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    3º Neurônio | ideias

    Mapa-mundi da volta às aulas na pandemia

    por Igor Venceslau | Outras Palavras | Publicada em 29/10/2020 às 15h07| Atualizada em 29/10/2020 às 16h54

    Escolas já reabriram em países como China e Vietnã, onde doença foi contida com êxito. Europa precipitou-se — e pode ter de fechá-las em breve. Em quase toda a América Latina, elas se mantêm fechadas. No Brasil, debate tem fundo eleitoreiro… O Seguinte: reproduz o artigo publicado pelo Outras Palavras

     

    Após mais de sete meses em situação de emergência pela pandemia da covid-19 no Brasil, com a volta de diversas atividades – incluindo praias e bares superlotados – e o uso cada vez mais raro da máscara, sem uma redução significativa no número de casos e mortes, o tema da volta às aulas continua em discussão. Afinal, abrir ou não as escolas?

    No mundo, a situação é bastante heterogênea. Segundo dados da UNESCO de 26 de outubro, muitos países asiáticos e da Oceania retornaram com as escolas abertas, sobretudo aqueles que lograram êxito maior em controle da disseminação do novo coronavírus, como China, Japão e Vietnã. No continente europeu, ao contrário, a abertura das instituições de ensino não foi resultado de um controle definitivo da doença, levando a possíveis novos fechamentos de escolas em países como Reino Unido. Enquanto isso, França e Alemanha insistem num novo lockdown com manutenção das escolas funcionando.

    Há diversos países com escolas parcialmente abertas. A noção de “parcialmente” aqui assume um caráter ambíguo, ou ao menos polissêmico. Pode significar desde parcialmente no tempo, em nações com ensino integral cujas escolas estão funcionando em regime parcial, alternando entre atividades remotas e presenciais; até parcialmente no espaço, em federações (como os EUA) onde governos de cidades ou estados decidem sobre quando retornar às atividades, com algumas regiões tendo voltado e outras não. Além disso, parcial também pode estar relacionado a parte dos alunos, aqueles cujos responsáveis permitiram voltar à frequência das salas de aula (Canadá). Além dos parcial ou totalmente abertos, há um pequeno grupo de países que estão em férias escolares no calendário nacional, a maioria do continente africano e oriente médio.

    Na América Latina, a abertura plena das escolas é uma exceção, até o momento registrada apenas na Nicarágua1. Muitos países estão mantendo as escolas parcialmente abertas, ainda que em cada um deles esse status ganhe significados distintos. Essa volta gradativa é plenamente compreensível no Uruguai ou em Cuba, com uma baixíssima taxa de 1 morte por 100 habitantes, mas bastante questionada pela população e pelos veículos de mídia locais no caso do Chile ou Peru, este último já o país com maior taxa mundial de mortalidade por covid-192 – 106,9 vítimas fatais/100 mil hab. Em outros países as escolas continuam fechadas – e é justamente esses lugares que estão experimentando uma disputa mais intensa em torno da questão. México, Bolívia, Equador, campeões em números absolutos e relativos de casos, mas também outros onde a situação é menos grave também seguem fechados, o que inclui desde vizinhos como Paraguai e Venezuela até a maioria da América Central ístmica. Mas não se enganem com uma leitura apressada do mapa: Índia, Arábia Saudita ou Filipinas, onde a pandemia tem se revelado implacável, ainda não voltaram às aulas.

    O Brasil também segue com os alunos em casa, mas sofre pressão de todos os lados. Somada à realidade objetiva da população cujos contingentes de pobres e subempregados se incrementam diariamente, onde pais/responsáveis que precisam trabalhar fora de casa não têm como acompanhar os filhos em tarefas escolares, setores do mercado educacional alardeiam o chamado ano do “fracasso escolar”. Bem, a educação nunca foi lá tão excelente entre os paralelos 5°N e 30°S, especialmente na maioria das escolas particulares com seu antiquado programa de memorização por apostilas e módulos. Em muitas delas, o fracasso já vem sendo praticado há décadas. Vale lembrar que aqui neste mesmo território um ministro da república pode não ter a mínima noção de geografia do Brasil básica do ensino fundamental, assim como muitos estadunidenses médios seguem pensando ser Buenos Aires a capital brasileira. Os resultados das avaliações nacionais há muito já vêm revelando de onde saem os alunos mais preparados, e sejamos sinceros: muito mais das escolas públicas próximas da Linha do Equador. Neste momento incerto, na disputa de narrativa entre uma pandemia que continua e a que já teria passado, a pressão da própria UNESCO por abertura vem complexificando a discussão.

    Às vésperas das eleições municipais, assistimos a uma verdadeira aula de manipulação política. De um lado, os candidatos falastrões que prometem abertura imediata das escolas, se eleitos. De outro lado, promessas de campanha incluem a manutenção do lockdown escolar, sem discussão. Sem o debate necessário, temos uma cartilha da verdadeira morte da política. A avaliação dos agentes diretamente envolvidos – alunos, professores e pais – fica geralmente de fora da conta.

    Não devemos ter pressa em sujeitar crianças e adolescentes à situação de (bio)insegurança, mas suspender as aulas somente não basta. É preciso assistir aos mais vulneráveis, nada ou precariamente conectados ao ensino remoto e a condições salubres de estudo. Entretanto, essa ação tem um limite, que esbarra na própria desigualdade social estrutural da sociedade brasileira, extrapolando e muito os muros da escola. A discussão sobre a volta ou não às aulas apenas antecipa ou retarda o momento que recoloca a situação imediatamente anterior à pandemia: o baixo salário dos professores, as salas superlotadas, o ensino conteudista. Eis aí uma oportunidade para, outra vez, repensar a educação brasileira.

    1 Considerando apenas os países continentais e Grandes Antilhas, sem ponderar a situação muito particular das Pequenas Antilhas (Barbados, Dominica, Granada, entre outros).

    2 Entre os países com população comparável. Considerando os chamados “microestados”, com população e território restritos, San Marino registra a maior taxa de mortalidade até outubro de 2020 (segundo a Johns Hopkins University, 124,32 mortes/100 mil hab.), ficando o Peru na segunda posição.

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