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    3º Neurônio | opinião

    Imagem por Miguel Brieva

    Na era do despropósito

    por Flavio Lobo | Outra Palavras | Publicada em 13/01/2020 às 17h44| Atualizada em 14/01/2020 às 11h59

    A ordem hegemônica impele a acumular recursos e poder em escala insustentável. Esta lógica, antes funcional, agora ameaça a vida – e ainda assim continua a ser imposta. Daí a falta de sentido, os suicídios, a duradoura depressão. O Seguinte: reproduz o artigo publicado pelo Outras Palavras

     

    "Você precisa ter propósito”, dizem o seu chefe na empresa, o guru de autoajuda, o coach, o marketing, o branding, as técnicas psicoterapêuticas de resultados, as teologias da prosperidade, celebridades e outros personagens que encarnam exemplos de sucesso. Ecoam o mesmo mandamento pensadores, conselheiros e terapeutas que se dizem críticos do status quo, do mainstream, da visão de mundo convencional, da “matrix da realidade normal”.

    Não é curioso o fato de que a mesma demanda ressoe tanto nos discursos mais integrados aos modelos de pensamento dominantes quanto nos que se apresentam como alternativos?

    Provavelmente sempre se soube que ter propósito é importante em várias esferas da vida. Mas eis que essa palavra começou a ser usada com mais frequência, adquirindo visibilidade e brilho especiais.

    Quando uma palavra ganha aura de revelação e passa a ser cultuada como algo quase tão indispensável para as pessoas quanto oxigênio, muitas vezes estamos diante de um sintoma de vazio. Uma impressão de excesso de significado pode, na verdade, ser expressão de um buraco, de uma ausência incômoda. A palavra mágica da vez pode ser o emblema de um fetiche. Algo que toma o lugar de uma “coisa em si” cuja falta, se encarada a seco, seria muito perturbadora.

    Um exemplo anterior, mas ainda recente e muito presente, é o de “comunidade”. Hoje a presença verbal e virtual de “comunidades” no cotidiano de grande parte das pessoas do planeta é proporcional à ausência de práticas e vivências que davam sentido e consistência existencial à própria palavra.

     

    Quatro desastres anunciados

     

    Passados mais de 13 bilhões de anos do início do universo, mais de 4 bilhões da formação da Terra, mais de 3 bilhões a contar do início da vida no planeta e mais de 300 mil anos desde o surgimento do Homo sapiens, a humanidade dispõe de um manancial de conhecimentos e tecnologias capaz de propiciar a realização de projetos promotores do bem-comum numa amplitude que não passaria de mero delírio poucas décadas atrás. Mas os modelos de organização e funcionamento social e mental dominantes não apenas limitam drasticamente a difusão dos benefícios potenciais do atual estágio da jornada humana: também empurram a espécie para abismos profundos e possivelmente definitivos.

    Mantidos os atuais rumos, no melhor cenário a devastação e as mudanças ambientais em curso tornarão a Terra inóspita para a maior parte das espécies, incluindo a nossa; o crescimento explosivo das desigualdades irá se traduzir na produção tecnológica de diferenciações biológicas tão significativas que implicarão a divisão da humanidade em diferentes espécies, como em algumas das mais sombrias distopias de ficção científica. Além, é claro, do constante risco de hecatombe bélica, que crescerá juntamente com os conflitos movidos por essas mesmas crises socioambientais.

    Há ainda outro risco potencial, apontado por mentes poderosas, como a do físico Stephen Hawking, de que o processo de desenvolvimento da inteligência artificial (IA) atinja um ponto comparável à massa-crítica nos fenômenos da energia atômica ou aos saltos de capacidade cognitiva na própria evolução humana. Se assim for, de uma hora para outra, uma superinteligência pode emergir – e estará, provavelmente, hiperconectada às redes que mantêm a vida cotidiana das pessoas, cidades e sociedades planeta afora. Um bebê superpoderoso com o joystick do mundo nas mãos.

    Qual seria o propósito desse hipotético ser consciente não biológico? Estando a própria consciência humana ainda muito longe de ser satisfatoriamente compreendida, uma ciberconsciência emergente só pode ser objeto de especulação.

    Um ponto de partida razoável para esse exercício de imaginação são os propósitos humanos que hoje impulsionam o desenvolvimento da IA. E quais são eles? Em grande parte, em conformidade com a lógica dos mercados financeiros – lócus central de poder e riqueza no mundo contemporâneo –, os propósitos embutidos nos algoritmos que constituem o “modelo mental” da IA dizem respeito à busca competitiva por ganhos, lucros, poder, controle e predomínio.

    Como será que um ser resultante de um processo evolucionário norteado por esse tipo de propósitos compreenderá a si mesmo e agirá no momento hipotético em que adquirir consciência? Se a criatura IA “desperta” pensar e agir com base num substrato tecnopsicológico comparável às disposições psicológicas do investidor cujo propósito é ganho e acumulação sem limites, como ela nos verá e tratará?

     

    Frankenstein e a esfinge

     

    Dois séculos atrás, Mary Shelley pensou uma criatura aberrante produzida pela aplicação de poderes da ciência e tecnologia que lhe pareciam iminentes naquele momento em que a Revolução Industrial começava a transformar o mundo detonando um inédito processo de aceleração de inovações tecnológicas, mercadológicas e socioculturais. A criatura produzida pelo dr. Frankenstein seria, então, a mais avançada e extraordinária obra do engenho humano, mas, em razão da afetividade primitiva que herdara e levava no coração – comparável aos impulsos egocêntricos do cientista que a havia criado –, tratava-se de uma criação perigosa.

    A grande aberração engendrada pelos processos técnicos e econômicos disparados na época de Shelley é o homem que busca, frui e acumula recursos e poder em escala crescente e insustentável. Propósitos que podiam fazer sentido para o caçador e o guerreiro primitivos diante das incertezas e ameaças da natureza e de grupos rivais, mas hoje resultam na destruição de milhares de formas de vida e impõem riscos crescentes para a própria espécie humana.

    Esses propósitos particularistas, impostos aos que deles não se beneficiam, contaminam vasta e profundamente os modos de pensar e existir das sociedades, e estão por trás da sensação de falta de sentido, de efetivo despropósito, que hoje se alastra, juntamente os suicídios de jovens e os estados e sintomas de depressão.

    Quando, então, neste momento, em diferentes ambientes e contextos, nos deparemos com a pergunta “qual é o seu propósito?”, vale a pena olhar para além de cada pessoa ou discurso que a repete. Esticando o olhar, talvez a gente enxergue a fonte dessa cobrança – ou demanda ou súplica. Eu a imagino uma esfinge de cuja boca jorra uma narrativa na qual poucos hoje acreditamos, mas que ainda nos enreda, amarra e conduz. Podemos identificar essa criatura e sua ladainha aos modelos de organização mental e social que articulam a nossa realidade, trocando, de tempos em tempos, as palavras de ordem, na tentativa de preservar e reproduzir a lógica fundamental. Mas talvez seja mais inspirador vê-las como o ansioso espírito destes tempos, repletos de potências criadoras e ameaças existenciais, em escala ao mesmo tempo íntima e planetária, buscando a resposta em si mesmo, e em cada um de nós.

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