontrou no violão um amigo que conforta.

    Sintetizando as palavras de Nietszche, podemos dizer que a arte nos salva da vida. Vou concluir a coluna de hoje com alguns poemas que escrevi nesse sentido:

     

    GOLES DE POESIA

    Imagina beber poesia

    Como quem bebe café?

    Os versos descendo mornos pela garganta

    Os versos despertando as células

    Do mais-do-mesmo

    Me dê mais uma xícara de palavras!

    Que eu preciso tanto de café

    Quanto de poesia

    Para encarar a palidez

    E a aspereza do dia.

     

    LUDICIDADE

    A cidade

    Me rouba o lúdico

    Acinzenta o olhar

    - Tenta -

    Metrificar meus batimentos

    E quando a menina

    Parece que vai sumir dos meus olhos

    Minha criança enxerga

    Novas formas de brincar

    Todo dia, a cidade

    Tenta me cegar

    Toda tarde, a poesia

    - Inventa -

    E descobre

    Novos motivos pra criar

    Todo dia, a poesia

    Me ensina a me reinventar.

     

    TINTA AMARELA

    Os girassóis

    estão por toda parte!

    E os campos de trigo

    são tão imensos!

    É preciso pintar!

    É preciso pintar

    enquanto o sol existe!

    Como uma febre

    que avança noite adentro…

    É preciso pintar

    as estrelas!

    É preciso derramar-se

    na tela em branco

    até a última gota!

    E no papel,

    nas paredes,

    em qualquer canto!

    Como uma febre

    que avança pela vida inteira.

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