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    coluna do Golembiewski

    Filme é uma homenagem ao ator Harry Dean Stanton, veterano da Segunda Guerra, solteirão por opção e ateu convicto. Ou nem tão ateu!

    Lucky

    por Marcos Golembiewski | Publicada em 17/01/2018 às 14h06| Atualizada em 17/01/2018 às 14h32

    No filme “Lucky”, temos duas dimensões sobrepostas. Claro, primeiro a história do filme, que trata de temas difíceis como a morte, a solidão e a velhice. Como o protagonista é ateu, esses assuntos são tratados, digamos, de forma realista, seca, como o deserto que serve de cenário. Não há espaço para sentimentalismo ou visões românticas desta etapa da vida.

     A segunda dimensão é que o filme também é uma homenagem ao ator Harry Dean Stanton, conhecido por “Paris, Texas”, “À Espera de um Milagre” e muitos outros papéis coadjuvantes e marcantes do cinema independente americano. Esse reconhecimento aparece também nas semelhanças entre o ator e o personagem, pois ambos são veteranos da segunda guerra e nunca casaram.  Stanton coincidentemente acabou morrendo no mês de lançamento do filme, em setembro de 2017, aos 91 anos.

    A sinopse informa: “Aos noventa anos, o ateu Lucky parte em uma jornada espiritual pelo deserto habitado por pessoas bem peculiares”. Essa jornada, no entanto, apenas confirma suas convicções, inclusive a da solidão, sendo que o personagem diferencia o ser solitário do ser sozinho. No seu caso, a solidão é uma opção, a escolha de viver só.  

    Lucky enfrenta essa etapa, a finitude no horizonte, de forma sóbria e realista, tendo presente que as pessoas lidam de maneiras diferentes nestes temas. A certa altura diz: “Realismo é uma coisa. As coisas como elas são, porém, as coisas como são para mim é diferente das coisas como são para você”.

    Na sequência ele complementa: “aceitar as coisas como são e lidar adequadamente”. E assim ele segue aceitando as coisas como elas são.  Mas há algumas concessões à frieza do realismo vivido pelo personagem. Após sofrer um desmaio, Lucky sente a proximidade do fim e numa conversa com uma moradora do lugarejo que vai visitá-lo, pede segredo e confessa que está com medo.

    E podemos dizer que há também outra concessão ao frio dos acontecimentos e da realidade, na cena em que Lucky conversa com outro veterano de guerra. Este lembra da invasão americana numa ilha na Ásia e da postura da menina oriental, talvez orientada pela filosofia budista, que na hora fatal estampou um sorriso largo em seu rosto, um sorriso para o destino.

     

     

     

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