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GRAVATAÍ, 10/07/2020

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    coluna da jeane

    A enchente de 85

    por Jeane Bordignon | Publicada em 27/06/2020 às 14h03| Atualizada em 30/06/2020 às 22h33

    Em junho de 1985, o Rio Gravataí invadiu a parte baixa da Avenida Antônio Gomes Corrêa. Eu não lembro, porque tinha só 4 anos, mas a avenida alagada está no meu álbum de fotos da infância. Minha mãe conta que nem dava para chegar na frente da casa da minha avó, que ficava quase em frente da Astória. Sim, o rio tinha subido esse tanto. Na foto acima estou em frente ao portão da vó, e onde se vê aquela água toda do outro lado… era a avenida. Sei que era junho por causa do vestido de prenda, que minha mãe tinha mandado fazer para a festa junina da escola. Ou talvez fosse julho, porque eu tive sarampo naquele inverno e não pude ir à festa, então usei o vestido em um domingo na casa da vó.

    Como da enchente tenho apenas as fotos, pedi ajuda do meu tio mais novo, Roberto Bordignon. Ele tinha apenas quatro meses quando a família se mudou de São Jorge (então distrito de Nova Prata), para o Parque dos Anjos. O Beto, como o chamamos, pode dizer que cresceu perto do rio. Inclusive foi nele que aprendeu a nadar. “Quando criança tomávamos banho no rio Gravataí. Tinha uma prainha no final da avenida Antônio Gomes Corrêa. Depois começaram a construção de moradias junto ao rio, então passamos a ir na Praia da Pedra no Mato Alto ou na praia do Aristo”, lembra. (Eu, que nasci em 1980, cheguei a tomar banho no rio quando pequena também. Não sei ao certo em que parte, mas tenho alguma memória de um rio onde podíamos brincar na água.)

    Meu tio conta que desde criança percebia que o volume das águas mudavam muito de um ano para o outro. Em alguns anos chovia bastante e o rio subia. Em outros, como em 1977, a seca foi tanta que não havia água no poço para apagar as brasas da fogueira de São João. Mas em 1985 foram muitos dias de chuva.

    – O rio começou a subir devagar e não parou onde costumava parar todo ano. Chegou perto da rua num dia e no outro tomou conta da rua. Na nossa casa só chegou no portão, mas muitas famílias tiveram que sair de suas moradias – recorda.

    A água era tanta que um morador do Caça e Pesca trouxe um barco para passar as pessoas que precisavam atravessar a parte alagada.

    – No outro dia ele deixou o barco na nossa casa e eu remava e levava as pessoas de um lado para o outro. O meu sobrinho Rodrigo era o meu ajudante. Um dia atravessei um homem que tinha comprado um saco de laranjas; o Rodrigo não sossegou até jogar todas na água – lembra Beto.

    (Em defesa do meu primo: ele é quase um ano mais novo do que eu, então era muito criança, só estava brincando, claro).

    – Eu estudava à noite na escola Josefina Becker ao lado da igreja Matriz e para ir a aula tinha que atravessar com água acima dos joelhos. Depois botava o tênis para pegar o ônibus – acrescenta o tio.

    Depois de adulto, Beto estudou Geografia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o que ampliou seu olhar para aquelas águas que sempre foram tão próximas.

    – Na faculdade de Geografia, para minha alegria, um dos locais que estudamos bastante foi a bacia hidrográfica do Rio Gravataí. Foi muito bom pois, melhorou muito minha compreensão sobre o rio e sua importância para a comunidade que vive no seu entorno, apesar de ser tão maltratado. Aprendi também que o rio já correu na direção contrária da atual, isso a uns 100.000 anos atrás – relata.

    Hoje professor de adolescentes, ele se preocupar em levar os estudantes a terem mais consciência sobre o rio.

    – A escola onde dou aula, em Alvorada, fica próximo ao Gravataí. Mas a maioria dos alunos nunca viu o rio. Resultado de uma cultura da região de dar às costas ao rio. Ele é visto mais como uma ameaça quando transborda e invade as moradias. Nas minhas aulas, sempre que possível procuro falar do rio, da importância que ele tem para a comunidade, das belezas de quem o conhece, e de que não devemos jogar poluentes em suas águas. Explico que tudo que jogamos na pia, no banheiro ou na rua, vai parar no Rio – explica.

    Desde o ano passado estamos vivendo um período de estiagem em que vemos o nosso rio definhar pouco a pouco. A última vez que vi uma seca tão intensa foi no verão de 2004/2005. Eu trabalhava no jornal Correio de Gravataí e o rio era notícia constante naquela época. Há uma explicação para esse fenômeno se repetir de tempos em tempos.

    – Na faculdade, aprendi também que estamos no bioma Pampa, por isso o regime de chuvas é constituído de longos períodos de estiagem. E temos que aprender a conviver com isso – esclarece o Beto.

    Como morei no Parque dos Anjos quase a vida inteira, já fiz muitas caminhadas pelo Caça e Pesca e me deparei com muito desrespeito ao nosso rio. Já vi muito lixo nas suas margens e também dentro da água. Até uma carcaça de carro semi-mergulhada! Sem falar em todo o esgoto que vai parar no rio, né? Até quando vamos sujar a água que nós mesmos beberemos depois? As moradias também aumentaram muito. Felizmente nunca mais tivemos enchente como a de 1985, mas algumas ruas próximas do rio ainda sofrem em épocas de cheia.

    E o rio vai continuar subindo e descendo, subindo de novo, descendo de novo. Nós é que temos que nos adaptar e aprender a respeitar as águas que dão nome à nossa cidade (Gravataí significa “rio dos gravatás”). E lembrarmos que precisamos mais do rio do que ele precisa de nós. Deveríamos aprender com os ribeirinhos do Amazonas, como o poeta Thiago de Mello descreveu no livro Mormaço da Floresta: “O rio diz para o homem o que ele deve fazer. E o homem segue a ordem do rio. Senão, sucumbe.”

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