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    coluna da marcilene

    A invisibilidade da vida cotidiana

    por Marcilene Forechi | Publicada em 08/01/2020 às 17h40

    José saiu da delegacia meio atordoado. Em pouco mais de meio século de vida havia entrado em uma delegacia uma única vez, depois de ter sido assaltado no ponto de ônibus, quando voltava do trabalho. E isso foi há muito tempo.

    Olhou para o táxi parado do outro lado da rua, meteu a mão no bolso e percebeu que não estava com as chaves. Voltou à delegacia e encarou uma mulher hostil, que lhe respondeu secamente que as chaves se encontravam na gaveta do delegado e que ele só voltaria depois do almoço.

    – São só 10h30 – pensou em dizer, mas desistiu.

    Sem alternativa, José se sentou em um banco de madeira, encostado na parede encardida em frente à mulher amarga. Talvez, se pintassem aquela parede, colocassem umas flores, ela sentisse menos a angústia que parecia lhe atormentar a alma.

    O banco era o mesmo em que passara a noite. Apertou os pulsos, na tentativa de se livrar da sensação das algemas a apertar-lhe não apenas o lugar onde estavam. Havia um aperto na alma.

    Poderia dizer que a culpa foi daquela mulher bem-vestida, de voz mansa, toda maquiada e com o cabelo liso. Deve ter passado muitas horas no salão de beleza e, provavelmente, gastou mais do que ele conseguia ganhar em uma noite inteira de trabalho.

    Pensou na mulher e se deu conta de que nunca mais a veria, tampouco receberia o dinheiro pela corrida que ela se recusou a pagar. Foi ideia dele ir até a delegacia. Ela saiu sem pagar e ele foi algemado por estar “sob efeito do álcool”, como disse o delegado.

    Puxou conversa com um sujeito sentado ao seu lado, que também aguardava o delegado. O filho tinha sido preso há dois dias e ninguém lhe informava para onde tinha sido levado.

    – Ele é um menino – dizia sem muita convicção.

    – Não sei como ele se meteu com aquela gente e conseguiu aquela arma.

    José ouvia pensativo, lembrando do filho, hoje com 25 anos, e que trabalhava como ascensorista em um bairro chique da cidade.

    – Acho que tive sorte – pensou.

    O homem lhe ofereceu o jornal do dia. A manchete na capa lhe fez ficar mais pensativo ainda. Questionou em silêncio para onde teriam levado o psiquiatra que invadiu uma calçada três dias atrás e atropelou mãe e filha, uma menina de sete anos, que não haviam morrido, mas estava em algum hospital da cidade entre a vida e a morte. Com certeza, não tinha sido para a delegacia onde José passou a noite.

    Leu a reportagem atentamente. O médico estava visivelmente embriagado, segundo os policiais. Um vídeo, veiculado no telejornal da manhã, mostrava o homem jogando uma garrafa de cerveja fora ao sair do carro, cambaleante. Mas não havia nada sobre ele ter dormido algemado na delegacia.

    José esperou até as 14 horas pelo delegado, que chegou, ouviu da mulher amarga que o taxista de ontem à noite esperava pela chave do veículo, entrou na sala, abriu a gaveta, pegou as chaves, voltou à recepção e as entregou a ele sem dizer uma palavra.

    José pensou em agradecer. Mas não o fez. Agradecer pelo quê? Ter passado a noite algemado, ter sido humilhado? Saiu da delegacia com um sabor amargo na boca.

    Definitivamente, precisava de uma bebida. Entrou no primeiro bar que viu, poucos minutos depois de entrar no bairro onde morava, na periferia da cidade.

    Tomou um gole como quem celebra a vida, ainda que ela tenha lhe dados poucos motivos para celebrar. Bebeu a segunda dose, e a terceira, e a quarta... Saiu do bar cambaleante. Deixou o táxi no lugar onde estava e foi caminhando para casa.

     

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