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    falácia naturalista

    Afinal, existem brinquedos de menino e brinquedos de menina?

    por Fernando de Gonçalves | Publicada em 16/10/2017 às 18h20| Atualizada em 17/10/2017 às 12h02

    Nos últimos dias, uma série de polêmicas virtuais e nem tanto acendeu uma discussão sobre a transexualidade em crianças e, em pleno final dos anos 2010, a discussão sobre se brincar de boneca é coisa de menina e brincar de carrinho é coisa de menino. O Movimento Brasil Livre (MBL), que andava meio sumido desde o Impeachment, parece ter se reinventado com a adoção de pautas ultraconservadoras – grande ironia de um grupo que se diz liberal. Como o governo que apoiam está afundado em corrupção, eles têm se preocupado com assuntos mais importantes, como homens nus em museus ou propagandas de sabão em pó que mostram crianças brincando do que mais lhes agrada. Além de ter convocado seus seguidores a censurarem um comercial da OMO, eles também se indignaram com a inesperada capa da revista Veja, que discute a transexualidade infantil.

    Bem, a psicologia cognitiva e evolucionista, hoje, reconhece que o cérebro de homens e mulheres possuem algumas diferenças inatas, que se formam ainda na barriga da mãe. Por motivos de adaptação, homens tenderiam a ter mais facilidade para lidar com mecanismos e objetos, bem como com orientação espacial, enquanto mulheres tendem a ter habilidades sociais mais desenvolvidas. Isso, provavelmente, é um reflexo das necessidades de nossa espécie quando éramos caçadores-coletores nas savanas africanas: enquanto os homens percorriam longas distâncias em caçadas que duravam dias – o que tornava habilidades de orientação muito necessárias – mulheres tinham por tarefa criar as crianças, bem como manter e mediar os inevitáveis conflitos que surgem em todos os grupos humanos. Estudos com primatas e com crianças muito novas – com apenas alguns dias, antes que qualquer influência social possa ser significativa – mostram que bebês meninos se interessam mais por coisas, enquanto bebês meninas fixam com muito mais atenção rostos humanos. Isso explicaria grande parte da tendência de homens preferirem cursar engenharias enquanto mulheres se interessariam por carreiras com maior interação entre pessoas, como psicologia ou educação. Um documentário norueguês, o país mais igualitário em termos de gênero, explica essas diferenças. Explicaria também porque meninos gostam de carrinhos e meninas de bonecas.

    A explicação para a existência de pessoas transexuais, isto é, cuja percepção de gênero não corresponde ao seu sexo biológico, pode ser feita nessa mesma linha. O cérebro dos fetos se forma bem antes que a sua genitália. Em alguns casos, parece haver uma espécie de “bug” na gestação que faz com que o cérebro da criança não corresponda ao seu sexo biológico. Uma possível explicação é a exposição a certos hormônios durante o início da gestação. Estudos médicos mostrariam que essa condição afetaria cerca 1 menino a cada 3 mil ou 30 mil nascimentos e 1 menina a cada 10 mil ou 100 mil nascimentos. Ou seja, não se sabe o tamanho exato da incidência da transexualidade, apenas se tem certeza de que há mais meninos biológicos que se sentem meninas do que meninas biológicas que se sentem meninos.

    Assim, essa condição se manifestaria logo no início da infância. Ao negar as influências biológicas, a esquerda e a direita se parecem muito. A esquerda, por um lado, acredita que todas as características humanas são fruto da socialização – por exemplo, o fato de mulheres preferirem trabalhos com maior interação social, enquanto a direita acredita que condições com prováveis origens biológicas, como a transexualidade ou homossexualidade, são fruto de “más influências”, como a “pouca vergonha”, o que eles chamam de “ideologia de gênero” ou mesmo o cantor PabbloVittar. Mais sobre transexualidade infantil pode ser lido nesta ótima matéria da revista Piauí. Ao contrário dos temores conservadores, que imaginam crianças sendo submetidas às cirurgias de readequação sexual, o tratamento da saúde brasileira é bastante cauteloso: cirurgias só são permitidas após os 21 anos de idade, não antes sem dois anos de acompanhamento psicológico.

    Ocorre que qualquer pessoa que observa o comportamento humano sabe que nós somos extremamente diversos. Tudo que já se descobriu sobre diferenças comportamentais e cognitivas entre os sexos são apenas tendências gerais. Muitas mulheres vão ter vontade de se tornar engenheiras e projetar automóveis, enquanto muitos homens darão ótimos professores ou psicólogos. Assim, há uma sobreposição de interesses muito grande: a maioria dos meninos vai preferir carrinhos a bonecas, enquanto a maioria das meninas vai preferir o oposto. Apesar disso, sempre haverá uma parcela significativa de meninos que vai ter interesse em brincar de bonecas, enquanto um número tão grande quanto de meninas vai preferir brincadeiras que são classificadas como mais “masculinas”.

    Um erro muito comum no julgamento moral que as pessoas fazem é o que se chama, em filosofia, de “falácia naturalista”, que consiste em tentar derivar o que é “certo” ou “bom” do que é observado. Por exemplo, um observador poderia dizer que a escravidão é boa, pois quase todas as sociedades humanas observadas tiveram escravos. Obviamente, esse é um péssimo raciocínio moral. Da mesma forma, se a maioria dos meninos prefere certas brincadeiras, daí não se deriva de que seja certo obrigar todas as crianças a gostarem apenas daquelas coisas que a sociedade classifica como brinquedos de meninos e brinquedos de meninas. A liberdade humana para desenvolver seu potencial, atendendo aos seus gostos e interesses, é um fundamento ético muito mais sólido. Assim, que tal se pararmos de politizar os brinquedos infantis e, simplesmente, deixar as crianças brincarem do que elas têm vontade, independentemente da classificação de gênero de cada brinquedo específico?

     

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