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    coluna da teresa

    A importância de falar com as crianças

    por Teresa Azambuya | Publicada em 03/10/2018 às 11h31

    Augusto me perguntou:

    - Como é a sensação de dar mamazinho pro Artur, o que tu sente?

    - No início dói um pouco, contigo até sangrou, eu esperava as tais das duas horas rigorosamente e o seio ficava muito cheio de leite, machucava. Mas depois a gente aprende o jeitinho, hoje eu já sei que tem de dar mais seguido se precisar, e aí é muito boa a sensação de alimentar o filhinho.

    - Ah tá. Quero saber pra poder explicar pra minha esposa, se ela não souber. Quero ajudar.

    Eu sempre me surpreendo com o que ele diz. Crianças são atentas e observam muito. Não precisam de explicações profundas, mas não devem ficar sem resposta. Cada fase tem um nível de maturidade, e é muito importante esse diálogo. Qualquer assunto é possível.

    Outro dia, num café, Augusto observou:

    - Nas propagandas de brinquedo de menina, só tem palavras "linda", "bonita", e nas dos meninos tem "forte", "valente".

    - Isso é algo pra gente pensar, né, filho? O que tu acha disso?

    - Que menina pode ser forte e valente também, pode ser soldado, e até pilota de Fórmula 1 se quiser!

    Não que eu tenha conversado exatamente sobre “questões de gênero” em casa, mas falamos sobre respeito a cada pessoa, por suas escolhas, e sobre liberdade, sobre justiça. Essas conversas fizeram com que ele se sentisse capaz de analisar uma propaganda, de emitir seu próprio juízo.

    Também assistimos muito ao noticiário. De vez em quando, ele me pergunta qualquer coisa sobre política, e eu fico tentada a dizer – e várias vezes já disse - “tu não vai entender”. Mas a questão é que, se explicarmos, as crianças entendem o suficiente, do seu jeito.

    Quando Augusto tinha 7 anos, o papo no café foi sobre o capitalismo. Ele queria que todas as coisas fossem de graça no mundo. Pergunta após pergunta, tive de explicar sobre capitalismo, produção, distribuição de renda e injustiça.

    - Então é assim, mamãe: o capitalismo é como esse meu pão cheio de margarina do lado desse teu pão vazio. O certo seria eu pegar a margarina do meu pão (e ele com a faca foi fazendo o que dizia) e colocar também no teu, né? Ó, agora tá justo, todos nós com margarina no pão.

    Simples assim. Um sistema mundial, uma questão histórica e social compreendida num pão com margarina.

    Mesmo tão inocentemente, mesmo que a resposta seja simples, isso ajuda a criança a construir seu mundo. Não é fácil, é um desafio constante até mesmo com nossos limites, nessa vida tão corrida que levamos e nesses dias tão tentadores a ficarmos cada um com seu dispositivo conectado à Internet.

    Mas é disso, essencialmente da presença e do diálogo, que depende a nossa tarefa de “deixarmos filhos melhores para o planeta”, como muito se diz atualmente. Espero conseguir. 

     

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