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    3º Neurônio | entrevista

    O biólogo Wiiliam Friedman, em uma recente visita a San Sebastián, na Espanha

    ’Se você não se preocupa com as plantas, é possível que não saiba cuidar de outro ser humano’

    por Adeline Marcos | El País | Publicada em 10/01/2020 às 13h53| Atualizada em 12/01/2020 às 15h31

    A cada ano, 2.100 espécies vegetais fascinam as 250.000 pessoas que visitam o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston. Seu diretor admite que ele próprio não deixa de se surpreender com elas. O Seguinte: reproduz a entrevista publicada pelo El País

     

    Milhares de crianças visitam anualmente o Arnold Arboretum, o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston (EUA), onde há uma norma: todos são capazes de ensinar, dos universitários aos cientistas, passando pelos funcionários.

    Um deles é o biólogo William Friedman, que esteve recentemente na Espanha para participar do festival científico Passion for Knowledge (P4K), em San Sebastián. Apaixonado pelas plantas, Friedman é professor de Biologia Evolutiva e dos Organismos na Universidade de Harvard e dedicou toda sua carreira ao estudo da diversificação evolutiva das plantas.

     

    Pergunta. Você demonstrou que as plantas têm relações especiais e se ajudam mutuamente. Nesse sentido, são melhores que nós?

    Resposta. Do ponto de vista de um biólogo evolutivo, entre as plantas ocorre uma grande quantidade de mortes prematuras. Por cada pássaro que você vê pela janela, 199 morreram. Por cada planta que você vê, quantas sementes caíram ou cresceram um pouco e não conseguiram ir além? As plantas fazem coisas maravilhosas ao cooperar entre elas, mas às vezes têm um lado sombrio.

     

    P. Que aspecto das plantas mais o surpreendeu ao longo de sua carreira?

    R. Tive surpresas incríveis ao longo de minha vida, sobretudo com o estudo da origem evolutiva das plantas de flor, que são um grupo muito recente, o mais jovem. Como é possível então que estejam por toda parte? Estudei o tecido interior das sementes onde as mães põem seu alimento, e que depois vai para o embrião. É algo que domesticamos para comer, o chamado endoesperma. Comemos um grão de arroz ou de milho porque está cheio de nutrientes. Descobri muitas coisas sobre este processo.

     

    P. Como o quê?

    R. Que mães e pais diferem quanto à contribuição nutritiva desse tecido, e podemos ver isso com análises genéticas. Quando observo uma semente, posso ver os genes da mãe e os do pai, como estes debatem sobre quanto alimento deveria haver. Estou há vinte anos me perguntando se pais e mães discutem sobre como alimentar a seu broto, e nos cinco últimos anos descobrimos…

     

    P. E quem ganha?

    R. Ah [risos], pois a verdade é que depende. Essa é a questão. Em geral, os pais são doadores de esperma, e as mães do óvulo, mas além disso eles têm que alimentar. Alguém se envolve mais que o outro, que só fornece os seus genes. Isto ocorre com os animais, mas também com as plantas.

     

    P. Então, o que quer um pai quando dá seus genes a uma semente da mãe?

    R. Que essa semente tenha todo o alimento possível. As mães têm muitas sementes, mas selecionam e rejeitam as que acreditam que não são boas, porque têm recursos limitados e precisam decidir onde investem seu alimento.

     

    P. E ao analisar essas sementes, que mais se pode ver?

    R. Nos estudos de genética molecular se pode ver inclusive como tudo isto ocorre. Como fazem diferentes investimentos, os pais são egoístas, e as mães tentam tomar decisões universais. Se uma mãe com 100 sementes só tem comida para 50, em quais vai investir? Ela vai se perguntar quais são as melhores. As fêmeas reconhecem as sementes que podem estar aparentadas geneticamente e fecham a chegada do pólen de maneira bioquímica. Estão continuamente filtrando os pais. É uma das grandes histórias das plantas, e não creio que muita gente a conheça.

     

    P. Quando rejeitam um pai, podem escolher outro?

    R. No caso dos pinheiros, que polinizam por meio do vento, a mãe recebe o esperma de muitos pais, e assim pode escolher. Se insetos entrarem em jogo, a cada flor chegam pais de diferentes origens, e as mães faz que compitam entre si.

     

    P. Mas como sabem se são bons pais?

    R. Conhecem os atributos genéticos do pai, é incrível. Em alguns casos, saberão se o pai é um parente direto; em outros saberão se não é um bom partido, e então as mães interromperão a fertilização. E inclusive quando a fertilização já começou elas podem abortar as sementes. Durante muitos anos me diverti entendendo que as plantas, como os humanos e outros animais, têm conversas entre progenitores e tomam decisões.

     

    P. Quando começou a se interessar pelas plantas?

    R. Cresci no campo, mas foi nas aulas de Biologia do colégio onde me interessei mais. Não era bom, mas eu gostava tanto… Uma manhã, estávamos no laboratório e tínhamos um porco peludo morto em formol, que tínhamos que dissecar. Não gostei nada. Não tinha nem ideia de como os animais funcionavam. Então pensei que talvez não devesse ser biólogo [risos]. Mas de repente apareceram as plantas, e senti com elas uma conexão instintiva e profunda. Tive muita sorte em experimentar essa sensação com as plantas e seguir em frente.

     

    P. Então na verdade foram as plantas que o escolheram...

    R. A verdade é que sim, e me sinto muito afortunado de ter descoberto seu mundo [risos].

     

    P. De todas as características das plantas, qual delas foi para você inimaginável quando começou a estudá-las?

    R. As plantas fazem muitas coisas estranhas. Conhece o ginkgo? É uma árvore muito antiga, presente nas cidades. Tem dois sexos (os que fazem o pólen, os machos, e os que fazem as sementes, as fêmeas), mas você não vai vê-las juntas em Madri. Não verá nenhuma semente pela cidade, e a razão é que têm um cheiro muito forte, então só os machos são plantados. No jardim botânico de Harvard temos fêmeas, e cheiram a vômito por causa do ácido butírico do seu interior. As sementes estão dispersas pelo chão, e cheira como se todo mundo na cidade tivesse vomitado ali. É muito forte.

     

    P. E que sentido tem que as fêmeas façam isto?

    R. Algum animal extinto achou que cheiravam muito bem e começou a comer as sementes para dispersá-las. A planta ficou com esse código, que cheira péssimo para nós, mas você pode ver todo tipo de moscas, que dispersam sementes, voando ao redor.

     

    P. Foi sua maneira de se adaptar e sobreviver, mas em geral as plantas enfrentam muitas ameaças…

    R. Sim, como os patógenos invasores que se deslocam em pallets de madeira transportados em navios. Como movimentamos coisas pelo mundo todo e às vezes não tomamos cuidado, continuamos introduzindo ameaças que poderiam aniquilar toda uma espécie. Podem ser insetos, cogumelos ou bactérias nos lugares mais insuspeitos, como as solas dos meus sapatos.

     

    P. Todo isso piorará com a crise climática.

    R. Claro. A mudança climática agrava a situação. Posso lhe dar um exemplo. No jardim botânico temos magníficas faias que padecem de uma enfermidade causada por um cogumelo invasor. As árvores podem lutar contra a epidemia, como você e eu fazemos se estivermos saudáveis, mas o que acontece se estivermos estressados, se formos mais velhos ou nos alimentarmos mal? Neste sentido, as plantas são exatamente iguais aos humanos. Há três anos tivemos a pior seca da região. Durante dois meses sofremos condições de aridez, e nos dois anos posteriores as árvores doentes terminaram por perecer. A doença ganhou. As faias estavam tão estressadas por causa da seca que não puderam lutar. Tivemos que abater árvores de três metros de largura que tinham morrido. E isto está sendo visto com insetos e aves por todo o mundo. A questão é se nos preocupa ou não. Acredito que à maioria sim, mas não aos que têm o poder para tomar decisões.

     

    P. Por que se preocupar com as plantas, perguntarão muitos?

    R. Claro, não somos nós. Os pássaros não somos nós, os insetos não somos nós. Se você não consegue se preocupar com uma planta, é possível que não consiga cuidar de outro ser humano. Dizem que devemos nos preocupar com a natureza porque, se não, perderemos a capacidade de alimentar o mundo, mas não acredito que seja a principal razão.

     

    P. E qual seria?

    R. Pensar que todos estes organismos são nossa comida e dependem de nossa exploração é ser míope. Há um valor mais profundo. Devemos nos preocupar porque compartilhamos a Terra com eles.

     

    P. As plantas estão há milhões de anos se adaptando, mas continuam mantendo essa capacidade agora?

    R. As plantas podem se adaptar, sim. Podem se adaptar rapidamente? Sim. Podem se adaptar à velocidade com que estamos mudando o planeta? Veremos. Há 20.000 anos, em Boston, não havia nem plantas nem árvores, havia uma geleira, e agora a cidade está repleta de vegetação. As plantas se movem, mudam, crescem e se adaptam. Entretanto, as mudanças que estamos introduzindo agora são tão rápidas que certos ecossistemas tombarão.

     

    P. O que acontecerá? Não poderemos voltar ao ponto de partida?

    R. Se afinal der errado, sem dúvida será nossa culpa. Não poderemos voltar. Será um novo futuro.

     

    P. E como será esse futuro?

    R. Não sei… Talvez seja sem humanos. Mas de uma coisa estou certo: que esse futuro será muito rico graças à evolução. O mais incrível da vida é que é resistente. O equilíbrio pode voltar. Talvez nós não sejamos suficientemente resistentes, mas em milhões de anos é possível que o planeta continue sendo verde e continue tendo animais. Se quisermos continuar sendo parte disso, temos que ser mais cuidadosos.

     

    P. Pode ser que atualmente estejamos começando a mudar. Não notou?

    R. Sim, há cada vez mais consciência ambiental. Há 40 anos, quando comecei meus estudos, os cientistas não falavam com o público, achavam não ser parte do seu trabalho. Nos últimos 20 anos, o jornalismo científico virou uma maneira muito poderosa de ajudar os cientistas — que não eram bons explicando coisas — a se conectarem com as pessoas. Ser cientista não é só fazer ciência. Somos cidadãos encarregados de conscientizar os outros.

     

    P. Algum dia saberemos tudo das plantas?

    R. Não acredito… Há um poema de Alfred Tennyson chamado Flower in the Crannied Wall, de 1863, que é a resposta a sua pergunta. Se eu pudesse conhecer totalmente cada uma das plantas, conheceria todo o universo. Mas não podemos. Cada planta é tão complicada que acaba sendo impossível. É isso que torna a natureza seja tão maravilhosa.

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