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    3º Neurônio | opinião

    Corpo de dentista de desaparecida é encontrado às margens da BR 158 | Foto Polícia Civil

    Por que suicídios como o da dentista de Tupanciretã viraram tabu na imprensa

    por Carlos Wagner | Histórias Mal Contadas | Publicada em 17/10/2020 às 11h41| Atualizada em 19/10/2020 às 13h18

    Ainda não é oficial. Mas é grande a possibilidade de que a dentista Bárbara Machado Padilha, 32 anos, tenha cometido suicídio. Seu corpo foi encontrado no meio do mato na tarde de ontem (14/10) em Santa Maria. Ela viajou para cidade no sábado (10/10), depois de desaparecer de sua casa em Tupanciretã, cidade agrícola que fica 90 quilômetros ao norte de Santa Maria pela BR-158. A causa da morte deverá ser indicada pelos peritos do Instituto-Geral de Perícias (IGP), alertou o delegado regional de Santa Maria, Sandro Meinerz, um dos mais experientes policiais gaúchos, que tem no seu currículo o inquérito sobre o incêndio da Boate Kiss, em 2013, que matou 242 pessoas e feriu 680. Há uma abundância de informações sobre o caso que deverão facilitar as investigações. Entre essas informações há uma do marido da dentista, o advogado Pedro Melo Ribas, 32 anos, que considero importante. Em resumo, ele disse que nos últimos dias Bárbara andava calada e desmotivada. É sobre isso que quero conversar. Vamos aos fatos, como dizem os editores mal-humorados.

    Vamos ao pano de fundo da nossa história. Foram brutais as mudanças impostas ao nosso modo de vida pela Covid-19, uma doença que não tem cura nem vacina e já matou 5 mil gaúchos, 150 mil brasileiros e mais de 1 milhão de pessoas ao redor do mundo. No segundo mês do isolamento social, comecei a prestar atenção aos casos de suicídio que passaram a pipocar pelos estados do Sul do Brasil, especialmente no interior gaúcho. Antes de seguir a narrativa, vou contextualizar um dado que considero importante. Sou um velho repórter, tenho 70 anos de idade, 40 e poucos de profissão e outros 30 e tantos vividos em redação de jornal. Lembro que, quando comecei no jornalismo, em 1979, havia uma regra não escrita nas redações de não se noticiar episódios de suicídio porque se acreditava que, para cada um que fosse divulgado, outras cinco pessoas iriam se matar. Essa regra foi quebrada no final dos anos 90 pelo repórter Carlos Etchichury, que fez uma série de reportagens mostrando que o suicídio é um problema de saúde pública. Desde então, começou-se a abrir espaços no noticiário para psiquiatras, psicólogos e outros profissionais, alertando a população sobre o problema.

    Voltando à narrativa. Fiquei atento aos casos de suicídios porque já havia lido alertas emitidos pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Associação Internacional para Prevenção do Suicídio (IASP). Em síntese, os técnicos dessas organizações falavam sobre a necessidade de aumentar a vigilância, porque a pandemia estava potencializando os fatores de risco do suicídio, com angústia, ansiedade e depressão. Somadas à violência doméstica, aos transtornos causados pelo consumo excessivo de álcool e o abuso de substâncias e ao sentimento de perda. Enchemos os noticiários dos jornais (papel e site), TVs, rádios e outras plataformas com médicos infectologistas, virologistas e outros especialistas. Mas o número de psiquiatras, psicólogos e demais profissionais da área da saúde mental que foram entrevistados sobre suicídio cabe nos dedos de uma mão. Muito embora ainda não existam trabalhos científicos publicados sobre os suicídios causados pela pandemia, especialistas têm afirmado que o problema existe e merece atenção.

    O Brasil está em oitavo lugar no mundo em suicídios. E o Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional, com 11,65 casos por 100 mil habitantes. É uma taxa mais alta que a brasileira e a de muitos países ao redor do mundo. Portanto, nós repórteres deveríamos ter colocado nos nossos conteúdos muito mais que a recomendação de usar máscaras e tomar cuidados higiênicos com o vírus. Tão letal como a Covid-19 são as causas silenciosas que habitam nossas casas e que contribuem para o suicídio, como parece ter sido o caso da dentista Bárbara. Se nós jornalistas tivéssemos atentado para esse detalhe, pessoas como ela teriam uma chance de sobreviver. Não existe uma explicação para que o tema suicídio voltasse a ser um tabu nas redações durante a pandemia. Andei conversando sobre o assunto com alguns colegas e pesquisadores da área da comunicação. O que vou escrever não é científico. São apenas observações. Houve uma polarização e uma politização no Brasil em torno da Covid-19. De um lado, o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), pregando o negacionismo em relação à pandemia, inclusive boicotando o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Do outro, pessoas como Mandetta, cientistas e a maioria dos órgãos de comunicação, defendendo o isolamento social recomendado pela OMS como única estratégia para lutar contra o vírus. Em um ambiente como esse, divulgar que o isolamento social contribui para o fortalecimento dos fatores do suicídio é complicado. Muitos deixaram o assunto para lá. Ou divulgaram de maneira discreta.

    A morte da dentista e de tantas outras pessoas que não chegaram aos nossos olhos e ouvidos estão aí para nos alertar que é preciso vasculhar a questão dos suicídios na pandemia. Não temos dados científicos. Mas sabemos que está acontecendo. O ambiente hoje é menos tenso por conta dos avanços técnicos nos tratamentos médicos da doença e nos testes das vacinas. Claro que ainda existe polarização política em torno do assunto. Vejam o caso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas por conta desses avanços técnicos já temos uma brecha considerável para começar a falar sobre a questão da saúde mental das pessoas sem colocar uma arma política na mão dos negacionistas. Ou seja, colegas: precisamos falar sobre o suicídio na pandemia.

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