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    3º Neurônio | opinião

    O viaduto de Santa Efigênia, em São Paulo, no início do confinamento

    Coração de pedra

    por Juan Arias | El País | Publicada em 23/06/2020 às 21h45

    Quando em um país as autoridades são incapazes de sentir responsabilidade e menos ainda empatia e dor com as vítimas de uma tragédia, como a pandemia do coronavírus, estamos chegando ao abismo. O Seguinte: reproduz a opinião de Juan Arias, publicada pelo El País

     

    O Brasil já perdeu 50.000 pessoas vitimadas pelo coronavírus, e o Governo de Jair Bolsonaro não é capaz de chorar por elas. Nenhum dia de luto nacional. Nenhuma palavra de consolo e solidariedade com os mortos. Estamos diante de um coração de pedra.

    Não é só um número frio. São 50.000 famílias de luto. É muita dor. São muitas lágrimas. Cada morto é uma história de vida e de amor. E não se tratou de uma fatalidade. Foi uma tragédia anunciada, pois o máximo responsável pela nação chegou a burlar-se da pandemia e boicotou as medidas de prevenção pedidas pela ciência e a medicina. Humilhou seus ministros de Saúde e teve o sarcasmo de dizer que “todos temos que morrer”. Sim, todos vamos morrer um dia, mas muitas dessas pessoas podiam ter se salvado.

    As famílias das vítimas não tiveram nem o consolo de velar e enterrar como seus mortos como gostariam. Foi dor somada a dor. Muitos foram enterrados na calada da noite, em valas comuns. O silêncio cínico de um governo com coração de pedra aumenta a dor das famílias. Quando em um país as autoridades são incapazes de sentir responsabilidade e menos ainda empatia e dor com as vítimas de uma tragédia, estamos chegando ao abismo.

    Fariam bem as famílias das vítimas em denunciar a algum tribunal internacional a atitude de um presidente que durante todo o desenrolar da epidemia intentou negar a realidade e burlar-se dela. O Brasil é, conforme relatos vindos de fora, o país que mais desprezou seu perigo, que menos informações deu e que menos escutou a voz dos especialistas mundiais.

    a tragédia do coronavírus no Brasil não acabou e ainda pode ceifar muitas vidas. Os cemitérios ainda receberão muitas novas vítimas que poderiam ter sido salvas. E assim como as autoridades da nação revelaram um coração endurecido com as vítimas, o mesmo fazem com relação aos médicos e enfermeiros que sacrificaram sua vida para salvar as dos outros. Em alguns casos, foram até agredidos pelas tropas do presidente.

    Os brasileiros podem ter muitos defeitos e muitos problemas atávicos por resolver, como o do racismo ou as graves diferenças sociais, mas ninguém pode acusá-los de terem coração de pedra. Eles sabem chorar e em cada tragédia natural souberam demonstrar solidariedade e compaixão com as vítimas.

    É um país que precisaria ter neste momento um presidente capaz de detectar a dor das pessoas. Mas um governo cujo vocabulário, quando não soez, está sempre povoado por vocábulos de negatividade, como guerra, armas, ódio, inimigos, enfrentamento e ameaças, e nunca de palavras que favoreçam a convivência pacífica, como paz, liberdade, diálogo, solidariedade e compaixão, já é um governo morto.

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