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    3º Neurônio | entrevista

    Os populistas estão do lado sombrio da história

    por Jan Martínez Ahrens | El País | Publicada em 21/06/2018 às 15h46

    Steven Pinker é uma das grandes figuras da psicologia cognitiva e especialista no binômio mente-linguagem. Dialético incansável e inegociável, em seu novo livro, “Enlightnment now”, volta a atacar os profissionais do apocalipse. Contra os irredutíveis que defendem que “o mundo está cada dia pior e só nós podemos salvá-lo”. Homem da ciência e do pensamento, o catedrático de Harvard ajusta contas com os populistas e com os inimigos do progresso. O Seguinte: recomenda e reproduz o artigo publicado pelo El País

     

    Há muito tempo Steven Pinker (Montreal, 1954) matou Deus. Foi no Canadá, ao entrar na adolescência e descobrir que não precisava dele para nada. “Quando comecei a pensar no mundo, não encontrei um lugar e me dei conta de que não funcionava para mim sequer como hipótese”, explica. Teve início então um idílio com a ciência que 50 anos depois não parou de crescer. Considerado um dos psicólogos cognitivos mais brilhantes do planeta, seus trabalhos acadêmicos, focados no binômio linguagem-mente, e suas obras de divulgação, como Tábula rasa (2002) e Os anjos bons da nossa natureza (2011), quebraram tantos moldes que muitos o veem como um visionário da filosofia do futuro.

    Não é uma descrição que agrade Pinker, mas é impossível fugir dela ao repassar sua obra. Cada um de seus livros gerou ondas sísmicas de longo alcance. Debates globais nos quais este catedrático de Harvard, firme defensor das bases genéticas da conduta, nunca fugiu do corpo a corpo, o que lhe valeu a fama de dialético invencível. Desse lugar, volta agora à carga com uma obra maior. Um trabalho que ganhou o aplauso internacional e que Bill Gates definiu como seu “livro favorito de todos os tempos”.

    Enlightenment now (ainda sem tradução no Brasil) é acima de tudo um ajuste de contas com os inimigos do progresso. Aqueles que pensam que o mundo não para de retroceder e que só eles podem salvá-lo. São adversários bem conhecidos e temíveis. Donald Trump, o Brexit, o populismo e os nacionalismos tribais fazem parte dessa corte sombria, adversária dos valores do Iluminismo.

     

     

    “Os ideais da razão, da ciência e do humanismo precisam ser defendidos agora mais do que nunca, porque suas conquistas podem vir abaixo. O progresso não é uma questão subjetiva. E isso é simples de entender. A maioria das pessoas prefere viver a morrer. A abundância à pobreza. A saúde à doença. A segurança ao perigo. O conhecimento à ignorância. A liberdade à tirania... Tudo isso pode ser medido e seu aumento ao longo do tempo é o que chamamos de progresso. Isso é o que precisa ser defendido”, explica Pinker.

    Ele está sentado em seu escritório na Universidade de Harvard. À sua volta se respira silêncio. O nono andar do William James Hall, projetado em 1963 pelo arquiteto Minoru Yamasaki, é um lago de luz líquida de onde se contempla Cambridge (Massachusetts) e sua chuva de maio. Dentro, no departamento de Psicologia Cognitiva, alguns poucos alunos rodeiam o escritório do professor. Há livros especializados, moldes de cérebros e um ou outro computador. Duas poltronas roxas convidam a sentar. Pinker faz isso sem parar de olhar para seu interlocutor. Com sua aparência de roqueiro sobrevivente dos anos setenta, parece tranquilo, em casa. Durante mais de uma hora, responderá perguntas com facilidade. Curtido em mil debates, sabe que sua própria calma reflete melhor do que qualquer coisa a força de suas convicções.

    O Iluminismo, em sua definição, está associado ao capitalismo. Um conceito que está em crise, não?Iluminismo e capitalismo andam juntos, mas há uma confusão muito grande. Muitos intelectuais entendem o mercado como o livre mercado, identificam-no com o anarcocapitalismo e o liberalismo extremo. E não são a mesma coisa. O próprio Adam Smith foi claro a respeito.

    Mas com a Grande Recessão, parte importante da população, sobretudo a mais jovem, chegou à conclusão de que o capitalismo e as instituições que deveriam apoiá-la a deixaram na mão. Esses jovens pararam de confiar, sentem-se os perdedores da globalização. O que o sr. diria a eles? Em primeiro lugar, que olhem os dados. Nem a globalização nem os mercados os empobreceram. A realidade é bem diferente. A pobreza extrema caiu 75% em 30 anos. Em segundo, não há incompatibilidade entre mercados e regulamentações. Pelo contrário, a experiência da Grande Recessão nos mostrou que se deve evitar o caos dos mercados desregulados. Em terceiro, é preciso lembrar o poder dos mercados para melhorar a vida. A maior queda da pobreza da história da humanidade ocorreu provavelmente na China e foi conseguida não com a redistribuição em massa da riqueza dos países ocidentais, mas com o desenvolvimento de instituições de mercado.

    Isso trouxe melhoria econômica, mas não mais liberdade. A liberdade econômica costuma ser acompanhada de outras formas de liberdade. A Coreia do Sul, além de gozar de uma economia de mercado, é um lugar muito mais livre e prazenteiro que seu vizinho do norte. Quando os países abandonam o mercado, como a Venezuela, se afundam na miséria. Aconteceu com a União Soviética, a China de Mao, a Alemanha Oriental, esta antes da queda do Muro...

     

     

    Certo, o mundo é um lugar melhor e os mercados ajudam nesse sentido. Mas então por que assistimos a um aumento do populismo? Ninguém sabe com certeza. Seguramente a Grande Recessão contribuiu para isso. Na Europa houve um outro fator também. Ao mesmo tempo em que havia uma forte corrente migratória dos países muçulmanos, aumentava o terrorismo jihadista e se exagerava seu risco. O resultado foi que o medo e o preconceito abateram muitos cidadãos e isso gerou uma reação. Não é algo novo. Os populistas estão do lado sombrio da história. Sentem-se inquietos e marginalizados diante dessa corrente gradual e inexorável que conduz ao cosmopolitismo, à liberalização dos costumes, aos direitos das mulheres, dos gays, das minorias... Isso assusta esses homens brancos mais velhos que formam o núcleo dessa reação, que apoiam Trump, Brexit, partidos xenófobos europeus.

    Qual é a ideologia de fundo desse movimento?Têm em comum uma mentalidade tribal, a mesma que conduz ao nacionalismo e ao autoritarismo. Sentem a hostilidade em relação às instituições, procuram um líder natural que expresse a pureza e a verdade da tribo. Custa aceitar a ideia democrática e ilustrada de que o governante é um guardião temporário do poder submetido a deveres e limitações.

    Ou seja, rechaçam o controle das instituições democráticas. Sem dúvida. A ênfase do Iluminismo nas instituições parte da ideia de que, deixados à sua própria natureza, os humanos acabarão fazendo mal, agredindo-se, lutando pelo poder... Diante disso, não procede tentar mudar a natureza humana, como sempre tentaram os totalitarismos, mas utilizar a própria natureza humana para detê-la. Como disse James Madison [presidente dos EUA de 1809 a 1817], a ambição contrabalança a ambição. Daí o sistema de contrapoderes. Sem dúvida que os líderes pretendem maximizar seu poder, mas se os tribunais e os legisladores, ainda que não sejam anjos, enfrentam e neutralizam essas forças, nos prevenimos contra a ditadura.

    O sr. os vê ganhando força? Não sei se o populismo vencerá as forças do Iluminismo, mas há motivos para pensar que não. Apesar de Trump se empenhar nisso, os avanços são muito difíceis de reverter. O populismo tem uma forte base rural e se estende por camadas menos cultas da sociedade. Mas o mundo é cada vez mais urbano e educado. A geração de Trump, de fato, desaparecerá e os millennials, pouco amigos do populismo, tomarão o poder.

    E enquanto isso não acontece, o mundo não está em perigo com Trump? Sim. Sua personalidade é impulsiva, vingativa e punitiva. E tem o poder de declarar uma guerra nuclear. São motivos suficientes. Mas além disso se opõe às instituições que permitiram o progresso. Rejeita o comércio global, a cooperação internacional, a ONU... Se nestas últimas décadas não sofremos uma guerra mundial é porque temos uma série de compromissos mútuos que partem da premissa de que somos uma comunidade de nações e tomamos decisões em função disso. Trump ameaça tudo isso. Abandonou a aspiração de Obama de um mundo sem armas atômicas, rejeitou o pacto com o Irã e modernizou o arsenal nuclear... Seus instintos autoritários estão submetendo o mundo a um teste histórico da democracia norte-americana.

    E qual é seu prognóstico? Acredito que as instituições vencerão. Há muitas forças opostas ao que diz Trump e que o impedem de materializá-lo. Inclusive surgiram líderes carismáticos que se alinham com os valores do Iluminismo, como Justin Trudeau e Emmanuel Macron...

    Não parecem fortes o suficiente. Para vencer o populismo é preciso também reconhecer o valor do progresso. Há um hábito muito disseminado entre intelectuais e jornalistas que consiste em destacar apenas o negativo, em descrever o mundo como se estivesse sempre à beira da catástrofe. É a mentalidade do default. Trump explorou essa forma de pensar e não encontrou resistência suficiente na esquerda, porque uma parte estava de acordo. Mas a verdade é que muitas instituições, ainda que imperfeitas, resolvem problemas. Podem evitar guerras e reduzir a pobreza extrema. E isso deve fazer parte do entendimento básico de cada um.

    O sr. é um otimista. Gosto mais de me definir como um possibilista sério.

    Diante desse possibilismo, depois de duas guerras mundiais, da bomba atômica, da proliferação de armas e do terrorismo, muita gente não acredita que o mundo seja um lugar melhor. Estão totalmente enganados? Não é necessário um certo pessimismo para não cair na complacência? É preciso ser realista. As coisas sempre podem ser piores e é verdade que a complacência impede de ver os perigos. Um risco é o fatalismo, a ideia de por que se incomodar em melhorar o mundo se o mundo não faz nada além de piorar; são aqueles que pensam: se não houver mudança climática, serão os robôs que acabarão conosco. O outro é o radicalismo. Muita gente jovem vê acertadamente erros no sistema. E isso é bom, mas se acabarmos pensando que as instituições são tão disfuncionais que não vale a pena melhorá-las, então entramos no terreno das soluções radicais: tudo pode ser destruído porque nada tem valor. Melhor construir sobre as cinzas. Esse é um erro terrível, porque as coisas se tornam muito piores.

    O nacionalismo é um dos fatores de destruição?Cresci em Quebec e as tensões existentes na Espanha não me são desconhecidas. O nacionalismo corre sempre o risco de tornar-se maligno, mas pode ser benéfico, se funcionar como um contrato social e se basear na residência, não nas crenças religiosas, ou de clãs e tribos. A mente humana, de fato, entende a ideia de tribo de forma flexível: pode se referir à raça, mas também a uma equipe esportiva, a Windows contra Mac, a Nikon versus Canon. E além disso pode ser exibida de vários níveis: uma pessoa pode estar orgulhosa de ser de Harvard, de Boston, de Massachusetts e do mundo. Se nossa noção de nação coexiste com nosso senso de ser europeus e, mais importante, de ser humanos e cidadãos do mundo, pode ser benigno. O nacionalismo é pernicioso quando parte de uma imposição tribal e se entende como uma soma de resultado zero: nossa nação só pode prosperar se as outras forem mal.

    As redes sociais ajudam o populismo? O populismo as usou. Mas veja bem, não quero colocar a culpa de tudo nas redes sociais. Isso hoje virou moda: há um problema e atribuem a culpa a elas. As redes podem ser usadas positivamente, como fez Obama.

    Lendo seu livro é quase impossível não ser otimista quanto ao futuro do mundo. Mas quando fechamos o livro e olhamos as notícias, o pessimismo volta. O problema está na mídia? O jornalismo tem um problema inerente: se concentra em acontecimentos particulares mais do que nas tendências. E é mais fácil para ele abordar um fato catastrófico do que um positivo. Isso acaba gerando uma visão distorcida do mundo. O economista Max Roser explicou isso. Os jornais nunca poderiam ter divulgado ontem a notícia de que 137.000 pessoas escaparam da pobreza. É algo que tem ocorrido diariamente há 25 anos, mas que nunca mereceu uma manchete. O resultado é que 1 bilhão de pessoas escaparam da pobreza extrema e ninguém sabe.

    Voltando ao início. O Iluminismo se apoia no progresso. Mas não é irracional ser tão otimista? Afinal, a crença de que as coisas sempre serão melhores não é mais racional do que a crença de que tudo sempre será pior. Ser incondicionalmente otimista é irracional. Há uma falsa crença, vinda do século XIX, de que evolução equivale a progresso. Mas a evolução, em um sentido técnico e biológico, trabalha contra a felicidade humana. A biosfera está cheia de patógenos que estão em constante evolução para nos adoecer. Os organismos dos quais dependemos para nos alimentar não querem ser nosso alimento. A vida é uma luta. E o curso natural dos acontecimentos é terrível. Mas a ingenuidade humana fecha os olhos para esses problemas. Há uma falácia muito comum que conceitua o progresso como uma força mística do universo que destina aos humanos sempre melhorar. Sempre melhorar. E isso simplesmente não é assim. Temos uma esperança razoável de progresso se as instituições humanas extraem o melhor de nós, se nos permitem adquirir novos conhecimentos e resolver problemas. Mas isso nem sempre acontece. Há muitas forças que naturalmente pioram as coisas.

    Pinker, com um sorriso, dá a entrevista por encerrada. Educadamente, se levanta e se encaminha à sessão de fotos. De lado e de frente, se deixa levar pelo departamento de Psicologia Cognitiva e até posa junto a uma sinuosa massa amarronzada guardada em formol. Ao terminar, a observa e comenta: “Este cérebro é real”. Os alunos olham de esguelha para seu mestre e continuam trabalhando em silêncio. Lá fora, chove sobre Cambridge.

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