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    e se fosse com a gente?

    Alma livre

    por Marta Busnello | Publicada em 05/10/2017 às 13h20| Atualizada em 05/10/2017 às 13h21

    Na mesa ao lado, três mulheres conversam. A mais jovem é sobrinha delas. Não precisei passar atestado de bisbilhoteira para descobrir o parentesco. Emocionadas, contavam histórias de família e não se importaram com minha presença tão próxima. No começo olhava meu celular, distraída, mas logo a conversa me seduziu.

    - Teu bisavô tinha a alma livre - disse a mais falante das tias disse para a sobrinha.

    Fisgou minha atenção.

    Para minha sorte, a guria pediu que contassem mais sobre os avós. Percebi que o tempo havia emprestado uma grande dose de carinho e outro tanto de generosidade às lembranças daquelas senhoras.

    O homem da “alma livre” foi um artista do mundo musical. Contaram que ele era sensível e compôs lindas músicas. Logo entraram na seara pessoal. Disseram que estava preso a um casamento, mas teve coragem (nas palavras delas) de terminar. A guria questionou o motivo da separação. Recebeu como resposta:

    - Incompatibilidade. Tua bisa era linda, mas tinha o próprio mundo. Do nada ia para o centro da sala e rodopiava ao som de músicas que só ela ouvia.

    Encerraram o assunto da avó. Voltaram para o avô que saiu do interior do Rio Grande deixando os filhos para trás e foi para a Capital. Lá, depois do expediente no órgão público em que trabalhava, dedicava-se à música, seu verdadeiro amor.

    Fiquei sabendo que em Porto Alegre casou-se com outra mulher, “que compreendia suas noites de boemia nos bares da cidade e até as eventuais amantes”. Nesse ponto da conversa parei de ouvi-las. Meu telefone tocou. Era a minha realidade chamando. Levantei, paguei a conta e saí.

    Fiquei pensando nos filhos desse homem. Teriam eles a mesma visão? Teriam compreendido que seu pai não se prendeu aos padrões da época e viveu do jeito que queria? E se ele vivesse nos dias de hoje? O pessoal que dá palpite nas redes sociais, esses paladinos da moral e dos bons costumes que não olham o próprio umbigo, deixariam passar em branco?

    E se fosse comigo?  Fosse eu a filha do avô das duas senhoras, como me sentiria ao ser abandonada? Estivesse eu a rodar pela sala ao som de músicas imaginadas, receberia a compreensão da família e esta compreensão completaria a minha felicidade? Cada vida é singular, embora o plural que nos rodeia e impacta.

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