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GRAVATAÍ, 18/11/2018

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    dia de finados

    Paulo Fernando leva flores para o túmulo singelo do neto, Ezequiel, morto aos 11 anos | EDUARDO TORRES

    Flores para não esquecer de cada Ezequiel que perdemos

    por Eduardo Torres | Publicada em 02/11/2018 às 13h50| Atualizada em 12/11/2018 às 12h35

    Ala 53, túmulo 16, no fundo do Cemitério Municipal do bairro Rincão da Madalena, em Gravataí. Não há uma placa, um retrato ou uma cruz. Só a terra revolvida e algumas flores, que o avô sempre faz questão de deixar ali como uma marca que ele certamente nunca esquecerá. Na manhã deste Dia de Finados, completou um ano que o menino Vilivaldo Ezequiel Rodrigues Machado foi enterrado naquele local, dias depois de ter sido encontrado morto a tiros. Ele tinha apenas 11 anos.

    A poucos metros dali, também sem qualquer sinal que identifique o túmulo, está na Ala 46, túmulo 2, Alex Sander Júnior, executado com 72 tiros em setembro do ano passado no bairro Vila Rica. Ele tinha apenas 18 anos.

    É no fundo do cemitério do Rincão que a estatística da violência, em um dia como hoje, ganha rostos, lembranças e a reflexão. É como se o balanço do terrível 2017 estivesse marcado por flores e orações na manhã desta sexta. No ano passado, Gravataí perdeu 174 vítimas de assassinatos. Foi o ano mais violento da década. A maior parte destas vítimas, jovens como o Alex ou o Ezequiel. Onde erramos?

    — É tanta coisa existindo no mundo e ao nosso redor, que a gente às vezes pensa numa razão para esse absurdo acontecer, outra vezes em outra, e sempre podemos estar errados. O Ezequiel tinha apenas 11 anos, era uma criança e foi vítima do que está matando tantos jovens por aí, e hoje nós vemos aqui ao redor, no cemitério, o resultado — lamenta o avô do menino, Paulo Fernando dos Santos, 57 anos.

     

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    Um ano depois do crime, ele não sabe o resultado a investigação policial e a motivação exata da morte do neto. Acredita que o envolvimento precoce com o movimento do tráfico no próprio bairro Rincão da Madalena pode ter vitima o Ezequiel.

    — Quando eu penso na morte dele, fico imaginando que precisamos valorizar muito mais a educação, não só da escola. A educação de mãe e pai. Dar mais importância às lições e exemplos dentro de casa, porque lá for    a, na rua, eles buscam alguma coisa que não tiveram dentro de casa, parece. Eu não tive estudo, mas o ensino que tive dos meus pais vale mais que muita universidade — reflete.

    Fazia dias que Ezequiel estava desaparecido quando a sua morte foi confirmada, já no DML, em Porto Alegre. Ele havia saído de casa, no Rincão, na sexta anterior, supostamente, para dormir na casa de um amigo no próprio bairro. Nunca chegou ao seu destino e, depois de não aparecer no final de semana, a polícia foi acionada pela mãe. Ezequiel era o menino que havia sido encontrado morto a tiros à beira da Rua Lino Estácio dos Santos. 

    O menino não teve pai. O avô fez as vezes do pai desde sempre, mas confesa que, diante das ruas, se sentia impotente. Lembra, inclusive, de um episódio em que a esposa ajoelhou-se aos pés do Ezequiel implorando para que ele não voltasse para a rua, onde já estava envolvido com as drogas, aos 11 anos.

    — É complicado criar um filho hoje em dia. Eu tenho muita esperança de que conseguiremos mudar a realidade que a droga ajudou a transformar na nossa cidade. Quem sabe um destes jovens não muda o destino e vira um futuro presidente do Brasil? Eu fico pensando nisso toda vez que venho ver o meu menino — desabafa Paulo Fernando.

     

    Nas ruas, o tráfico

     

    Pouco mais de um mês antes da morte do menino, Gravataí viveu o final de semana mais violento do ano. Nove pessoas foram mortas. Entre elas, o Alex Sandro Júnior, que estava envolvido com um grupo criminoso do Rincão da Madalena e acabou morto de forma brutal no dia 26 de setembro de 2017, na Vila Rica. Tinha apenas 18 anos.

     

    : Túmulos de jovens sem imagens ou placas, só flores reais ou artificiais e lembranças | EDUARDO TORRES

     

    Quem levou uma singela vela para o túmulo de terra simples na manhã deste Dia de Finados foi a tia, Maraísa Loff, 34 anos.

    — Infelizmente as drogas acabam com tudo. Enquanto não dermos um fim no tráfico, vamos continuar chorando por mortes como a do Juninho. Ele estava tranquilo, morando conosco em uma chácara, e de repente, voltou e se envolveu com tudo de ruim. Se meteu com quem não deveria — desabafa.

    O caso ainda não foi solucionado, e boa parte da família hoje vive escondida. Um dos irmãos dele estaria sob ameaça de morte do mesmo grupo que executou o jovem.

    Conforme os registros da Secretaria da Segurança Pública, até setembro foram 52 assassinatos em Gravataí. No mesmo período do ano passado, 140 pessoas já haviam sido mortas. Houve uma redução de 62,8%. É um alento, mas estamos atacando a raiz do problema para evitar mais mães e pais chorando por vítimas tão jovens?

    — Todos precisam refletir. Pode parecer meio simples, mas será que as nossas crianças não poderiam ter mais coisas para ocupar a cabeça na rua, alguma atividade saudável? É uma dor para nós, que perdemos, mas o problema é de todos — resume o avô do Ezequiel.
     

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