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    3º Neurônio | ideias

    Filme está disponível em Netflix

    Rede de Ódio – Indispensável para descobrir como não ser manipulado

    por Valéria Dallegrave | Brasil 247 | Publicada em 07/11/2020 às 22h53| Atualizada em 07/11/2020 às 22h54

    O Seguinte: reproduz o artigo da jornalista, escritora e dramaturga Valéria Dallegrave, publicado pelo Brasil 247

     

    Rede de Ódio (“The Hater”, em tradução literal “O Odiador”), do diretor Jan Komasa, polonês, tem como principal personagem Tomasz, que faz carreira em empresa especializada na manipulação da opinião pública, brincando com a vida de pessoas e o futuro de sociedades inteiras. Outros temas ficam subliminares, como a diferença entre classes, frustrações pessoais, a questão dos refugiados na Europa, voyeurismo (na sua versão informatizada, stalkear*), os limites da ambição e da ética de cada um; e as contradições, fragilidades, e até mesmo ingenuidade de quem se julga progressista – o que faz lembrar o filme coreano Parasita, em que a família rica demonstra extrema credulidade para com os empregados.

    A empresa para a qual Tomasz trabalha poderia ser a Cambridge Analytica. Rede de Ódio é uma possível versão ficticia de Privacidade Hackeada, documentário que trata da manipulação da opinião pública no Brexit, na eleição de Trump, no Brasil e em outros países. Lembremos que,  muitas vezes, a ficção pode retratar a realidade melhor que um documentário. Explico: acompanhar a vida de um bombeiro em um relato documental pode não incluir conhecer o que acontece durante um grande incêndio (por limitações técnicas ou de tempo), ou os mais profundos sentimentos do retratado. Na  ficção preocupada com a verossimilhança, é possível “criar” o incêndio e demonstrar o que não seria capturado pelo simples registro dos fatos. Sob este prisma, Rede de Ódio deve ser destacado em sua importância para o momento atual, quando o uso das redes digitais para semear ódio e mentiras surge como grande ameaça para a paz e a democracia no mundo inteiro. É verdade que a trama concentra muito poder na mão de um só indivíduo, enquanto, na prática, a responsabilidade cai sobre diversas pessoas, que fazem parte de estruturas montadas especialmente para manipular.  

    Voltando ao filme, Tomasz está sem perspectiva de futuro, disposto a tudo para conquistar um lugar na sociedade e ser aceito pela família Krasucka, progressista, intelectual e de classe alta. O trajeto dele irá se entrelaçar com a campanha de um candidato à Prefeitura de Varsóvia (que defende o respeito à diversidade), e com grandes movimentos sociais.  

    A situação inicial faz a apresentação do personagem, e nos mostra do que é capaz. Na defesa da acusação de plagiar um trabalho no curso de Direito, ele apelará para tudo, com muita sagacidade e pouca ética. O olhar trocado entre aluno e professora mostra a tensão que voltará a surgir e se aprofundar, no decorrer do filme, em seu relacionamento com diversas pessoas (é perceptível uma excelente direção de atores). Ao acompanhar o percurso de Tomasz, iremos nos perguntar, muitas vezes: Até que ponto está sendo honesto? Quando começa a dissimular!? Até onde será capaz de ir? 

    Robert e Zofia Krasucka contribuem com o pagamento do curso superior do jovem. O casal e as duas filhas, Gabi e Natalia, fazem parte das lembranças de infância do protagonista. Logo descobrimos que ele é obcecado (apaixonado?) por Gabi, mas por ser de origem humilde tem dificuldade para se aproximar verdadeiramente dela. Ao invadir a privacidade da família, através do uso de recursos tecnológicos, Tomasz descobre que, por trás da bondade que demonstram para com ele, existe também preconceito e desprezo. É, portanto,  na sua vida pessoal – e na diferença de classes - que surgem situações capazes de gerar o acúmulo de ressentimento, e também ódio. As frustrações, dificuldades, e o sentimento de deslocamento social são diretamente relacionados, no filme, com a motivação dos odiadores.  

    A fotografia, predominantemente sombria, dá o tom. Semelhante ao que acontece em Parasita, a tensão social cresce, até vir à tona de forma, se não inesperada, decisiva. Observe como, à medida que o filme progride, o rosto de Tomasz torna-se mais e mais impassível, até o ponto de parecer uma máscara. É quando está só, e não precisa representar para os outros, que percebemos um pouco o que se passa em seu interior. Frente aos outros personagens, apenas seus olhos irão nos dar um indício do que sente. E a fugacidade do olhar deixa sempre uma dúvida sobre a autenticidade dos sentimentos...  O filme não iria longe sem a excelente atuação de Maciej Musialowski, que interpreta o protagonista.

    Fica claro, nas postagens feitas por Tomasz nas redes sociais, a distorção de fatos e intenções, com o uso de perfis falsos e outros recursos. A manipulação de grupos através de mentiras, criadas para destruir reputações, faz parte de “trabalhos” encomendados por certos indivíduos, o que propicia a discussão sobre o lado negro do marketing e  a possibilidade de estarmos vivendo em uma época na qual a prioridade é destruir, e não construir. O mundo inteiro parece um jogo nas mãos daqueles que detêm o poder e escolhem o ódio e a destruição. Por falar nisso, observe a dubiedade da frase “A política não é um jogo”, quando colocada na boca de um dos personagens...

    Ao escancarar o uso destas formas de manipulação e suas trágicas consequências, Rede de Ódio ajuda a conscientizar sobre os diferentes tipos de “jogos” nos quais podemos nos tornar uma peça descartável. Conhecer o funcionamento das máquinas de disseminação de ódio é o primeiro passo para não se deixar manipular.

    Dicas:  O filme, disponível na Netflix, tem 2h10 min, e é um pouco lento no começo, portanto reserve um bom tempo livre para assisti-lo - se preciso, faça uma pausa para o lanche. Para observar, ainda: compare o olhar trocado entre Tomasz e a professora, no início, e entre ele e sua benfeitora, no final, e tente identificar os sentimentos que transparecem ali, em cada um dos personagens. Observe também o significado e a importância das mãos na sequência final.

     

    *Stalkear: Gabi pergunta a Tomasz se ele a stalkeou (antes, na conversa com os pais, ela alega que ele a googleou – a pesquisou no google), o termo stalkear vem da palavra em inglês stalker, perseguidor. Com a exposição de detalhes de nossas vidas nas redes sociais, é normal que se espie a vida (a timeline) de amigos e conhecidos, porém, stalkear vai muito além disso, é a prática de vasculhar a vida de alguém de forma aprofundada, recorrente ou obsessiva (alguns fãs fazem isso com suas celebridades favoritas...). E, pasmem, já existem softwares projetados para monitorar a vida de um alvo específico, chamados stalkewares, que podem ser usados para roubo de informações e conversas. Uma das variações são os spousewares, para parceiros ciumentos que querem espionar a vida de cônjuges ou namorados(as). Há ainda o spyware, que costuma vir junto com o download de programas de arquivos online. O verbo, aportuguesado, stalkear, define uma prática para a qual ainda não existe legislação específica no Brasil. Dependendo do caso, poderá ser enquadrada em outras leis já existentes.

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