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    coluna do silvestre

    Em 1964, por aí, sobrevoos meteram medo no meu velho pai, um getulista-janguista e brizolista de quatro costados. (imagem meramente ilustrativa)

    Meu pai tinha medo dos milicos

    por Silvestre Silva Santos | Publicada em 22/10/2018 às 15h47| Atualizada em 22/10/2018 às 17h52

    Da série me cortem os tubos! Me aguentem ou...

     

    Quando guri pequeno morava, com meus pais adotivos, numa localidade bem acima daquela que todos chamavam de Vila de Cima. Era em Cerro Branco, antes da sua emancipação política, ainda distrito de Cachoeira do Sul, portanto. Lugar pacato, em que era possível saber quantos carros passavam na estradinha de chão batido e de muitas pedras, que virava uma polvadeira em época de seca, um lamaçal em períodos chuvosos.

    Como escrevi na coluna passada (No dia do professor, eu, a palmatória e os grãos de milho), meu pai era capataz, mais tarde cargo que passou a ser chamado como mestre de obras, e comandava uma turma de mais ou menos uma dúzia de funcionários do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem, o Daer, autarquia do governo do estado que existe até hoje.

    Morávamos no que se convencionou chamar de acampamento. Um punhado de casas que o Daer mandava construir para seus funcionários nestas localidades mais distantes da capital. Era a 10ª capatazia. Além das residências, tinha a garagem do caminhão-caçamba, único veículo disponibilizado para os  serviços, além de uma motoniveladora. Um anexo à garagem servia como escritório e, ao lado, lembro bem, havia uma pequena área que servia de depósito para uma meia dúzia de tambores de óleo diesel, combustível para os motores destas máquinas.

    Algumas coisas nunca esqueci. Sou de memória privilegiada.

    O pai que me deu seu sobrenome era apaixonado por ouvir notícias no rádio. Um Semp, com válvulas e bonito acabamento em madeira de lei, cuja antena era um fio de cobre com uns 10 metros de extensão erguidos às pontas de taquaras. Deste fio, descia um segundo que entrava por uma fresta da parede da casa e dava som ao rádio. Meu pai ouvia notícias, e minha mãe escutava novelas.

    “O Direito de Nascer”, ela ouvia. E era defensora ferrenha do personagem Albertinho Limonta. Não tenho ideia do que ele fazia.

    Mas não é esse o caso.

    O fato é: por que meu pai, o “véio Mário” como era chamado pelos colonos do distrito e até por alguns darianos mais próximos, tinha medo dos milicos?

    Ele era apaixonado por Getúlio Vargas. Um petebista-getulista daqueles que a cada reunião familiar ou com amigos não deixava de puxar os feitos do são-borjense para enaltecer a figura do presidente enquanto homem público. Por consequência óbvia, foi brizolista ferrenho disposto a pegar em armas para defender Leonel de Moura Brizola que, à época, exigia a posse de seu cunhado João Goulart no Palácio da Guanabara depois da renúncia de Jânio Quadros.

    Em 1964, por fim, os militares assumiram o poder e passaram a mandar no Brasil. Uns chamam de golpe militar, outros falam em contra-revolução.

    Fato é que Cerro Branco e os cerro-branquenses, que nunca tinham ouvido o ronco do motor de um avião, começaram a ver, escutar, a conviver com frequentes sobrevoos aéreos. Quase diariamente, eu poderia assegurar, pelo que me recordo do que se deu quando eu tinha de seis a oito anos, não menos e não mais do que isso. Seria exigir demais se eu dissesse também que tipo de avião era.

    Lembram que eu escrevi antes que ao lado da garagem e do anexo havia uma área em que se depositavam os tambores com óleo diesel?

    Pois então!

    Meu pai, que a estas alturas já não falava em alto e bom tom as defesas de Jango e Brizola e do seu Partido Trabalhista Brasileiro, mas resmungava e praguejava amiúde contra o regime que se instalara, passou a alimentar algumas manias de perseguição. E justamente uma delas foi que provocou o tema desta coluna.

    Certo dia, ao ouvir ao longe o barulho dos motores dos aviões, o “véio” Mário estava com alguns colegas do Daer próximo do tal depósito de combustíveis. Como facão era arma de usar na cintura e servia para matar cruzeiras ou abrir picadas, não titubeuou. Mandou que os homens cortassem galhos de Mamona, vegetação abundante naquela região e em muitas partes por aí, para cobrir os tambores com o óleo diesel.

    Era para que, do alto, os pilotos ou quem estivesse no avião não identificasse o potencial explosivo que havia em terra, e não disparassem contra os tambores, ou jogassem uma bomba sobre eles, destruindo a capatazia e quem habitava no acampamento. Hoje acho que ele exagerava, mas, vai saber!

    Não satisfeito, ele adotou o corte dos galhos de Mamona como prática diária. Primeira tarefa dos funcionários do Daer sob sua tutela a cada amanhecer. Era obrigação cobrir os tambores que, agora, nem da estrada poderiam ser vistos já que ele também mandou erguer um cercado, com taquaras. Bem alto, coisa de mais de dois metros.

    Não lembro por quanto tempo aquilo aconteceu.

    Mas nunca esqueci do corre-corre, entre os homens, na primeira vez em que meu pai mandou que fosse coberto, camuflado, o depósito de combustível.

    Não sei também porque a camuflagem deixou de ser feita, acho que por terem cessado os voos sobre Cerro Branco já que não foi encontrada, por ali, nenhuma célula terrorista!

    E meu pai, mesmo já velho, aposentado do Daer e prestes a falecer – ele morreu em 1979 – sempre recomendou a quem fosse do seu convívio para que tivesse cuidado com palavras e ações para não provocar a ira dos militares, a quem ele chamava, simplesmente, de “milicos”.

    --- Essa cambada é capaz de tudo. Não tem dó nem piedade para dar um tiro na gente! --- falava.

    Saudades, como a que me bate hoje, do homem que me fez homem.

     

    Por estas e por outras que eu digo, para o mundo que eu quero descer.

    Ah, aproveita e me corta os tubos!

     

     

     

     

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