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    a coluna da jeane

    Ilustração RONALDO BARROS

    Filhos?

    por Jeane Bordignon | Publicada em 04/07/2020 às 18h41| Atualizada em 05/07/2020 às 18h13

    Quando era mais novinha, adolescente, até imaginava que um dia teria filhos. Ou melhor, uma filha chamada Laura, nome de uma das minhas bisavós e que eu acho lindo. Mas conforme fui crescendo, também fui entendo que botar uma criança no mundo é uma responsabilidade enorme! E sempre tive o pensamento (e exemplo materno) de que devia primeiro estudar, me estabilizar numa profissão, para então formar família. A ideia de ter filhos parecia muito distante.

    Por volta dos meus 20 anos, minha prima Júlia veio passar uma temporada com a gente. A mãe dela só tinha conseguido emprego em Santo Ângelo e vinha para casa só aos finais de semana. O pai trabalhava o dia inteiro e fazia curso técnico à noite. Então a Júlia, com cinco anos, passava a semana conosco. Meu tio pegava ela no sábado e trazia de volta no domingo. Minha prima parecia uma bonequinha de tão linda, e já éramos muito apegadas, ela adorava meu colo e minhas brincadeiras nos domingos na casa da vó.

    Então eu adorava cuidar daquela menininha. Ela dormia no meu quarto, numa cama colada na minha. Tenho sono pesado até hoje, mas quando a Júlia dormia comigo, eu despertava a noite inteira para arrumar as cobertas ou ajeitar a pequena de volta na cama, porque ela se mexia muito e quase parava no chão. Acho que é instinto materno, né? No início ela tinha medo do escuro, então tive que me adaptar a dormir com abajur. Aos poucos, fui acostumando a Júlia com cada vez menos claridade, trocamos o abajur pela luz do banheiro que entrava pela porta entreaberta até o ponto de dormirmos sem luz nenhuma. Para dar confiança, eu segurava a mão da minha menina até ela adormecer. Não sei se ela lembra, mas é uma das memórias mais bonitas da minha vida.

    No ano seguinte, a Júlia iria começar a escola, e quis estudar no Antônio Gomes Corrêa, perto da nossa casa, mesmo com a mãe já trabalhando mais perto. Então a pequena continuou conosco, com a diferença de que os pais a buscavam uma vez durante a semana também. Fui eu que a levei no primeiro dia de aula, e igual uma mãe babona tirei foto dela na frente da escola. E como era eu quem levava e buscava muitas vezes a Júlia, os coleguinhas realmente pensavam que era a mãe dela. Também ajudava a fazer as lições de casa e brincava de boneca com ela. Era até divertido brincar de Polly Pocket, porque esse tipo de boneca não tinha na minha infância.

    Embora a parte das refeições ficasse mais com minha mãe, eu me encarregava de criar “didáticas” para fazer a Júlia comer feijão. Também ajudava no banho, escolher a roupa, pentear os cabelos. Contava histórias para ela dormir. Foram tantas histórias que cansei do meu repertório e comecei a criar novas aventuras para ela. Se hoje eu tenho sonhos de publicar livros infantis, tudo começou naquelas noites. Levava ao cinema, na Feira do Livro... Mas é claro que embora eu tivesse essa vivência intensa com a Júlia, e tenha um amor imenso por ela, não era a mesma coisa de que ter um filho meu. Nos fins semana eu podia viver (e dormir) só para mim, uma liberdade que sei que não há mais quando se tem filho pequeno.

    Mesmo assim, eu sofri quando a Júlia entrou na pré-adolescência. As primeiras mudanças do corpo eram sinal de que logo não estaríamos mais tão próximas, porque nenhum adolescente quer prima adulta por perto, eu entendo. Pouco antes da minha menina fazer 11 anos, os pais dela vieram morar aqui no Parque, e então encerramos um ciclo. Ainda a levava para passear, até que a adolescência chegou de fato e a Júlia passou a preferir a companhia das amigas da idade dela. Eu sentia falta, mas sabia que era a vida. E nem tinha muito tempo para lamentar, porque estava naquela fase de conciliar trabalho e faculdade.

    Pouco depois nasceu meu primeiro sobrinho, o Pedro. O grude da vó e do vô passava mais tempo aqui do que na casa dele, que é no mesmo terreno. Mas eu não imaginava que construiria um vínculo tão forte com aquele pequeno. Uma das lembranças mais emocionantes que tenho é de quando ele dormiu no meu colo pela primeira vez. Fiquei cantarolando uma cantiga de ninar e fazendo cafuné até ele adormecer, e foi lindo vê-lo se sentindo seguro nos meus braços.

    Quando o Pedro tinha uns 3 anos, a avó materna teve um problema de saúde, e minha mana do coração (porque não ganhei uma cunhada, ganhei uma irmã) ficou muitos dias em função da mãe. Então meu sobrinho passava o dia inteiro comigo. Brinco que ele me deu uma “amostra grátis” da maternidade, porque pude experimentar o que é ter uma criança atrás de você até no banheiro. “Jeane, o que tu tá fazendo?”, ele perguntava grudado na porta. “Número 1 ou número 2?”, insistia. “Vai brincar que eu já vou, guri”, eu respondia, no fundo achando uma fofura.

    Num outro dia, eu observei que meu quarto estava cheio de brinquedos espalhados, chinelo de criança embaixo da cama, e o Pedro estava grudando massa de modelar na parede… “Pra quê eu preciso ter filho?”, pensei. Também levei e busquei várias vezes meu sobrinho na escola, e eu adorava fazer isso, achava lindo ver o pequeno na fila com os coleguinhas. Ele era uma criança muito amorosa, e vez em quando colhia uma florzinha no jardim e me dava de presente. Imagina como eu ficava boba?

    Mas diferente da Júlia, o Pedro só dormiu comigo uma noite. O igual foi que também acordei diversas vezes para cobrir e ajeitar meu gurizinho. Conforme ele crescia, me enchia cada vez mais de perguntas, porque sabia que eu procurava responder tudo. E a tia aqui era aquela coruja que queria tirar foto de cada gracinha que ele fazia. Que achou a coisa mais linda do mundo as risadas dele enquanto assistia Ratatouille sentado no meu colo. Que quase chorou no dia em que ele disse: “Tu é minha tia e também minha Jeane”.

    Já li em algum lugar que filho é aquela pessoa por quem você daria a vida. E eu faria isso pela Júlia e pelo Pedro. Costumo dizer que sempre mais aprendi com eles do que ensinei. E procuro sempre reforçar que eles podem contar comigo para tudo. A Júlia cresceu e se tornou uma mulher empoderada que me enche de orgulho. Hoje tenho nela uma amiga com quem posso conversar sobre qualquer coisa, e isso é muito bom. O Pedro também está crescendo, não tem sido mais tão próximo porque está na adolescência. A coisa mais difícil quando fui pro Rio foi ficar longe dele… e quando voltei, no lugar do gurizinho bochechudo, encontrei um rapazinho vaidoso e mais alto que eu. Um adolescente que prefere ficar no violão do que conversar. Tudo bem, a tia entende tudo, e sabe que é uma fase…

    Dizem que uma hora o relógio biológico bate, mas aqui não bateu, e já estou chegando nos 40 anos. Vontade zero de ter filhos e entendendo cada vez mais que gosto da liberdade, de viver no meu tempo. E acho que não preciso botar mais uma criança no mundo para exercer a maternidade, prefiro me dedicar a projetos para levar literatura e arte para a gurizada que já está aí. Além disso, acho que tenho muitas coisas ainda para fazer com a Júlia e o Pedro. Talvez minha missão neste mundo esteja ligada aos dois. E não tenho medo de ficar sozinha na velhice (isso nem deve ser motivo para ter filhos): já disse pro Pedro que pode me botar num asilo, não tem problema… só não pode deixar me levar chocolate, mesmo que seja escondido das cuidadoras!

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