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    coluna da teresa

    Arte sobre Guernica, de Pablo Picasso

    A adaga entre nós

    por Teresa Azambuya | Publicada em 28/08/2018 às 14h16

    “Por isso é que acredito que a literatura melhora as pessoas. Acredito piamente que ler romances e ficções torna as pessoas melhores porque as obriga a serem o outro.”

    (José Eduardo Agualusa)

     

    Em conferência realizada no Salão de Atos da Ufrgs, no último dia 6 de agosto de 2018, o escritor angolano José Eduardo Agualusa tratou de literatura, democracia e justiça, trazendo uma belíssima reflexão que demonstrou a confluência entre esses três largos temas.

    Ao abordar o caso angolano, lembrou dos momentos que antecederam a Guerra Civil naquele país, relatando o sentimento de cisão que permeava todos os espaços. Em jantares natalinos, por exemplo, a política era assunto vedado, visto que era comum haver famílias dividas ao meio em razão de suas preferências por um lado ou por outro. Agualusa relatou ainda que, na própria guerra, não raro, membros de um mesmo núcleo familiar lutavam em lados distintos.

    Essa divisão também ocorreu em outro caso, o da Guerra Civil espanhola. Li recentemente a obra O tempo entre costuras, da escritora María Dueñas, em que uma cena muito parecida com aquela narrada por Agualusa foi apresentada. Pouco antes do início fatídico da guerra, nos jantares da pensão em que morava a protagonista, Sira Quiroga, também não se podia falar de assuntos políticos, uma vez que os membros da pensão se digladiavam a ponto de atirarem os ossos da comida no comensal divergente. A dona da pensão, então, decidiu por somente oferecer pratos “líquidos” ou que pouco mal pudessem causar ao serem arremessados.

    O quadro parece absurdo, mas não dista muito do que observamos no cenário brasileiro atual. Para isso, justamente, Agualusa chamou a atenção: não se observa uma mera divergência de ideias, mas há como um rasgo profundo entre duas concepções sempre aparentemente antagônicas. É de se notar que a todo assunto posto em pauta, corresponde uma adaga: eleições presidenciais, refugiados, aborto, violência contra a mulher, desemprego, cotação do dólar, dívida pública, biscoito ou bolacha. Não há o que escape.

    O que está acontecendo, então? Estaremos nós, brasileiros, à beira de uma guerra sem precedentes?

    Se teremos bombas e explosões, somente o futuro nos dirá. Há, no entanto, um significativo processo de implosões, quer seja de crenças (na política, nos dogmas religiosos) quer seja nos conceitos e preconceitos desde sempre repetidos. A ruptura de paradigmas não seria, em si, um problema. O que vejo como assustadora é a incapacidade latente das pessoas em olhar / ouvir / sentir o outro ou de se colocar na posição de quem diverge, para tentar compreender sua visão.

    A situação me parece ser resultante de um articulado estratagema que construiu, durante décadas, por meio de um reiterado discurso, a ideia de que só o pragmatismo tem valor, de que a sociedade precisa de pessoas que calculem, produzam e apresentem resultados práticos. Tudo o que extrapolar essa concepção é desnecessário e inútil. Assim, as humanidades, as artes, o pensamento filosófico e o conhecimento histórico são nada perto de necessidades como saúde, segurança e educação.

    Pois justamente a falta disso, que muitos consideram frivolidade, é o que pode estar levando-nos ao colapso social. Eu teria horas e linhas para gastar defendendo cada um desses aspectos. Trato do que me é próximo, a literatura.

    Venho utilizando, há muitos dias, a palavra empatia como mantra. A complexa habilidade de colocar-se no lugar do outro é algo que poderia ser facilmente exercitado pela prática literária. Identificar-se com um personagem, sentir raiva, amor ou indiferença permite esse enlaçamento com a alteridade ou, no mínimo, oportuniza a capacidade de olhar além de si. É um aprendizado tão interno quanto profundo, mas nada objetivo. Não aprendo hoje, na aula de leitura do segundo ano do ensino fundamental, a ler um livro e a compreender imediatamente o meu coleguinha. Mas creio que a soma dasvariadas experiências de leitura me possibilitará, já como adulto, ao menos estabelecer um diálogo, atento ao contraponto. O fenômeno que temos presenciado é absurdo e paradoxal: uma discussão unívoca (dois termos que se rechaçam conceitualmente) em que vozes que se avolumam, letras garrafais se agigantam e háum ensurdecimento generalizado, tanto avultante quanto aviltante.

    Obviamente, não é uma fórmula exata. Há pessoas com vastas e qualificadas experiências de leitura que também se enclausuram, ensimesmadas. Mas são exceções. Penso que, na maior parte dos casos, quem exercita a leitura literária é mais propenso a desenvolver a empatia e, de modo geral, tende a conseguir, se não se colocar na posição do outro, pelo menos dar-lhe ouvidos. É, portanto, da mesma maneira como o conhecimento histórico e a filosofia, um aprendizado basilar, assim como o alicerce de uma casa: enterrado, invisível, mas, ao mesmo, indispensável.

    Para o momento, já não há pronto-socorro. Talvez essa profunda divisão perceptível em quase todas as manifestações não seja o prenúncio de uma guerra, como nos casos angolano e espanhol. Mas, com certeza, é um alerta de perigo: a um bom lugar é que não nos levará. (E isso é ainda mais preocupante num ano de eleições). Precisamos estar atentos e formar nossas crianças de maneira a prepará-las o suficiente para trabalhar, para produzir, mas também para ouvir o outro, para respeitar as diferenças, para refletir sobre todas as informações que recebem. Para, enfim, conseguirem se livrar das pequenas e grandes catástrofes que nós mesmos, os adultos,fomos capazes de produzir.

     

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