notcia bem tratada
GRAVATAÍ, 16/08/2018

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Recomendamos

  • Nossos Clientes
  • Nossos Clientes
  • Nossos Clientes
  • Nossos Clientes
  • Facebook

    teoria geral do esquecimento

    Contra o receio, a palavra

    por Teresa Azambuya | Publicada em 06/09/2017 às 15h37

    Tratar sobre o tema da violência contra mulher é sempre difícil, mas necessário. Refletir repetidamente é o que nos torna atentos e informados; é a única maneira viável de mudar uma triste realidade que nos cerca.

    Notícias sobre casos de violência contra a mulher têm sido comuns, nos últimos tempos. O acesso à informação ampliou os espaços de denúncia, o que ensejou, de certa forma, algum encorajamento entre as mulheres. E isso, em minha opinião, decorre de dois fatores: primeiro, porque existe uma identificação. A cada relato feito e divulgado, associam-se outros relatos, o que acaba por criar uma rede de apoio. Essa rede é essencial e é o que as mulheres não encontram, muitas vezes, nas instituições a que recorrem. Basta dizer que os casos de abuso sexual são sempre subestimados: poucas denúncias são registradas nos órgãos oficiais, muito em razão da falta de acolhimento, que constitui a violência institucional.

    No caso recente do homem que ejaculou numa mulher em um ônibus, na cidade de São Paulo, chamou-me atenção exatamente o problema da violência institucional. Li um relato em que foi mencionada a falta de acolhimento dos órgãos policiais, que não teriam disponibilizado sequer um psicólogo para o atendimento inicial à vítima. Seguido a isso, houve a sentença do juiz que liberou o agressor, “por não ter havido constrangimento”, e a reincidência do problema, visto que o homem cometeu o mesmo ato alguns dias depois, em outro coletivo da cidade. Não bastasse a situação em si, essa mulher – e todas as outras que se identificam com a injustiça de viver sempre com receio, nesta sociedade -  viram a violência redundar, justamente por parte dos órgãos que deveriam protegê-las.

    Já li, em muitos obras da literatura, episódios de violência contra a mulher. A arte, nesse sentido, constitui-se como outra possibilidade de identificação tão necessária à reconstrução pessoal e coletiva. Na obra Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa, a personagem Ludo, em uma determinada circunstância, tranca-se em seu apartamento, na cidade de Luanda, em Angola, e lá fica por mais de trinta anos. Inicia o período de confinamento com medo dos espaços externos, das pessoas e de tudo. O motivo para essa atitude drástica é relatado pela personagem, que rememora episódio vivenciado ainda em Portugal, onde morava:

     

    “Uma tarde, ao chegar a casa, vinda da praia, dei pela falta de um livro que estava a ler. Retornei, sozinha, à procura dele. Havia uma fila de barraquinhas montadas na areia. A noite caíra, entretanto, e estavam desertas. Dirigi-me à barraquinha onde tínhamos estado. Entrei. Ouvi um ruído, e, ao voltar-me, vi um sujeito à porta, sorrindo para mim. Reconheci-o. Costumava vê-lo, num bar, a jogar às cartas com o meu pai. Ia explicar-lhe o que estava ali a fazer. Não tive tempo. Quando dei por isso já ele estava sobre mim. Rasgou-me o vestido, arrancou-me as calcinhas, e penetrou-me. Lembro-me do cheiro. Das mãos, ásperas, duras, apertando-me os seios. Gritei. Bateu-me no rosto, pancadas fortes, sincopadas, não com ódio, não com fúria, como se estivesse a divertir-se. Calei-me. Cheguei a casa aos soluços, o vestido rasgado, cheio de sangue, o rosto inchado. O meu pai compreendeu tudo. Perdeu a cabeça. Esbofeteou-me. Enquanto me açoitava, com o cinto, gritava comigo, puta, vadia, desgraçada. Ainda hoje o ouço: Puta! Puta! A minha mãe agarrada a ele. A minha irmã em prantos.

    Nunca soube ao certo o que aconteceu ao homem que me violou. Era pescador. Dizem que fugiu para Espanha. Desapareceu. Engravidei. Fechei-me num quarto. Fecharam-me num quarto. Ouvia, lá fora, as pessoas a segredarem. Quando chegou o momento, uma parteira veio ajudar-me. Nem cheguei a ver o rosto da minha filha. Tiraram-na de mim.

    A vergonha.

    A vergonha é que me impedia de sair de casa. O meu pai morreu sem nunca mais me dirigir a palavra. Eu entrava na sala e ele levantava-se e ia-se embora. Passaram-se anos, morreu. Meses depois a minha mãe seguiu-o. Mudei-me para a casa da minha irmã. Pouco a pouco fui-me esquecendo. Todos os dias pensava na minha filha. Todos os dias me exercitava para não pensar nela.

    Nunca mais consegui sair à rua sem experimentar uma vergonha profunda.”

    (Trecho da obra Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa)

     

    A narrativa fere. A expressão “vergonha profunda” ecoa por muitas páginas além. E ecoa justamente porque, apesar de ser um relato fictício, é verossímil em todos os seus aspectos: no ato de violência em si; na figura desse pai, que culpa a própria filha; e na representação de um sistema que, de uma forma ou de outra, faz a violência reincidir. Como ocorreu, na vida real, com a mulher no ônibus, em São Paulo.

    Um fato como esse é impossível esquecer. Assim como são todas as pequenas situações – se não violentas, ao menos constrangedoras – que toda mulher é capaz de relatar. Mas esses relatos, sejam eles virtuais, literários ou orais, possibilitam a construção de uma identificação; unem e fortalecem; geram mudança.

    Enquanto todas nós ainda tivermos de andar com receio, não nos calemos. Denunciar aos órgãos oficiais é, apesar de tudo, imprescindível. Abordar o tema é difícil, mas é nossa única ferramenta para gerar consciência e transformação.

    • esporte
      Estreia do Cerâmica é adiada em uma semana
      por Eduardo Torres
    • saúde pública
      O que mudou, e vai mudar, no Dom João Becker com Santa Casa
      por Silvestre Silva Santos | Edição de imagens: Guilherme Klamt
    • caso da maconha
      OPINIÃO | Mário Peres, entre a polícia, a câmara e a facção
      por Rafael Martinelli
    • eleições 2018
      Juliano Paz aposta nas lives para falar com eleitor
      por Eduardo Torres
    • entrevista
      Dinheiro tirou Rosane Bordignon da eleição
      por Rafael Martinelli
    • coluna do silvestre
      Testamos o carro elétrico da GM
      por Silvestre Silva Santos | Edição de imagens: Guilherme Klamt e Divulgação/GM
    • tá na mesa
      O dia em Marco Alba contestou Caetano e Roberto Carlos
      por Rafael Martinelli
    • eleições 2018
      Rosane Bordignon decide não concorrer
      por Rafael Martinelli
    • meio ambiente
      O Rio Gravataí é a sala de aula
      por Eduardo Torres
    • nota oficial
      Partido do vereador apoia investigação em caso da maconha
      por Rafael Martinelli
    • delegado confirma
      Vereador será investigado no caso da maconha
      por Rafael Martinelli
    • suspeita
      Saul Sastre é investigado por fraude no Daer
      por Eduardo Torres
    • operação
      Vereador diz que alugava prédio da meia tonelada de maconha
      por Rafael Martinelli
    • eleições 2018
      Juliano Paz, um pé em Gravataí, outro em Cachoeirinha
      por Rafael Martinelli
    • homenagem
      Diretora do Gensa e Facensa recebeu placa em Brasília
      por Silvestre Silva Santos
    • homenagem
      Denise, a Medonha, vai virar nome de biblioteca
      por Eduardo Torres
    • personagens
      COM VÍDEO | O caçador que abraçou um rio
      por Eduardo Torres | Edição de imagens: Guilherme Klamt
    • coluna do silvestre
      Quem comprou o terreno do prédio mais alto
      por Silvestre Silva Santos
    • eleições 2018
      10 coisas sobre a foto que mexeu com a política local
      por Rafael Martinelli
    • coluna do silvestre
      OPINIÃO | Bagunça na Freeway, com Justiça & tudo
      por Silvestre Silva Santos
    • meio ambiente
      O plano que vai definir a cobrança por uso da água do Gravataí
      por Eduardo Torres | Edição de imagens: Guilherme Klamt
    SITE DE JORNALISMO E INFORMAÇÃO
    Gráfica e Editora Vale do Gravataí
    Av. Teotônio Vilela, 180 | Parque Florido
    Gravataí(RS) | Telefone: (51) 3042.3372

    redacao@seguinte.inf.br

    Roberto Gomes | DIRETOR | roberto@seguinte.inf.br
    Rafael Martinelli | EDITOR | rafael@seguinte.inf.br
    Silvestre Silva Santos | EDITOR | silvestre@seguinte.inf.br
    Eduardo Torres | EDITOR | eduardo@seguinte.inf.br
    Guilherme Klamt | EDITOR | guilherme@seguinte.inf.br
    Ao reproduzir uma de nossas matérias, é ético citar a fonte.
    As opiniões assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a posição do jornal.
    Desenvolvido por i3Web. 2016 - Todos os direitos reservados.