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    para o bem e para o mal

    No mundo do trabalho, Flávia aprendeu de verdade.

    por Leandro Melo | Publicada em 16/10/2017 às 10h26| Atualizada em 16/10/2017 às 10h27

    Quando era criança Flávia não sonhava em ser astronauta. Também não pensava em ser igual à mãe Mauren ou à irmã mais velha, Felipa. Quando muito, era quem decidia qual seria a brincadeira da turma ou de qual brinquedo gostava mais. Era do tipo "tanto faz". Quem lembra Flávia, guarda a recordação de um rosto quase sorrindo, olhando adiante e um pouco para o alto, sem dar pista do que pensava.

    Ela mesma, hoje em dia, quando tenta lembrar que forma tinham aqueles pensamentos dos oito e poucos anos, faz muito esforço, mas não tira nada do passado. Ela, aliás, acha que é por isso que caminha tão vacilante em direção ao futuro. Quem pode saber? Nem ela sabe!

    Mas a vida se adianta e como diz um antigo ditado chinês, o tempo passa para o bem ou para mal. Por isso, Flávia pensa que não precisa escolher muito. Quando o assunto é trabalho, por exemplo, ela se atira nas oportunidades. Tenta se preparar o melhor possível e se joga no que melhor cruzar seu caminho. Deu certo para a profissão e ela aplica a técnica no resto todo. Foi assim quando casou a primeira vez, quando comprou o primeiro carro, quando viajou para a Bolívia. Pegou o que apareceu!

    É que de tanto deixar pra lá, mentir pra si mesma sobre o que realmente queria, ela paralisou. Ela escondeu tão bem os próprios sentimentos que um dia parou de sentir. Até o feeling das boas possibilidades foi desligado.

    Diante da crise, pensou que um banho resolveria, que se dormisse passava, mas passada uma semana, a constatação era clara: ela não sabia o que fazer. Era um tipo de “não saber” bem grave. Primeiro porque ela sempre procurou saber de tudo, segundo porque agora não sabia mesmo! Não sabia o que fazer com a vida, no final de semana, nem no minuto seguinte.

    Deitada na cama, olhando para o teto com os olhos secos de tão arregalados, um tremor frio percorreu todo o seu corpo. Era de novo uma menina, com medo das sombras na janela em dia de temporal. Voltou a ter aquele frio na barriga de antes da prova de matemática da quinta-série e as pernas bambas de quando o primeiro beijo estava a um nariz de acontecer.

    De repente começou a rir uma gargalhada nervosa, ao mesmo tempo em que cantarolou baixinho, bem como fez na primeira vez que arriscou ir sozinha na cozinha da avó Laura buscar um copo d’água, no meio da noite. E pensou que a pequena Flávia não gostaria nada de ver aquela mulher feita, sem coragem de sair dos lençóis.

    Aquela menina, por ser como sempre foi, possivelmente não diria uma palavra para demonstrar sua raiva e angústia, mas sentiria uma profunda decepção em saber que os adultos não são assim tão infalíveis e que, na verdade, crescem sabendo menos que uma menina descobrindo o que o sal faz com as lesmas do jardim.

    Foi um susto ver todas as lembranças chegarem de rompante. Agora, não havia dúvidas de quem fora e crescia uma certeza reconfortante de que não sabia bulhufas como seriam seus dias dali pra frente. Um dar de ombros era o suficiente para dar o primeiro passo. E lá foi Flávia, usar tudo o que sabia fazer para fazer o melhor que podia, com cada um dos seus dias.

    E ela finalmente entendeu o que realmente queria dizer aquele ditado chinês de que tanto gostava! 

     

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