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    coluna do dienstmann

    Era fácil ser amigo do Oto

    por Cláudio Dienstmann | Publicada em 12/02/2018 às 16h05| Atualizada em 13/02/2018 às 15h17

    “Time de futebol é uma sociedade com 11 acionistas” (Oto Glória, técnico).

    “Torcedor brasileiro não gosta de futebol, gosta é do seu time e de um ou outro jogador: se o time ou o jogador estiverem mal, o torcedor vai embora e larga o futebol” (Oto Glória, técnico).

    “Futebol é igual a cozinha: não se faz omelete sem ovos, nem time sem jogadores” (Oto Glória, técnico).

     

    Em 1971 o Grêmio deu um salto na qualidade do futebol gaúcho, ao contratar o técnico carioca Oto Glória, multicampeão pelo PSG e Benfica e da seleção de Portugal em sua melhor Copa do Mundo, em 1966, com Eusébio, Simões, Coluna, Torres (e depois da Nigéria campeã africana). Ele tinha uma explicação muito pessoal para a sua volta ao Brasil:

    – Técnico sabe que está na hora de sair quando começa a ser convidado para padrinho de casamento e filho dos jogadores, mas o fim mesmo foi quando eles ensinaram o meu apelido ao papagaio da concentração: mal eu aparecia e o puto do papagaio já gritava “Mocotó, Mocotó”: naquela altura, eu só tinha que largar fora.

    Era fácil ser amigo do Oto, gajo simples, que falava assim mesmo, aos palavrões. E apesar de acostumado a aviões, desconfiava deles. Com mais razão num vôo do Grêmio, num estranho Dart Herald, um bicho estranho com as asas por cima e um motor de cada lado, exatamente ao lado das janelinhas:

    – Eu sempre achei que avião teria que vir com um paraquedas, bem gigante, mas nesse caso aqui, com as hélices junto das janelinhas, não ia adiantar nada: se uma delas se soltar, vai cortar essa merda aqui pelo meio, e aí, babaus.

    Com tanto tempo na Europa, Oto se irritava com alguns comportamentos dos jogadores brasileiros. Numa excursão ao nordeste o Grêmio pagou uma ida ao cinema para o time, em Fortaleza, e todos os jogadores foram, menos Alcindo e Flecha:

    – Parecem crianças: os dois pediram o dinheiro da entrada, e só pararam de encher o saco até receberem o que queriam.

    Oto gostava de uísque, Long John. Ainda em Fortaleza, depois da janta no hotel, Oto e o amigo já haviam derrubado um litro do tal João Comprido e estavam enfrentando o segundo, quando o garção sugeriu um passeio de jangada... às quatro da madruga!. Sugestão recebida, sugestão aceita, com irresponsável entusiasmo.

    O mar era logo do lado do hotel, e o jangadeiro já estava chamando, de pé, encima da jangada desse tamanhinho, no meio de cada onda desse tamanhão.

    Oto e o amigo só precisaram se olhar uma vez, e o técnico avaliou o cenário, recompôs a sanidade e deu o decreto:

    – Tá maluco que a gente vai subir numa bosta dessas, ficar cambaleando em pé, tomar uma onda dessas na cara e cair no mar? Nós vamos é voltar ao hotel e continuar no nosso uísque.

     

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