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    Médicos não querem trabalhar na periferia de Gravataí

    por Rafael Martinelli | Publicada em 03/01/2019 às 15h44| Atualizada em 14/01/2019 às 11h19

    Aos que sentiram falta do escalte semanal do Seguinte: sobre a falta de médicos em Gravataí após a saída dos ‘escravos’ cubanos, o chato dos fatos que atrapalham argumentos está de volta – sem prazer nenhum em ser portador de más notícias. Nada mudou da semana anterior ao Natal para a semana posterior ao Ano Novo. Apenas 10, dos 18 profissionais inscritos no Mais Médicos se apresentaram para trabalhar na periferia da cidade que, desde o início de dezembro, sofre com mais de 5 mil atendimentos a menos nas unidades de saúde da família.

    Para piorar, dos sete chamados pelo prefeito Marco Alba (MDB) que passaram em concurso, os quatro primeiros responderam não para a prefeitura, que pelas mesmas 40h – com cartão-ponto – paga salários semelhantes aos R$ 15 mil do programa federal que garante também auxílios moradia e alimentação.

    – O mercado da medicina é muito competitivo. Salvo raras exceções, os médicos geralmente querem conciliar o serviço público com o privado, e o município precisa cumprir a lei e exigir o cumprimento da carga horária – explica o secretário municipal da Saúde Jean Torman, que exemplifica com a negativa de médico ao saber que seria alocado no posto de saúde das Águas Claras.

    O posto no bairro pobre, que tinha duas cubanas, fica longe para o médico que gostaria de compatibilizar o atendimento na unidade de saúde com a clínica privada e o hospital no Centro da cidade.

    – Mas não estamos parados, precisamos resolver o problema – informa Jean, que anuncia para este janeiro o lançamento de novo concurso, para ampliar também o cadastro de reserva e tentar superar tantas negativas.

    – Também estudamos flexibilizar leis para as contratações, tanto para atrair médicos, como para mantê-los, já que os pedidos de demissão do serviço público são outro problema que enfrentam as prefeituras.

    É a realidade, que ultrapassa a Guerra Ideológica Nacional e que se materializa fora do Grande Tribunal das Redes Sociais: para os mais pobres, é “menos médicos”, mesmo que pesquisa Datafolha de hoje traduza uma polarização,  já que 49% acham que a saúde vai piorar com a saída dos cubanos e 38% acreditem numa melhora – os dados da pesquisa no Nordeste, onde mais pessoas eram atendidas, mostram 59% de pessimismo.

    Você pode achar que é mentira, mandar o jornalista para Cuba, catar uma fakenews no WhatsApp ou ressuscitar o comunismo de um túmulo milenar e distante do Brasil, mas são os fatos. Jair Bolsonaro errou ao correr os médicos cubanos sem ter uma alternativa.

    Fakenews foi o anúncio ufanista feito pelo governo federal em dezembro, dando conta de que tinham sido preenchidas 98% das 8.517 vagas distribuídas por 2.824 municípios e 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) no País. Números desta semana mostram que pelo menos três em cada 10 médicos inscritos não se apresentaram às prefeituras e abriram mão das vagas.

    O novo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, da mesma forma que Bolsonaro, parece seguir no palanque ou preferir uma realidade paralela que não se sustenta nos fatos. Ignorando a falta de médicos, deu um discurso bonito na posse, falando em abrir um terceiro turno nos postos de saúde:

    – A mulher trabalhadora e o homem trabalhador, muitas vezes, saem de casa antes das 7h e voltam depois das 18h. Ou seja, a unidade básica de saúde, para eles, fica praticamente inalcançável.

    Mas, se não há médicos para manhã e tarde, haverá para trabalhar – acordados – à noite em grotões do Brasil ou em periferias de Gravataí?

    Para suprir o Mais Médicos, pelo menos nos lugares mais distantes, o ministro sinalizou, mesmo que timidamente, convocar os cerca de 4,5 mil médicos atualmente chamados para atuar no militarismo brasileiro.

    Em Gravataí, seguiríamos aguardando solução para o ‘menos médicos’.

    No último artigo sobre a polêmica, escrevi:

     

    Acalmem-se os sempre nervosos, os indícios são de que, se não em Calabaço, no Ceará, que nunca tinha visto um médico antes da chegada da escrava cubana que atendia lá, Gravataí logo preencha as vagas que ficaram em aberto.

    Não sou secador de pobre, então, de verdade, não vejo a hora de, quem sabe em 10 dias, postar a manchete: “Médicos brasileiros já substituíram todos os cubanos em Gravataí”.

     

    Infelizmente, não foi desta vez.

     

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