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    coluna da Sônia

    Sônia e Beta, ou Elizabeth Suardi - loira e mais alta -, em roteiro que as duas fizeram pela Galileia durante excursão com jovens estrangeiros. FOTOS | Arquivo pessoal

    Um pulinho em Israel

    por Sônia Zanchetta | Publicada em 07/05/2018 às 15h04

    Em dezembro de 78, parti em direção à Europa, para uma viagem que deveria durar um mês, mas acabou se estendendo a quatro, pois logo aprendi, com outros mochileiros, alguns macetes importantes para fazer os poucos dólares que carregava durarem mais.   

    Lá pelas tantas, a Beta, uma amiga de Porto Alegre, anunciou-me que estava indo para Israel, onde pretendia estudar Hotelaria, e que havia escolhido um voo com conexão em Paris, onde eu me encontrava, para que passássemos uns dias juntas.   

    Depois de uma semana de longas caminhadas e sonoras gargalhadas, ela seguiu para Jerusalém, e prometi que iria visitá-la antes de voltar ao Brasil. E, 20 dias depois, lá estava eu, hospedada em um ulpan, uma espécie de internato onde ela estava aprendendo o hebraico, para poder ingressar na universidade.  

    Permitiram que eu dormisse em seu quarto com a condição de que cobrisse o custo das refeições, e fui alertada de que as dos fins de semana deveriam ser pagas na sexta-feira à tarde, porque no Shabat, o dia semanal de descanso estabelecido no Talmude, que vai do pôr do sol de sexta-feira até o de sábado, nenhum judeu deve tocar em dinheiro.

    Isso era levado tão a sério que sequer os ônibus judeus circulavam no Shabat, mas, apesar das recomendações contrárias, íamos a todos os lugares que nos davam na telha nos ônibus árabes. A animosidade e a desconfiança entre os dois povos estavam no ar o tempo todo...   

    Nas semanas transcorridas entre nossa despedida, em Paris, e minha chegada a Israel, a Beta, que era filha de mãe judia, mas que só sabia dizer shalom (paz) em hebraico, tinha aprendido as palavras lo (sim), ken (não) e duas ou três outras, ou seja, quase nada.  

    Mas, dona de uma autoconfiança invejável, conversava com todo mundo, na rua, e até paquerava, recorrendo, toda hora, a uma colega argentina, que tinha um vocabulário mais amplo e estava sempre por perto para atuar como tradutora.   

    E, assim, palmilhamos toda a fascinante Cidade Velha de Jerusalém. Estivemos no Monte do Templo e no Muro das Lamentações, dos judeus; na Basílica do Santo Sepulcro, dos cristãos; no Domo da Rocha e na Mesquista de al-Aqsa, dos muçulmanos. Também percorremos inúmeras vezes as vielas do Mercado Árabe, onde não aprendi a pechinchar, mas troquei meus anéis, brincos e corrente de prata por artesanato local, e comemos todas as sementes tostadas que vocês possam imaginar, além de tomar muito chá de menta.

    Um dia nos convidaram para uma excursão gratuita até a Galileia, da qual participariam dezenas de jovens estrangeiros. O pretexto da viagem era o Dia da Colheita. E lá fomos a Beta e eu, super animadas, como sempre.

    Além de plantar árvores em um deserto, passamos por vários lugares incríveis, como Massada, um platô escarpado, de dificílimo acesso, onde viveram, em uma fortaleza, no século I, judeus zelotas que se recusavam a se submeter à ocupação romana. Segundo historiadores, quando os romanos conseguiram, afinal, invadir a fortaleza, seus moradores cometeram suicídio coletivo para não serem capturados.  

    Nossa viagem culminou em um kibutz (fazenda comunitária), onde nos esperavam com um belo almoço. Até então, tudo parecia perfeito e mal podíamos suspeitar da real motivação do convite que nos havia levado até lá.  

    Depois do almoço, conversamos com algumas crianças, que nos apontaram uma bandeira vermelha e branca, que tremulava em uma haste, não muito distante do kibutz, e nos explicaram: “Ali começa o Líbano”.

    Na época, os dois países mantinham um confronto armado, agravado pela atuação de milícias como a Organização de Libertação da Palestina, formada, originalmente, por refugiados palestinos que foram expulsos ou fugiram de seu território quando foi criado o Estado de Israel em 1948.

    As crianças nos contaram que eram treinadas, desde muito pequenas, a correr para o abrigo antiaéreo cada vez que havia um bombardeio e que sabiam até identificar os tipos de bombas que eram lançadas contra o território israelense. 

    Bem assustadas, chegamos a um salão onde haveria uma palestra , e só então as coisas ficaram claras. Ali soubemos que qualquer um de nós poderia trabalhar seis meses no kibutz e que o salário pago era tão interessante que nos permitiria comprar um carro ou fazer uma longa viagem internacional na volta. Vários jovens judeus presentes deram seu testemunho de como se sentiam felizes por estarem ali, ajudando a manter a fronteira ocupada, para inibir as invasões.

    Expliquei que aquela oferta não me interessava em absoluto e que sequer era judia (na verdade, o sobrenome Pereira, da minha mãe, parece indicar o contrário, pois nomes de árvores foram alguns dos escolhidos pelos cristãos novos, judeus convertidos ao Cristianismo, na Idade Média, na Península Ibérica, para fugir à perseguição dos reis católicos).

    Mas o palestrante seguia elencando outras vantagens que podiam nos oferecer, se topássemos passar uma temporada por lá. Então, só me restou elevar o tom da voz e a contundência dos meus argumentos, para que me deixassem fora dos seus planos.  

    E voltamos, a Beta e eu, a Jerusalém, mortas de rir daquela situação em que havíamos nos metido...

     

     

     

     

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