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    3º Neurônio | ideias

    O cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso no ducumentário ’Narciso em férias’

    Caetano Veloso: ’Minhas expectativas sobre o Brasil não são tanto a esperança. São mais a responsabilidade’

    por Joana Oliveira | El País | Publicada em 08/09/2020 às 14h01

    Cantor e compositor baiano estreia no Festival de Veneza o documentário ’Narciso em férias’, em que narra sua prisão durante a ditadura militar brasileira. O Seguinte: reproduz a entrevista publicada pelo El País

     

    É impossível cantar o Hino Nacional com a melodia da Tropicália. Os versos do Hino são decassílabos, enquanto os da música composta e cantada por Caetano Veloso têm oito sílabas poéticas. Além disso, a acentuação poética das duas canções é totalmente diferente. Isso foi o que respondeu o artista baiano no interrogatório a que foi submetido pela ditadura militar brasileira, que o acusou de fazer “terrorismo cultural” e o manteve preso, junto com o amigo Gilberto Gil, de 27 de dezembro de 1968 —14 dias depois do AI-5— a 19 de fevereiro de 1969, uma quarta-feira de cinzas. Os dois meses de cárcere, cuja primeira semana foi em uma solitária, foram descritos pela primeira vez na autobiografia Verdade Tropical (Cia. das Letras, 1997) —que ganhou uma nova edição em 2017—. Um ano depois, os diretores Renato Terra e Ricardo Calil gravaram o documentário Narciso em férias, homônimo ao capítulo em que Caetano narra os infortúnios de sua prisão semi-clandestina. A coprodução Uns Produções e VideoFilmes estreia nesta segunda-feira no Festival de Veneza, fora de competição, e é o único filme brasileiro no evento.

    A ideia foi de Paula Lavigne, ou Paulinha, como Caetano se refere amorosamente à sua mulher, produtora e empresária.

    – A entrevista comigo seria a base para um documentário mais convencional, com outras locações e outras entrevistas. Ao ver o material, os dois diretores acharam que ali tinham tudo – conta o cantor em entrevista por e-mail ao EL PAÍS.

    De fato, a imagem de Caetano sentado em uma cadeira simples, poucas vezes com o violão na mão a cantar, no fundo cinza de uma sala vazia do espaço cultural inacabado da Cidade das Artes, no Rio, é mais que suficiente para embeber o espectador na história que, embora pessoal, é parte de um dos períodos mais tenebrosos da história do Brasil.

    Durante a prisão, Caetano secou. Não conseguia chorar e, no que Gil chamou do “silêncio do sexo”, sua libido minguou: tampouco conseguia masturbar-se, algo que, como ele mesmo conta, sempre havia sido uma atividade quase terapêutica. A ereção não vinha. Sua superstição, no entanto, nascida com ele em Santo Amaro, na Bahia, intensificou-se entre as celas. A visão de uma barata era um mau agouro, assim como canções como Súplica, de Orlando Silva, e Onde o céu azul é mais azul, de Francisco Alves. Ainda hoje, o mero título desta última fica preso na garganta e faz água nos olhos de Caetano. É como que impronunciável. Os bons presságios, por outro lado, ficavam a cargo de músicas como Hey Jude, dos Beatles, e Irene, a única que compôs no cárcere, em lembrança e saúde do sorriso da irmã caçula.

    A maior bem-aventurança era, certamente, a presença de Dedé Gadelha, sua esposa na época que, tal qual uma detetive, descobriu onde Caetano estava preso e insistiu até conseguir visitá-lo. Em Narciso em Férias, o único momento em que ele vai às lágrimas é quando recorda o sargento que facilitou os encontros entre os amantes.

     

    Pergunta. Há quem diga que revisitar e recontar momentos traumáticos são um exorcismo emocional. O que o fez recontar sua prisão, narrada em Verdade Tropical, em um documentário? Trata-se de mais um exorcismo?

    Resposta. Tomara. Faz uns três anos, sugeri a publicação em separado do capítulo Narciso em Férias, de Verdade Tropical. Paula Lavigne teve a ideia de fazermos um documentário sobre o que é narrado ali. Ela, produtora e empresária, pensava em economizar a energia que seria gasta em tentar dizer “não” a possível convites para levar aquilo às telas. Mas também queria que, se tomássemos a decisão de fazer, que tudo fosse feito de modo belo e honesto. Como eu tinha gostado imensamente de Uma Noite Em 67 [sobre o festival de música na antiga TV Record], ela convidou Renato Terra e Ricardo Calil para dirigir. E nos levou para a Cidade das Artes, para que uma entrevista comigo fosse rodada na sala vazia do que fora construído para ser um cinema. A entrevista seria a base para um documentário mais convencional, com outras locações e outras entrevistas. Ao ver o material, os dois diretores acharam que ali tinham tudo.

     

    P. No livro, é nítido seu agradecimento ao sargento, “um preto baiano”, que facilitou os encontros com Dedé em sua cela. No documentário, no entanto, ao lembrar que ele foi preso, posteriormente, você chega a chorar. Que sentimentos o gesto daquele homem e sua lembrança despertam?

    R. Não que eu não tenha me emocionado ao escrever certas frases no capítulo do livro. Mas falar é outra coisa. E estar diante do fato de não lembrar o nome do generoso sargento baiano me desarmou.

     

    P. Você já era supersticioso e diz que ficou ainda mais na prisão. De que maneira isso se manifesta hoje em sua vida?

    R. Com bem menor intensidade. Muito passou a ser um jogo mental, um vício que serve de diversão. Muito simplesmente sumiu. Mas, como eu ia cantar, sendo gravado e filmado, todas as canções a que me refiro e os diretores já voltaram com a ideia de que o filme já estava pronto —e nas duas noites em que filmamos eu só tinha cantado Hey Jude e Irene— vi que as outras, as que eram sinal de má sorte, não estavam incluídas, voltei a achar difícil arriscar cantá-las. Outro dia, dando uma entrevista para a TV, me dei conta de que a uma delas eu nem podia me referir. Mesmo agora, se penso em frases de sua letra ou melodia, sinto vontade de chorar. Não é medo. É uma tristeza de ter deixado uma canção que fala de um grande amor abrangente pelo Brasil ter estado proibida dentro de mim por tantos anos.

     

    P. E como é essa dicotomia de ser um ateu que vê milagres? O candomblé ou outras religiões de matriz africana nunca tentaram sua fé?

    R. A frase sobre ser ateu e ter visto milagres foi dita por Jorge AmadoO Pasquim quis entrevistá-lo e queria que eu estivesse presente, ajudando a fazer perguntas. Como eu não podia estar no Rio na data marcada, eles me pediram as perguntas por escrito para que fossem lidas para Jorge. Eu perguntava que significado propriamente religioso tinha o candomblé em sua vida, já que ele era Obá de Xangô. Ele respondeu: “Não sei feliz ou infelizmente, ao contrário de [Dorival] Caymmi, eu não tenho nenhuma fé. Sou ateu materialista convicto. Mas vi muitos milagres do candomblé. Milagres do povo”. Quando me pediram pra fazer uma música para a versão televisiva de Tenda dos Milagres, citei a frase logo na abertura da música. E passo a falar dos “deuses sem Deus”, que “não cessam de brotar nem cansam de esperar”. Eu, pessoalmente, nunca vi milagres.

     

    P. Você foi acusado de “terrorismo cultural”, algo que disse desconhecer. Acredita que o atual Governo brasileiro persegue as artes por acreditar nesse fantasma? Sob o governo Bolsonaro, vivemos a distorção da verdade e uma guerra digital da qual você já foi alvo, quando perseguido por discípulos de Olavo de Carvalho. O hoje é tão terrível quanto o ontem?

    R. É. Por caminhos diferentes, é igualmente terrível.

     

    P. Na nova introdução do livro, de 2017, você escreve que “o Brasil está em perpétua convulsão e há coisas demais sugerindo que não temos por que ser otimistas” e lembra uma frase de Fernando Pessoa: “Nós nos extraviamos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”. No nosso 2020, essa frase —que traz uma esperança, ainda que irônica— ainda faz sentido?

    R. Faz tanto sentido quanto quando a citei ali. Foi [o economista] Eduardo Giannetti, um liberal, quem a destacou para mim. Minhas expectativas otimistas sobre o Brasil não são tanto a esperança. São mais a responsabilidade. Se não buscarmos dentro de nós o que temos de energia histórica para fazer, pelo que somos, algo bom ao mundo, perdemos a exigência de agir e pensar de modo consequente.

     

    P. Você reconhece ter uma “tendência à digressão” e certo caráter proustiano. Isso se acentuou, ou mudou de alguma forma, com a velhice?

    R. Pessoas próximas às vezes dizem que piorou. Mas não são todas. Converso muito bem com meus filhos. Eles sabem que posso ser prolixo a ainda um tanto digressivo, mas o papo anda. E muito. Mesmo com Tom, que é lacônico. E quando escrevo, sinto que consigo ser mais breve.

     

    P. Você e seu filho Zeca têm feito sessões de “cineclube” em casa durante a quarentena. É impossível não lembrar as passagens apaixonadas de Verdade tropical sobre o cinema, principalmente aos filmes de Federico Fellini. O que vocês têm assistido nessas sessões?

    R. Zeca e eu estamos vendo filmes variados. Ele agora está concentrado em algo que está fazendo. Por isso não temos tido sessões. Mas vimos filmes brasileiros inevitáveis e alguns italianos. Temos planos de continuar.

     

    P. Narciso em férias não é primeiro documentário dirigido por outrem com caráter biográfico de sua pessoa. Sua incursão à criação cinematográfica, entretanto, se limitou ao experimental Cinema falado. Você chegou a revisitar o filme como fez, por exemplo, com o livro, há três anos? E por que não se aventurou novamente detrás das câmeras?

    R. Fazer canções e cantá-las é muito mais simples logisticamente do que fazer filmes. O Cinema falado foi um ensaio de ensaios. Gostaria de fazer um na Bahia, que tivesse uma ideia bonita (eu tive um amigo chamado Marco Polo que vivia numa casinha sobre a pedra que limita o Porto da Barra e ia a todos os lugares de Salvador pelo mar. Ele não tinha ideia de que seu nome fora inspirado por um navegador veneziano. Eu queria fazer um filme sobre alguém assim. Que tivesse imagens parecidas com as que de Trampolim do Forte. Nunca me desliguei de todo do sonho de fazer cinema. Mas acho difícil pensar nisso agora. Tenho 78 anos, as pessoas vêem séries de TV que eu acho chatíssimas, com vários episódios e temporadas, não sei se esse sonho pode voltar a ser um plano.

     

    P. Seu amigo Pedro Almodóvar acaba de estrear em Veneza um filme realizado durante a pandemia. Vocês têm se falado e trocado reflexões sobre vida, trabalho e arte nesses tempos incertos? Você se vê voltando aos palcos no futuro próximo?

    R. Sei que Pedro vai a Veneza. Eu não posso ir. Brasileiros não são recebidos na Itália ainda. Paulinha falou com Pedro recentemente. Eu não. Faz um tempo que não nos escrevemos. Ele estava filmando e é muito obsessivo quanto a isso. E eu quero voltar a cantar num palco diante de uma plateia.

     

    P. Em Narciso em férias, você diz que abomina o socialismo e, em Verdade tropical, escreve que, se não fosse aquele 1º de abril de 1964, estaria mais distante da esquerda. Vê uma esquerda crítica, como a sua, no Brasil de 2020? Que saída social e política vê para o país?

    R. O filme foi feito há dois anos. Nesse meio-tempo, vi Jones Manoel falar no Youtube, li uma introdução dele ao livro Revolução Africana e ali encontrei argumentações que mexiam com minhas quase certezas a respeito do assunto. Na verdade, Jones me respondia perguntas que venho fazendo há décadas sobre a razão por que os marxistas do mundo acadêmico nada diziam sobre as experiências reconhecidamente opressivas vividas nos países que chegaram ao socialismo. Lemos que Marighella chorou quando soube das famosas maldades de Stálin, mas nada se sabe de como a decisão pelo comunismo se refez dentro dele. Bem, eu gostava de Ruy Fausto [filósofo] por ele criticar as experiências de socialismo real. Não que ele fosse o único. Muitos trotskistas já o tinham feito em alguma medida. Pelo menos na repulsa a Stálin. Mas nem Ruy nem eles chegavam a justificar sua adesão a algo que resultara sempre tão mal. Na contracultura, tínhamos coragem de rejeitar tudo aquilo sem virarmos conservadores ou reacionários. Mas a conta não fechava. No livro, conto como oscilávamos entre uma ultraesquerda e o liberalismo. Essa ultraesquerda tinha algo de anarquista. Mas isso não bastava. O credo liberal me parecia mais digno. Não entrávamos numa religião salvadora que não ousa dizer seu nome: a democracia liberal está em prática no ocidente desenvolvido. Mas sou mulato e de país subdesenvolvido. Minha inspiração não se contenta com o esquema que tem como líder o grande país excepcional que fez a revolução antes da Francesa e se mantém fiel a ela, se ele cala-se diante da Arábia Saudita e execra o Irã e a Venezuela. Então a unidade de propósitos profundos que a ousadia socialista representa, tal como aparecia nas fala e textos de Jones Manoel e se explicava detalhadamente nos livros de Losurdo [Domenico Losurdo, filósofo italiano], é composta de uma visão radical sobre a história colonial e a escravização de negros africanos —história que coincide com o desenvolvimento do liberalismo. Ver isso mudou minha cabeça.

     

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