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    3º Neurônio | sociedade

    Como aprender a discordar sem cair nas garras da cultura do cancelamento

    por María Paredes | El País | Publicada em 26/07/2020 às 18h33

    Discordância pública parece ainda mais vetada do que o habitual, mas há algumas fórmulas para fazê-lo sem sair escaldado. O Seguinte: reproduz o artigo publicado pelo El País

     

    Atualmente, entoar uma voz dissonante ao discurso majoritário pode ter um preço muito alto. Um exemplo é James Benett, chefe de Opinião do renomado jornal The New York Times, que pagou com sua cabeça a publicação de um artigo de um senador republicano favorável à utilização de tropas para acabar com as revoltas do movimento Black Lives Matter. E há muitos mais. Tantos que 150 intelectuais, entre os quais estão o filósofo Noam Chomsky e a ativista feminista Gloria Steinem, publicaram uma carta reivindicando o direito a discordar no que chamam de sociedade do cancelamento. Mas como fazê-lo sem acabar submetido a um linchamento nestes tempos?

    – A livre troca de informação e ideias está se tornando cada vez mais restrita – diz a carta publicada na revista Harper’s e continua explicando que a censura está se estendendo em nossa cultura.

    Cada vez há mais intolerância aos pontos de vista opostos, os que pensam diferente são envergonhados publicamente e o ostracismo aumenta. Algo que “só empobrece o debate público”, necessário – de acordo com os especialistas – para que a sociedade avance.

     

    Sem discordância não há progresso

    Para entender a importância de discordar no progresso só é preciso dar uma olhada na ciência, onde o avanço se nutriu graças à existência do debate.

    – A ciência questiona tudo. É exatamente o contrário ao que acontece em outros aspectos da vida, como a política, em que nos deixamos levar pelo raciocínio emocional – diz Luis Miller, vice-diretor do Instituto de Políticas e Bens Públicos do CSIC.

    Definitivamente, tons muito diferentes das discussões do restante dos mortais, que costumam ter ásperas recriminações como diz a carta.

    Talvez o foro em que se veja com mais claridade esse problema sejam as redes sociais, onde as consequências podem ir de insultos à perda da reputação e até do trabalho, como aconteceu a Benett. Mas não é preciso ter um cargo importante em um dos jornais mais importantes do mundo para ser castigado pela justiça popular.

    – Minha companheira foi assediada por quatro pessoas nas redes sociais por compartilhar uma postagem de apoio às doações de Amancio Ortega à saúde pública – conta José, um estudante de jornalismo que também se viu pessoalmente fustigado por expressar uma ideia diferente da maioria da classe:

    – Parece impossível que qualquer debate não ganhe um tom ideológico.

     

    A censura do ego

    Como se pode ver, na vida cotidiana e privada de cada um também é possível lidar com frequência com situações em que expressar uma opinião pode desencadear um ácido conflito com um chefe, um companheiro, um amigo e um familiar. A pergunta é: o que incomoda tanto quando existe uma diferença no pensamento? O psicólogo Álvaro Tejedor de Psicologia e Comunicação aponta a um problema de ego:

    – Quando alguém não valida uma opinião a outra pessoa sente que está em jogo sua aceitação em relação ao grupo ao grupo e a si mesma.

    Uma das chaves para evitar ferir a autoestima da outra pessoa e manter o debate vivo, diz o especialista, está na maneira em que se expressa a discrepância. Devemos ser flexíveis, ter empatia ao outro, usar sedução e deixar claro que as ideias expressadas também trazem benefício ao interlocutor.

    Anote como fazê-lo:

    – Utilizar a primeira pessoa do plural quando há um conflito é positivo porque não significa que há um confronto, e sim dá a sensação de que existe uma equipe que tem uma finalidade comum. É um dos melhores recursos – diz Tejedor, que também recomenda que se deixe muito claro o tempo todo que se entende a visão da outra pessoa e que apesar de discordar é igualmente válida.

    Além disso, o melhor é procurar sempre um local privado, afirma o especialista. Principalmente, diz, se é uma pessoa com quem existe uma diferença hierárquica (como um chefe). Do exemplo da ciência também é possível aprender estratégias saudáveis de discussão como julgar as ideias por si mesmas e não em função de quem as emite. Também a acostumar-se a receber ideias de diversas fontes, a colocá-las em dúvida e discuti-las, mas sem cancelá-las antes de ter toda a informação.

     

    Em boca fechada não entram conflitos?

    Mais uma vez, as redes sociais não ajudam nessa missão.

    – Os novos canais de comunicação fazem disso cada vez mais difícil porque damos credibilidade à informação tomando como base o número de vezes em que foi compartilhada. Além disso, vivemos dentro das denominadas ‘câmaras de eco’, que fazem com que só escutemos uma determinada versão da história – afirma o especialista do CSIC, que argumenta que somente sabendo dessas esferas é possível empatizar com o outro, algo que reduz consideravelmente a tensão e o conflito.

    – Se conseguirmos discutir as ideias em si mesmas e não simplesmente questionar seu emissor, podemos assentar as bases para, pelo menos, poder dialogar entre pessoas que pensam de maneira diferente – diz.

    Dado que nem tudo está em nossas mãos e diante desse clima crescente de censura, é inevitável se perguntar se há momentos em que é melhor deixar de lado o confronto e optar pelo silêncio para evitar um gasto desnecessário de energia. A resposta depende de cada situação, aponta o psicólogo:

    – Sempre devemos pensar se a recompensa que obteremos da discussão é suficientemente grande em relação ao tempo e a energia dedicados – esclarece o psicólogo, que dá como exemplo a clássica discussão política de uma refeição familiar:

    – Brigar com um cunhado sobre se a política municipal dos parques caninos é adequada ou não, provavelmente não irá melhorar nossa qualidade de vida em nenhum sentido – afirma o psicólogo, que nesses casos aconselha a evitar a discussão.

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