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    opinião

    Jornalista Ricardo Boechat morreu nesta segunda aos 66 anos

    Boechat e a hipocrisia do morto santo

    por Rafael Martinelli | Publicada em 11/02/2019 às 21h03| Atualizada em 21/02/2019 às 11h38

    Com pesar, mas não com surpresa, sou obrigado a saudar a honestidade de fanáticos desde o – “pilantra, paspalho, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia e vai procurar uma rola” – Silas Malafaia, até intelectuais lulistas que se dedicaram a atacar Ricardo Boechat no dia da sua morte.

    Como assim?

    É que os canalhas foram honestos. Não em desinformação, porque a cada dia é mais perceptível a quem já não sabia que saíram dos armários os informados do mal; que as trevas não são obra da burrice, da chucrice: é exclusivamente maldade desoxirribonucleica.

    Nesta segunda, 11 de janeiro do agosto interminável de 2019, a timeline de qualquer um no Facebook confirmou a beatificação do jornalista de 66 anos, que perdeu a vida tragicamente num acidente de helicóptero horas atrás.

    – Ele era parcial! – foi elogio corrente, pelo menos na minha linha do tempo e em grupos que interajo e observo nas redes sociais, e cujo jogo dos sete erros em sete me recuso a explicar.

    Quem só ouvia Boechat ou o assistia pela TV, talvez não saiba, mas aqueles que alguma vez já acompanharam suas participações no rádio, transmitidas diariamente online por Face e YouTube, onde os comentários são abertos e incessantes, é testemunha dos ‘elogios’ que o jornalista recebia.

    Aos fatos, os chatos que atrapalham argumentos pré-concebidos e condolências hipócritas de inhumanos que gozam metralhando teclados no Grande Tribunal das Redes Sociais e servem de milícia para a Guerra Ideológica Nacional:

    Na época de FHC, Boechat denunciava a compra de votos para aprovar a emenda constitucional para permitir a reeleição do presidente. Era chamado petista. Se o termo já existisse, seria ‘petralha’.

    Do mensalão ao petrolão, chegando ao impeachment de Dilma, Boechat se tornou vilão do PT e das esquerdas.

    No governo Temer, para ele o presidente eleito para ser vice teve, no Palácio do Jaburu, altas horas da noite, uma conversa imprópria com Joesley, o magnata caipira da JBS. Aí não foi chamado de nada porque o conspirador pelo golpeachment não chegava à margem de erro da popularidade nas pesquisas de opinião.

    Agora, quando era crítico de trapalhadas e malfeitos do governo Bolsonaro, ou mesmo antes, quanto debochava (às vezes, não se faz por desrespeito, mas porque é inevitável) das barbaridades ditas durante a campanha pelo hoje presidente e então candidato, o outro lado da ferradura chamava Boechat de comunista, petralha, esquerdopata, mimimi.

    Na linguagem dos emojis, para o santo do dia era mais dedinho para baixo, que dedinho para cima, mas grr que coraçãozinho.

    Boechat errava e acertava como muitos, não concordava com muitas de suas opiniões, mas aprendia com ele, e admirava a coragem, habilidade e o equilibrio da temperatura da paixão para opinar - fazer isso diariamente, abaixo de pau, não é para qualquer espírito e cobra seu preço (a família que o diga). Não era um outsider, mas também não era um preferido dos patrões e poderosos. Não se ‘modernizou’ virando um caça-cliques do momento e nem foi um inocente útil a propagar na opinião pública o ódio à política. Pelo depoimento dos colegas, Boechat odiava essa gente que, sem informação ou estudo nenhum, berra em microfones e lives, esses ‘profissionais’ com mais perfil para participar do Big Brother do que para ter responsabilidade com o serviço público que é o jornalismo.

    Na semana passada falava com vereadores de Gravataí sobre o Boechat, quando após uma sessão descobriram que um político da aldeia grava conversas com seus interlocutores. Reportaram que pelo menos um dos arquivos tinha meu nome, ao lado de outro político identificado como “o homem que copiava”. Brinquei usando uma frase do Boechat, que me marcou quando eu era um jornalista iniciante. Personagem de reportagem em revista de circulação nacional por estar trocando informações com Daniel Dantas, à época (antes de Lula dar goela aos X9 da Odebrecht) um capo di tutti capi do empresariado nacional (Por onde anda? Não sei, mas está solto, sem dúvida), Boechat respondeu aos colegas que divulgaram o grampo ilegal e, hoje, aposto, devem estar assessorando algum corrupto:

    – Vocês querem que minha fonte seja a Madre Teresa de Calcutá?

    Boechat se queimou no inferno como todos os jornalistas mas, como poucos, parecia não recomendar ao diabo usar protetor solar. Os que não respeitam o jornalismo, aqueles que só gostam de quem vomita a diatribe que se quer ouvir, ou babam não só por fake news, mas por crazy news, tenham um mínimo de dignidade de não usar essa tragédia do dia para ganhar 6 curtidas.

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