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    coluna da Sônia

    Dia da Poesia

    por Sônia Zanchetta | Publicada em 21/03/2018 às 17h25

    Não tenho o sol escondido
    no meu bolso de palavras.
    Sou simplesmente um homem
    para quem já a primeira
    e desolada pessoa
    do singular - foi deixando,
    devagar, sofridamente
    de ser, para transformar-se
    - muito mais sofridamente - 
    na primeira e profunda pessoa do plural.

     

    Thiago de Mello, em Para os que virão

     


    Hoje é o Dia Internacional da Poesia, instituído pela Unesco, em sua 30ª Conferência Geral, em 16 de novembro de 1999, com o objetivo de promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da poesia através do mundo.

    Ponho-me  a pensar na importância que a poesia teve e segue tendo em minha vida... Nossa! O que teria sido de mim, que nunca fui a um analista, se não fossem os poetas?

    Ocorre que, no meio do caminho, havia, não um pedra, como diria Drummond, mas muitos livros de poesia e uma mãe que costumava lê-los, emocionada, em voz alta, e um tio-avô chamado Mansueto, que tinha vários títulos publicados e que nos dava de presente poemas especialmente escritos para nossos aniversários.   

    Comecei com os poemas agradáveis ao ouvido, bem rimadinhos e que falavam de coisas leves. Mais adiante, lá pelos meus 15 anos, descobri Fernando Pessoa, primeiramente pela voz da nossa professora de Literatura, do Curso Normal, Nádia Tondo (Que professora aquela!).  

    Um dia, ela entrou na sala de aula declamando em altos brados: “Todas as cartas de amor são ridículas!”, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta.

    E antes que eu pudesse fechar a boca, escancarada de encantamento diante daqueles versos, ela passou a falar sobre a vida atormentada do poeta e de como ele havia se dividido em vários, para manter sua coerência.  

    No dia seguinte, corri à Livraria do Globo, da Rua da Praia (Ai que saudade daquela livraria!), após as aulas, e investi todo o capital de que dispunha na compra de uma antologia de poemas de Fernando Pessoa, que, de acordo com o que me informaram, era o único livro de sua autoria disponível, no mercado nacional, na época.   

    Anos depois, em Coimbra, comprei sua obra completa, publicada — Imaginem só! — pela editora Nova Aguilar, aqui do Brasil. Saí da loja tão encantada com aqueles livros impressos em papel de arroz que jurei para mim mesma que jamais emprestaria qualquer um deles.

    Mas a mania de querer fazer os outros lerem o que me agrada, que me acompanha desde a adolescência, falou mais alto e, quando vi, todos andavam por aí, e só voltou um e bem detonadinho.  

    Mais adiante, a Cia das Letras lançou todos esses livros, e corri a comprá-los de novo, aí sim determinada a jamais me desapegar deles. E estão, até hoje, inteirinhos, em um cantinho da minha sala, onde vira e mexe abro algum, aleatoriamente, e volto a me emocionar.

    Esses e mais um punhado assim de livros — entre os quais os do Thiago de Mello, cujos poemas me chegaram como um soco no estômago e reviraram minha vida —, foi o que sobrou de minha segunda biblioteca (a primeira deixei quase toda no Equador, por falta de grana para o excesso de bagagem, quando retornei ao Brasil, depois de ter vivido 17 anos por lá).  

    Os demais foram distribuídos entre outros leitores pelo projeto Quitanda da Leitura, que criei um pouco depois de vir viver em Cachoeirinha, quando me dei conta de que não havia poucos livros na cidade, mas que estavam concentrados em poucas mãos.

    Os livros têm de circular, não é?

     

     

     

     

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