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    3º Neurônio | comportamento

    Dois em cada três jovens não admitem que “não é não”

    por Pilar Álvarez | El País | Publicada em 02/08/2018 às 15h

    Mais de 80% dos menores de 25 anos da América Latina acham que os homens podem ter relações sexuais com quem quiserem, mas não as mulheres, segundo uma pesquisa em oito países. Siga o alarmante estudo publicado pelo El País, que o Seguinte: recomenda e reproduz

     

    Está nas letras do cantor colombiano Maluma e nas conversas das turmas. “Estou apaixonado por quatro babys/ Sempre me dão o que eu quero/ Transam quando eu mando / Nenhuma me diz que não”, canta o estribilho da sua Quatro Babys. É o imaginário que coisifica as mulheres, as julga pela forma como se vestem ou pelo que bebem e que normaliza a violência contra elas. Ideias que são transmitidas pela música, pelas redes sociais e pelas amizades, estabelecendo-se com força entre os jovens da América Latina. Dois em cada três deles não sabem com clareza que “não é não”: as mulheres se fazem de difíceis, dizem nãoquando querem dizer sim. A grande maioria (86%) não interviria se um amigo batesse na sua namorada, segundo uma macropesquisa apresentada no dia 25 de julho.

    “É algo que têm em sua cabeça e reproduzem em seus comportamentos”, diz Belén Sobrino, responsável pelo relatório Rompendo Moldes: Transformar Imaginários e Normas Sociais para Eliminar a Violência Contra as Mulheres, da ONG Oxfam Intermon, que analisa jovens de 15 a 25 anos com mais de 4.000 questionários com pessoas de áreas urbanas e com ensino médio e universitário de oito países da América Latina: Bolívia, Colômbia, Cuba, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana. Mais de 80% concordam os homens podem ter relações sexuais com quem quiserem, mas que as mulheres não podem. E três em cada quatro consideram incorreto que uma mulher aborte em caso de gravidez indesejada.

    Não incluído neste levantamento, o Brasil também tem dados alarmantes sobre a percepção de igualdade de gênero. Pesquisa Datafolha realizada em 2016 mostrou que uma de cada três pessoas acredita que, nos casos de estupro, a culpa é da mulher. Entre os homens, o pensamento ainda é mais comum: 42% deles dizem que mulheres que se dão ao respeito não são estupradas. Outros dados foram apontados em 2017 por uma pesquisa da Global Advisor. Os entrevistadores perguntaram a brasileiros se as mulheres são inferiores aos homens. 16% responderam que sim.

    O trabalho da Oxfam Intermon, apresentado em Bogotá na semana passada, numa série de conferências sobre como relatar as violências machistas, às quais o EL PAÍS foi convidado, analisa o comportamento e o pensamento dos jovens numa região com a mais elevada taxa de taxas de gravidez entre adolescentes (73,2 por mil) e onde em 2016 foram assassinadas 1.831 mulheres pelo mero fato de sê-lo. E põe o foco na prevenção “que começa com a rejeição e a mudança de olhar de certo imaginário e certas normas sociais nocivas que se reproduzem e alimentam uma violência totalmente instalada” entre a juventude, explica Sobrino.

    Aqui alguns conceitos desse imaginário:

     

     

    A grande maioria das garotas pesquisadas não considera violência que as pessoas com quem se relacionam vigiem seus celulares e redes sociais, ou controlem a forma como se vestem. Seis em cada 10 menores de 20 anos e 4 de cada 10 garotas justificam que os ciúmes são parte do amor. O relatório não alude à Espanha, mas trabalhos prévios mostram que as percepções não são tão diferentes. O barômetro de novembro de 2017 da Fundação de Ajuda contra a Dependência de Drogas (FAD) refletia que os jovens espanhóis tampouco consideram violência de gênero coisas como vigiar o celular ou os ciúmes. Um de cada quatro via, além disso, a violência como uma conduta "normal" dentro do casal.

     

    Se beber, a culpa é dela

     

    Dois de cada três jovens de 15 a 19 anos justificam a violência sexual pelo consumo de álcool dos homens, 72% culpam as mulheres pela roupa que usam. Metade dos espanhóis também considera que o álcool é o causador dos estupros, segundo um estudo sobre a percepção de violência sexual lançada pelo Governo em junho, que não aludia a faixas etárias.

     

    O Estado que resolva

     

    A grande maioria acredita que a violência contra as mulheres é produto das desigualdades e aponta isso como um problema grave. A responsável pelo relatório destaca este fato como um dado positivo: “Demonstra que existiu um trabalho de conscientização, embora muitos entendam que não é problema seu”, destaca Sobrino. Na verdade, dois de cada três acreditam que cabe exclusivamente ao Estado reduzir essa violência.

    O relatório considera que há diversos lugares a partir dos quais é possível combater essas mensagens, das famílias às igrejas. Observa também a responsabilidade dos meios de comunicação e dos centros educacionais, embora nos países analisados ocorra como na Espanha: as matérias e disciplinas escolares relativas à igualdade e educação sexual brilham por sua ausência.

    Há leis, mas faltam recursos e falham os sistemas de informação, com um precário registro de dados dos casos de violência contra a mulher em todos os países da América Latina e Caribe. As autoras do trabalho salientam a falta de vontade política e uma repetição de padrões culturais que minimizam a violência. Por exemplo, os tribunais não impõem medias de proteção porque “consideram que as surras ou qualquer fato de violência deve ser resolvido dentro do lar".

     

     

    A mensagem das redes

     

    As jovens e as redes também podem ser parte da solução. Mulheres como as que na Espanha saíram em massa para reivindicar a importância do consentimento, as que faziam coro dizendo que “só sim é sim” nas manifestações e que acompanharam durante todo o processo judicial a jovem abusada por cinco homens de um grupo chamado La Manada nas festas de San Fermín de 2016.

    As redes sociais são o espaço onde os jovens mais se encontram e se informam, e onde se geraram campanhas globais contra o assédio, como o #Metoo norte-americano, e contra os feminicídios, como o #NiunaMenos da Argentina. Redes onde se propagam também vozes de outros artistas e cantores nos antípodas das letras de Maluma. Vale o exemplo da rapper mexicana Mare Advertencia Lirikade: “Para de engolir o lixo sexista!/ Para de pensar que é melhor quem melhor se veste!/ Para com essas revistas! O que controla a sua vida / porque você nasceu livre e virou escrava da moda”.

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