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    crise do coronavírus

    Equipe da Prefeitura em desinfecção na Unidade de Pronto Atendimento Abílio Alves dos Santos

    Profissionais da UPA são testados para COVID 19; Gravataí tem 50 casos

    por Rafael Martinelli | Publicada em 21/05/2020 às 12h19| Atualizada em 26/05/2020 às 21h24

    (Atualizado às 18h desta sexta)

    A Prefeitura de Gravataí está testando profissionais de saúde da UPA que tiveram contato com dois colegas da empresa Prohealth, prestadora de serviços, que realizaram exame PCR nos dias 13 e 15 de maio, testaram positivo para a COVID-19 e já estão isolados em quarentena domiciliar. Nesta quarta, mais dois casos foram confirmados. Nesta sexta, mais dois casos de profissionais da saúde foram notificados. 

    A Secretaria da Saúde não informa detalhes pessoais sobre infectados, mas o Seguinte: apurou que duas profissionais de saúde, de 24 e 45, que aparecem como o 43º e 44º caso no boletim epidemiológico publicado nesta quinta, prestam serviços na UPA. Ambas não apresentam comorbidades e estão em quarentena, em casa. Nesta sexta, entre os seis casos confirmados estão, além de uma mulher de 57 anos, e três pessoas da mesma família (homem de 58, mulher de 52 e um adolescente de 13), as duas profissionais de saúde. No caso 49, a profissional trabalha em Porto Alegre. O caso 50 é de profissional da saúde municipal, mas não há confirmação oficial de que se trata de prestadora de serviços da UPA. 

    A aplicação dos testes começou quarta e seguiu quinta e sexta, em três turnos. A SMS não informa o número de profissionais que testados.

    – Estamos seguindo os protocolos do Ministério da Saúde de forma rigorosa, como já aconteceu em casos anteriores, e não se identificou surto – explica o secretário da Saúde, Jean Torman, observando que serviços de saúde e transporte coletivo são potenciais transmissores, mas atividades essenciais.

    Como tratei sábado em O ’surto’ da COVID 19 na UPA de Gravataí e o ’medo que mata’, após o pânico disseminar pelas redes sociais, entre ‘culpados ou inocentes’, há um inimigo invisível, cuja picada não é a única ameaça – o medo dessa cobra silenciosa também mata.

    Comecemos pela ‘picada’.

    Os profissionais de saúde estão sendo submetidos aos testes rápidos oferecidos pelo Ministério da Saúde e repassados às prefeituras pela Secretaria Estadual da Saúde. É uma testagem cuja eficácia é considerada a partir do 10º dia para quem apresenta sintomas, ou do 15º para pacientes assintomáticos.

    Conforme o secretário, o protocolo é o mesmo para todos os serviços de saúde. O Grupo Hospitalar Conceição e o Moinhos de Vento, para usar exemplos de hospitais públicos e privados, já registraram dezenas de profissionais com a COVID-19 e seguiram o mesmo modelo – sem testar os milhares de funcionários, que passam pela mesma porta, digitam o mesmo relógio ponto, usam os mesmos refeitórios e, também, banheiros.

    Para efeitos de comparação, quase metade (43%) dos casos de moradores de Gravataí com a COVID-19, recuperados ou não, tem relação com as redes públicas e privada de saúde, no município ou fora dele. Até esta quinta, são 19 em 44.

    Gravataí já teve profissionais de saúde com COVID-19 em pelo menos duas unidades da saúde de regiões populosas, o mesmo protocolo foi seguido e, já passado o período de contaminação, ninguém foi infectado conforme registros da Secretaria da Saúde.

    Mas, reflitamos:  para além da ‘picada’ do vírus, há também uma mórbida consequência: o ‘medo que mata’. Vamos à ‘ideologia dos números’.

    Até o Carnaval, a média de atendimentos diários na UPA e no Pronto Atendimento 24H era de 700 pessoas por dia em cada um dos serviços. Na semana passada, menos de 100 pessoas procuraram o SUS diariamente. Os exames de diagnóstico caíram 80%. Se antes faltavam consultas, hoje sobram. É só chegar e, ou esperar um pouco, ou já ser atendido – isso com uma redução de 50% nas ‘fichas’ para casos não relacionados à COVID-19.

    Nesta semana, após a polêmica que começou nas redes sociais sobre o possível ‘surto’, a UPA restava praticamente vazia.

    O risco do pânico é que pessoas que precisam de tratamento deixem de buscar o SUS. Não só com sintomas da COVID-19, mas também por outras doenças graves ou que precisam de diagnóstico, tratamento e acompanhamento periódico.

    A Secretaria da Saúde investiga três óbitos recentes. Em dois deles, pacientes não teriam procurado atendimento em crises agudas de apendicite. Em outro, uma criança faleceu por meningite.

    Como tratei no artigo anterior, é inegável que preocupa a UPA ter, hoje, quatro de seus profissionais de saúde contaminados e afastados. Como também deve servir de alerta as confirmações, em boletins anteriores, de infecções de metalúrgico, clientes de supers e do comércio local, e usuários do transporte coletivo.

    Informação precisa é importante neste momento. Aceitável é, entre a comunidade leiga, o pânico. Impossível, porém, ‘fechar o SUS’ em Gravataí, ou em qualquer outro lugar do Brasil. Sejam ‘bem-vindos’ ao mundo do novo coronavírus. Permitam-se um ‘contágio de realidade’.

    Ao fim, como conclui no artigo anterior, o que escapa da lógica é ter quase 100 mil pessoas a mais consumindo em comércios reabertos, e fazer um ‘lockdown’ na UPA, ou ‘fechar o SUS’. O que é uma tragédia é gente morrer de véspera, fugindo do coronavírus, sem procurar os serviços de saúde e indo a óbito por apendicite.

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