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    o caderno azul

    Antoine de Saint-Exupéry, um dos autores mais lidos do planeta, foi um escritor, ilustrador e piloto francês

    Livros que curam 

    por Sônia Zanchetta | Publicada em 02/12/2017 às 19h47| Atualizada em 02/12/2017 às 19h50

     

     

    "O que me atormenta as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas, nem essa feiura. É um pouco, em cada um desses homens, Mozart assassinado."

    Quando li Terra dos Homens, na adolescência, parando de tanto em tanto para digerir bem o que Antoine de Saint-Exupéry havia escrito, fiquei tremendamente impactada por seu oitavo e último capítulo e, sobretudo, por seu parágrafo final, que coloco, agora, em epígrafe. 

    Certamente, a leitura desse, entre outros livros do autor — dos quais o que menos me tocou foi O pequeno príncipe, seu best-seller —, teve muito a ver com minha opção por trabalhar na área da Cultura e por distribuir livros, em vez de alimentos, entre os menos favorecidos. 

    Lá pelos meus 13 ou 14 anos, comprei um caderno grosso, de capa dura, azul celeste, no qual copiava, com letra caprichada — e, anos depois, ainda lia e relia ocasionalmente—, parágrafos de livros de Exupéry, que continham reflexões sobre a importância de sabermos identificar o que é essencial em nossas vidas, de nos encontrarmos em nós e nos outros e de saborearmos o “luxo das relações humanas”.  

    Quando surgiu a oportunidade de viver em Quito, em 1980, deixei para trás, sem qualquer dificuldade, a quase totalidade dos meus bens materiais, e lá fui eu com duas malas, que continham, basicamente, roupas, livros e o tal caderno azul.

    Anos depois, em Ambato, onde passei os dois últimos anos de minha estada no Equador, coloquei meus livros e discos à disposição dos clientes, no Café El Pátio, que foi não só fonte de renda para mim e meus filhos, mas uma espécie de laboratório de experiências da área cultural, que me fazia esquecer um pouco o quanto era conservadora aquela sociedade. E, naturalmente, levei para lá, também, o tal caderno, que tirava do fundo de uma gaveta, de vez em quando, para ler um trecho a algum amigo.

    Um dia, foi me procurar um adolescente que frequentava o café e que vivia atormentado pela dificuldade de se fazer ouvir e entender pelo pai. E, enquanto relatava os últimos acontecimentos, me dei conta de que, por mais que tentasse, não encontraria as palavras adequadas para tranquilizá-lo e reanimá-lo.

    Foi aí que, quase sem pensar, abri a gaveta e lhe dei meu caderno azul de presente.

    E agora, ao ouvir de amigos sobre o belo ser humano que se tornou, gosto de pensar que, assim como ocorreu comigo, aqueles parágrafos pinçados dos livros de Saint-Exupéry fizeram alguma diferença em sua vida.

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