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    coluna da teresa

    A favor do antigamente

    por Teresa Azambuya | Publicada em 24/10/2018 às 15h21

    A Varanda do Frangipani, romance do autor moçambicano Mia Couto, traz uma história intrigante. Um xipoco, ou melhor, um fantasma, passa a habitar o corpo de um investigador, que vai até uma comunidade isolada investigar a morte do diretor de um asilo.

    Todos os personagens dão suas próprias versões para o fato, em relatos contraditórios nos quais, muitas vezes, declaram-se culpados. A narrativa é repleta de humor, suspense e lirismo, elaborados numa linguagem apaixonante, como costumam ser os romances do autor.

    O livro, porém, está longe de ser apenas um romance policial. Traz consigo os conflitos característicos da história de Moçambique: colonizador e colonizado, brancos e negros, paz e guerra.

    Além disso, ao desvelar histórias individuais, ecoa a história de uma grande comunidade que  - aqui reside o aspecto universal – ao ignorar e perder, pouco a pouco, os seus “mais velhos”, está perdendo também o seu passado.

    “O mundo, lá fora, tinha mudado. Já ninguém respeita os velhos”, pensa o personagem Salufo Tuco, que sai do asilo e retorna profundamente magoado com o que viu.

    A memória individual que perece reflete-se na perda da memória coletiva. Dessa trajetória e desse enredo, tiramos proveitosas reflexões. É fácil, hoje, encontrarmos um jovem olhando para o celular, mas é difícil acharmos quem tenha a paciência de escutar os relatos dos mais velhos.

    Ou até nos deparamos com “ahãs” ditos sem pensar, para fingir uma escuta atenta, quando, na verdade, o olho ainda está grudado na tela.

    No que isso se reflete? Numa sociedade que não valoriza o passado e que, portanto, não tem como aprender com os próprios erros.

    Tornar optativa grande parte da carga horária do ensino de disciplinas humanas, como História, Sociologia, Filosofia é uma consequência direta disso.

    No contexto pragmático e consumista em que vivemos, talvez poucos estudantes (eu até gostaria de crer que isso é pessimismo meu) tenham paciência para “perder tempo” estudando o pensamento filosófico e o passado.

    É preciso aprender a trabalhar logo, para sustentar a família, para comprar um celular, para viver o hoje. Somente o hoje.

    E, assim, acumulamos equívocos.

    “É um golpe contra o antigamente, como bem diz a personagem Marta.

    Que a Literatura ainda nos permita esse espaço: de sentir prazer em ler, em conhecer outras culturas, outras realidades, e de termos contato com outras reflexões tão locais e, ao mesmo tempo, tão universais.

    Mia Couto é um ótimo autor para enveredar por esse caminho. 

     

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