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    coluna da Sônia

    O dia em que meu pai não morreu

    por Sônia Zanchetta | Publicada em 13/04/2018 às 15h11| Atualizada em 13/04/2018 às 15h14

    Meu pai era louco por música clássica e colecionava discos desde sua juventude. Quando eu era pequena, havia, lá em casa, um quarto com uma eletrola, daquelas que vinham com um móvel de madeira, e estantes, em que ele, com bom virginiano, guardava, da forma mais organizada possível, em uns álbuns que se compravam na época, seus discos de vinil de 33 ou 78 rotações.

    Entre aqueles discos — que já eram mais de 600 naquele tempo e viraram milhares ao longo dos anos —, lembro de apenas dois de música popular: um do Noel Rosa, que tinha a música Faixa Amarela, que nos fazia dançar pela casa cada vez que era tocada;  e outro, da Eartha Kit, com canções interpretadas em vários idiomas, que sabíamos de cor, sem conhecer o significado das letras.

    O pai dormia pouquíssimo e, de madrugada, era comum que se fechasse naquele quarto para ouvir música. Como saí a ele ao menos nesta questão (sempre tive pena de dormir), conheci, nessas horas insones, não sei quantos compositores, orquestras, maestros, libretos de ópera, tenores, contraltos, sopranos e  baixos.

    Lembro de quando ele me “apresentou” à soprano peruana Yma Sumac: “Olha só, filhota, o alcance desta voz! Ela atinge cinco oitavas!”. Em outras ocasiões, passava horas falando sobre o tenor italiano Enrico Caruso e me fazendo ouvir seus discos (uns tão antigos que eram gravados de um lado só) ou a mesma sinfonia por várias orquestras ou regida por diferentes maestros.

    Lá pelas tantas, eu fingia que estava com sono, para escapulir daquelas intermináveis aulas de apreciação musical, sem saber o quanto marcariam minha vida.

    Os anos se passaram e, em 1970, logo depois de ter se separado da mãe (por iniciativa dela, diga-se de passagem), o pai partiu em direção ao hotel do José Prior, seu amigo do peito, em Cachoeirinha, onde chegou com uma mala de roupas, uma poltrona, a tal eletrola e caixas e mais caixas de discos.

    Depois, passou por alguns apartamentos, sempre carregando seus bens mais preciosos, até que voltou a viver em Porto Alegre, com meu irmão Toni. Mas, como seguia trabalhando na cidade, manteve o último deles, onde ficaram a eletrola e a coleção de discos, da qual desfrutava algumas horas por dia e, à noite, quando decidia ficar para dormir por lá.

    Em 1982, eu, que já estava vivendo no Equador, vim passar o Natal no Brasil e encontrei o pai em depressão profunda. Só então a família teve coragem de me contar o que havia ocorrido.  

    Foi o seguinte: Um determinado dia, telefonaram de Cachoeirinha para a Bia, minha irmã, para contar que o apartamento do pai estava incendiando, e que ele devia estar lá dentro, pois seu Opala estava estacionado em um posto de gasolina da vizinhança, onde o deixava quando ficava para dormir na cidade.

    Nervosíssima, a Bia ligou para o Toni, e ficou sabendo que o pai estava com ele e, que contrariando seu hábito, havia deixado o carro em Cachoeirinha na véspera.  

    Pouco depois, eles estavam em Cachoeirinha, onde o pai foi recebido com festa por amigos, vizinhos e populares, que, em um primeiro momento, haviam acreditado que estava morto. Mas, em compensação, constataram que não havia sido possível salvar nada do apartamento.       

    Então, naquele Natal, todos os familiares e amigos que participaram da nossa ceia deram discos de presente ao pai. E, meses depois, ele se convidou para participar de uma viagem de férias que eu faria à Europa, e comprou discos, não só clássicos, mas também de música popular (dizia, então, que seu gosto musical havia se ampliado pelo convívio com os filhos) em todos os países em que estivemos.  

    Mas, cá entre nós, ele carregou até o fim a dor que lhe causou a perda daqueles discos...

     

     

     

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