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    coluna do dienstmann

    Meio quilo de café para uma russa enorme

    por Cláudio Dienstmann | Publicada em 06/01/2018 às 18h06

    “O futebol não se resume a dinheiro, é bom ter algum mas também se pode ter sucesso com pensamento positivo, determinação, persistência, juventude e trabalho duro: é necessário trabalhar com o que se tem – e esta é a recompensa mais gratificante” (Rene Girard, jogador e técnico francês).

     

    A Copa do Mundo deste ano será na Rússia, onde a seleção brasileira já jogou por exemplo em 1973, quando os russos faziam parte da União Soviética. Foi numa excursão de 35 dias com nove partidas em nove países – Argélia, Tunísia, Itália, Áustria, Alemanha Ocidental, União Soviética, Suécia, Escócia, Irlanda – irrepetível, porque naquele tempo todos os jogadores ainda jogavam apenas em clubes do Brasil.

    A comunicação com os jornais, 45 anos atrás, era por telex. Nos países mais adiantados os jornalistas passavam os seus textos direto nos aparelhos de transmissão dos correios e telégrafos ou no estádio, mas nos menos tinham que levar o texto datilografado para um posto de atendimento, onde tudo tinha que ser copiado para o envio.

    Na Rússia foi assim, com problemas extras de censura. A situação começou da seguinte maneira: no primeiro dia cada jornalista teve que bater numa janelinha da sala de atendimento do correio em Moscou, largar o seu texto, vinha uma mão enorme e recolhia o texto, e seja o que Deus quiser. Informação, nenhuma – na melhor das hipóteses, um resmungo do outro lado (sinal ao menos de vida do outro lado da parede!).

    O jornalista gaúcho era novato, meio desprezado pelos cobrões, recém saído das picadas de Languiru mas prevenido: ainda no embarque no Rio, tinha colocado boa parte do seu escasso dinheirinho na compra de uma caixa com dez pacotes de meio quilo de café, para uma emergência. Alguns já tinham ficado pelo caminho – para um brasileiro refugiado político na Argélia, um estudante na Áustria, um novo amigo na Alemanha ... Mas a emergência mesmo veio em Moscou! 

    Aquele silêncio do primeiro dia – deu para passar o telex, não deu, ninguém sabia, nada – não podia continuar. No segundo o novato resolveu chegar bem antes dos outros, e quando a janelinha abriu, junto com o texto o gaúcho tratou de enfiar um pacote de meio quilo daquele café (calculando também que poderia ser preso por tentativa de corrupção).

    A mão enorme apareceu, e a reação de lá foi assustadora: um grito de espanto e soluços. Dez segundos depois, escancarou-se uma porta da sala de telex, e surgiu uma russa de dois metros de altura por um e meio de largura, aos prantos e com um sorriso infantil, de orelha a orelha, acariciando o pacotinho como uma jóia.

    Jamais na história do café um pacote de meio quilo dele foi tão bem aproveitado. Numa novilíngua – língua nova – criada naquele momento, comunicação com mistura de inglês, alemão, português e russo, a russa abraçou e quase sufocou o seu benfeitor, explicou que amava café, mas que com o seu salário e as restrições de importação e os preços absurdamente altos levaria quase meio ano trabalhando para comprar aquele meio quilo, sim. Chorando cada vez mais, afirmou que faria uns quatro saquinhos de pano para passar o café, e que depois secaria cada um deles, e passaria de novo, e de novo, e de novo, e de novo...    

    Quando ela se acalmou, talvez também por excesso de gasto de lágrimas, mostrou o equipamento de telex, moderníssimo, e todo o material do dia anterior dos brasileiros, passado com rapidez e precisão. Aí o novato não resistiu à tentação de tripudiar sobre os experientes e consagrados colegas cariocas e paulistas, deu uma frestreadinha para ver se toda a galera já estava lá, abriu a porta da sala de atendimento e saiu abraçado na russona e assobiando uma música russa com ar de distraído:

    – Tá fazendo o que aí, gaúcho? – espantou-se a turba atônita.

    – Como é que conseguiu entrar? Nosso material foi mandado, o telex funciona legal?

    – Tudo certo, pode deixar, tá na mão, é comigo mesmo, moçada – e pronto para uma mentira de encerramento.

    – O importante é que eu falo russo!

     

    Agenda histórica do futebol gaúcho na semana

     

    7.1, domingo

    1941 – Grêmio projeta Estádio Eurico Lara, ao lado da Montanha, do Cruzeiro

     

    8.1, segunda-feira

    1948 – Federação Rio Grandense de Futebol decide que todos gramados deverão ter cercas de arame, e que vai financiar o melhoramento

     

    9.1, terça-feira

    1939 – Willy Teichmann, ex-jogador do Grêmio, é eleito presidente do Inter, por aclamação

     

    10.1, quarta-feira

    1986 – Fundação do Esporte Clube Passo Fundo

     

    11.1, quinta-feira

    1955 – Ex-remador, jogador de vôlei e de futebol, Osvaldo Rolla, “Foguinho”, é apresentado como técnico do Grêmio

     

    12.1, sexta-feira

    1999 – Capitão da seleção brasileira tetracampeã do mundo em 1994, Dunga volta para jogar no Inter após 15 anos

     

    13.1, sábado

    1952 – Inter bicampeão gaúcho, 6x3 contra o Rio Grande, nos Eucaliptos (vice o Pelotas)

     

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