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    tempos de apatia

    Não pisarão no meu jardim

    por Teresa Azambuya | Publicada em 23/08/2017 às 15h31

    Na última semana, assisti a um vídeo de uma audiência pública no Senado Federal, no qual uma pessoa falava da culpabilização dos servidores públicos, discurso esse que tem sido recorrente, nos últimos tempos. Chamou-me a atenção o trecho de um poema citado na ocasião:

     

    “Na primeira noite eles se aproximam

    e roubam uma flor

    do nosso jardim.

    E não dizemos nada.

    Na segunda noite, já não se escondem:

    pisam as flores,

    matam nosso cão,

    e não dizemos nada.

    Até que um dia,

    o mais frágil deles

    entra sozinho em nossa casa,

    rouba-nos a luz, e,

    conhecendo nosso medo,

    arranca-nos a voz da garganta.

    E já não podemos dizer nada.”

     

    Os versos falam, gritam por nós, por todos os que o leem e com ele se comovem. Joga-nos à face nossa estagnação e parece retratar fielmente o momento em que vivemos: de direitos retirados, de exploração, de enganação e de silêncio. E isso não somente em relação aos servidores públicos. Em nosso drama diário, assistimos ao arquivamento de denúncia contra o Presidente, às discussões sobre as reformas trabalhista, previdenciária e política, ao aumento do preço do combustível, à aprovação de fundo bilionário para partidos, a malas de dinheiro e escândalos cotidianos, e não dizemos nada.

    O poema, no entanto, não é recente; foi escrito em 1968, no auge do regime militar, pelo escritor brasileiro Eduardo Alves da Costa. É um poema longo e com uma curiosa história: foi, por diversas vezes, atribuído ao escritor russo Maiakóvski, em razão do título “No caminho com Maiakóvski”. Coloco-o, na íntegra, ao fim deste texto. Vale a pena cada linha. Deixou-me com os nervos à flor da pele; deixou-me na obrigação de escrever e de dizer algo.

    Depois de lê-lo, lembrei-me do conto A casa tomada, do escritor argentino Júlio Cortázar. É, também, um texto primoroso, publicado no igualmente primoroso livro Bestiário, em 1951. O narrador e sua irmã, Irene, vivem sozinhos numa imensa casa. Certo dia, ele ouve um barulho e fecha uma grande porta, passando a viver com a irmã na metade que restou da residência.

     

    “Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.”

     

    Não há indagações, ninguém verifica quem tomou a outra parte da casa. Simplesmente, os dois irmãos, apesar de eventualmente lamentarem a situação, acostumam-se a viver com o que sobrou. Noutro dia, enquanto o personagem se dirige à cozinha, ouve de longe mais um barulho. Toma a irmã pelo braço e, com a roupa do corpo, sai. Sem perguntar. Sem saber quem tomou a casa. Os dois saem e não dizem nada.

    Há infinitas análises sobre esse conto. Mas o que me fez trazê-lo à tona, após a leitura do poema de Eduardo Costa, foi justamente essa articulação entre a casa tomada e o silêncio. Estaremos sendo esses dois personagens de Cortázar, tricotando, fazendo a janta, cuidando dos filhos, enquanto o país está sendo tomado? Já nos arrancaram a voz da garganta? Não diremos nada?

    Eu ainda tenho voz, eu ainda olho o que está acontecendo além da porta. Eu acompanho as notícias. Eu dialogo com meu filho. Precisamos estar atentos e não podemos nos calar, apesar do cansaço e da descrença que nos tomam.

    Digo infinitamente pouco, com este texto: trato, sobretudo, sobre a necessidade de dizer. Para que não matem nosso cão, não pisem nosso jardim, não arranquem nossa voz, nem tomem nossa casa.

    Aqui, o poema, na íntegra, com seu final apoteótico:

     

     

    No caminho, com Maiakóvski

    (Eduardo Alves da Costa)

     

    Assim como a criança

    humildemente afaga

    a imagem do herói,

    assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

    Não importa o que me possa acontecer

    por andar ombro a ombro

    com um poeta soviético.

    Lendo teus versos,

    aprendi a ter coragem.

     

    Tu sabes,

    conheces melhor do que eu

    a velha história.

    Na primeira noite eles se aproximam

    e roubam uma flor

    do nosso jardim.

    E não dizemos nada.

    Na Segunda noite, já não se escondem:

    pisam as flores,

    matam nosso cão,

    e não dizemos nada.

    Até que um dia,

    o mais frágil deles

    entra sozinho em nossa casa,

    rouba-nos a luz, e,

    conhecendo nosso medo,

    arranca-nos a voz da garganta.

    E já não podemos dizer nada.

     

    Nos dias que correm

    a ninguém é dado

    repousar a cabeça

    alheia ao terror.

    Os humildes baixam a cerviz;

    e nós, que não temos pacto algum

    com os senhores do mundo,

    por temor nos calamos.

    No silêncio de meu quarto

    a ousadia me afogueia as faces

    e eu fantasio um levante;

    mas amanhã,

    diante do juiz,

    talvez meus lábios

    calem a verdade

    como um foco de germes

    capaz de me destruir.

     

    Olho ao redor

    e o que vejo

    e acabo por repetir

    são mentiras.

    Mal sabe a criança dizer mãe

    e a propaganda lhe destrói a consciência.

    A mim, quase me arrastam

    pela gola do paletó

    à porta do templo

    e me pedem que aguarde

    até que a Democracia

    se digne a aparecer no balcão.

    Mas eu sei,

    porque não estou amedrontado

    a ponto de cegar, que ela tem uma espada

    a lhe espetar as costelas

    e o riso que nos mostra

    é uma tênue cortina

    lançada sobre os arsenais.

     

    Vamos ao campo

    e não os vemos ao nosso lado,

    no plantio.

    Mas ao tempo da colheita

    lá estão

    e acabam por nos roubar

    até o último grão de trigo.

    Dizem-nos que de nós emana o poder

    mas sempre o temos contra nós.

    Dizem-nos que é preciso

    defender nossos lares

    mas se nos rebelamos contra a opressão

    é sobre nós que marcham os soldados.

     

    E por temor eu me calo,

    por temor aceito a condição

    de falso democrata

    e rotulo meus gestos

    com a palavra liberdade,

    procurando, num sorriso,

    esconder minha dor

    diante de meus superiores.

    Mas dentro de mim,

    com a potência de um milhão de vozes,

    o coração grita – MENTIRA!

     

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