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    as balas e o sono

    As histórias de dona Dadaia

    por Sônia Zanchetta | Publicada em 15/09/2017 às 11h03

    Lembro bem do dia em que o pai chegou da rua e disse à mãe que lhe havia comprado um revólver, pra que usasse em caso de necessidade, quando ele estivesse viajando. Ela arregalou os olhos, deu um pulo pra trás, disse que não ia tocar naquilo e que não queria saber de armas lá em casa.

    Mas ele insistiu, explicou-lhe como usar o revólver, recomendou que o guardasse fora do nosso alcance, e ela acabou por aceitá-lo. Mas, assim que o pai saiu, no dia seguinte, tirou as balas do tambor, colocou-as em um saquinho e as deu de presente a um primo nosso.

    Anos depois, acordei no meio da noite com os gritos da mãe: ”Vou acabar contigo,  bandido! Aparece aí!”. Corri a seu quarto e a encontrei com o revólver em punho, apontando por uma fresta, entre as venezianas da janela.

    Espiei sobre seu ombro e avistei, lá fora, umas fotos grandes, secando no varal de roupa. Deduzi, de imediato, que quem ela tinha visto, na verdade, era um dos meus colegas de faculdade que haviam ficado trabalhando no laboratório de fotografia que eu mantinha, na lavanderia da casa, com um deles.   

    Lembrei-lhe que havia avisado que os guris estariam lá, revelando e ampliando fotos, mas ela insistia em que tinham ido embora há um tempão e que sim vira um ladrão no pátio.    

    Corri até a lavanderia e encontrei meus colegas assustadíssimos: “Sônia, saímos para jantar e, quando voltamos, tua mãe quase nos matou!”.

    Terminamos todos, na cozinha, tomando um chazinho, para acalmar os nervos, e rindo muito, mas, cá entre nós, ainda bem que ela teve aquele lampejo de dar as balas de presente, não é?

     

    :

     

    Minha mãe tinha um mau humor terrível ao acordar. Uma vez, fomos a Buenos Aires e, depois de um dia inteiro batendo pernas, compramos os ingressos para um show de tango a que ela queria assistir.  

    Como começava tarde, ela decidiu dormir um “cadinho”, depois do jantar, e pediu que eu a despertasse a tempo.

    Lá pela tantas, fui, com a maior delicadeza do mundo, acordá-la, sabendo que aquilo não ia ser fácil. Toquei em um de seus braços e no outro várias vezes, bem devagarinho, e nada.

    Então, eu a chamei em voz baixa: “Mãe, tá na hora!” Foi o suficiente para despertar o dragão: “O que é isto? Que desaforo interromper o sono de alguém desta maneira! Não me incomoda!”.

    Dei meia-volta, peguei o livro que estava lendo e fui pra cama. 

    Pela manhã, ela me acordou aos gritos: “Sônia! Eu não te pedi para me despertar para irmos ao show? Que barbaridade! Não posso acreditar que não me chamaste!”.

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