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    3º Neurônio | opinião

    Brasil 2018: a guerra da pós-verdade

    por Carlos Guimarães | Publicada em 29/03/2018 às 15h07

    A esquizofrenia coletiva que tomou conta do Brasil chegou às vias de fato. Os episódios do assassinato de Marielle Franco e o tiro disparado à comitiva de Lula são, evidentemente, um reforço à impunidade absoluta que vigora no país. Num sentido moral da história, o óbvio pularia na cara de cada um de nós: assassinato é crime e tiro disparado contra um ônibus é tentativa de assassinato, portanto, crime. Tais obviedades, entretanto, produzem sentimentos diferentes em quem lê as notícias. Para muitos (por favor, não tratar como minoria), os casos são uma resposta a quem sempre propagou o ódio e a quem defende bandidos. Todavia, há uma nova diretriz que toma conta desses novos tempos brasileiros: os fatos são meramente casuais num mundo onde importa muito mais autentificar a própria tese. A pós-verdade ultrapassou a verdade dos fatos.

    Em “O Mecanismo”, isso ficou latente. Eu achei a série fraca, mais por questões estéticas do que por “assumir um lado”. Eu não tenho problemas em, fosse o caso, ter achado a série bem articulada. O problema é que ela vem revestida de desonestidade intelectual. José Padilha, que é um bom diretor (não é porque ele não pensa como você que ele é um incompetente), fez um trabalho aquém de “Tropa de Elite” e de “Ônibus 174”. É óbvio que o contexto em que ele atribui a frase “estancar a sangria” a Lula não foi acidental. O diálogo entre Romero Jucá e Sérgio Machado, presidente da Transpetro, é um dos momentos mais emblemáticos da pós-República. Seria como dizer que o “Não me deixem só” fosse do Jango ou o “50 anos em 5” do Sarney. Há frases que entram para a história e desfazer dessa história sob a égide da licença poético-ficcional é, no mínimo, desonesto. Eu vi os oito episódios da série. Achei recheada de clichês, uma narrativa enfadonha, uma linguagem folhetinesca e artifícios de blockbuster hollywoodiano de quinta categoria. Só que o caso “O Mecanismo” é um prato cheio para analisar esse momento.

    Há, simplificando, reduzindo e impondo ao tema um maniqueísmo proposital, dois tipos de juízos de valor sobre a série: a esquerda achou um lixo e a direita achou ótima. O mais espantoso é verificar nas redes sociais as procedências destes veredictos. Muitas pessoas que cancelaram a Netflix ou que endeusaram a série sequer viram um episódio de “O Mecanismo”. Ou seja, é ruim porque me disseram que é ruim. É boa porque me disseram que é boa. Cria-se a lenda: se ela dá pau no Lula, ela é boa para a direita e ruim para a esquerda. Se ela endeusasse Lula, seria o contrário. Querer um meio termo é utopia. A questão mais séria é que não há mais uma interpretação sobre qualquer fato existente. O fato morreu. Quem quer interpretar o fato em si é, por sua vez, chamado de isentão. O lance é derrubar a narrativa adversária, seja como for. Atualmente, o modo mais eficaz pra isso é disseminar as fake news.

    A proliferação de notícias falsas seria inofensiva não fosse o conceito de pós-verdade absolutamente enraizado no atual cenário brasileiro. Atualmente, é possível listar uma série de sites, portais e blogs que tomam partido. Acho natural numa democracia. Entretanto, o ritmo de guerra começa quando estes sites se tornam instrumentos das próprias ideologias, tratando quem pensa diferente como inimigo. É preciso destruir o inimigo. O primeiro passo é criar uma ideia. Inserir na mente do povo uma mentira. É como faziam os nazistas, por exemplo. A diferença é que naquela época, isto era tratado como propaganda. Hoje, é disfarçado de jornalismo.

    A guerra no país, além de ideológica, tornou-se a guerra da pós-verdade. A pós verdade é a criação de uma verdade pessoal tão forte que qualquer coisa que fuja dessa verdade produz ódio contra ela. É o maior fenômeno de comunicação contemporâneo. Ou seja, se não é o que eu acredito, quero, tenho ou penso, eu odeio. Pra tudo que é lado. Ódios em maior ou menor escala. Mas o essencial: o ódio contra quem pensa o contrário. O objetivo, logo, não é mais impor o seu ponto de vista aos outros, algo que já acho meio torto. É destruir, desestabilizar e modificar a narrativa de quem pensa o contrário. É uma guerra onde a informação deixou de ser o ponto mais relevante. A informação é só um instrumento, um meio para que a mesma seja manipulada, distorcida e esquartejada, com o objetivo de transformar a sua verdade na verdade universal. O brasileiro não precisa de interpretação de texto. Isso é coisa antiga. Não existe mais interpretação de texto, porque não há mais texto, não há mais fato. Há só o próprio texto, a própria tese, o próprio fato, que deixa de ser o ato em si para virar a última instância na cadeia: o fato só é fato mesmo quando bate com a própria verdade. Senão, é só o inimigo impondo uma narrativa que não bate com a sua. É uma nova guerra. Não é guerra de valores. É guerra de verdades. A informação é só instrumento pra isso. As redes sociais, os meios.

    Portanto, nada do que eu escrever servirá para reflexão. Nada do que você escrever servirá. É inútil. Cada um tem o seu ponto de vista e nada mudará. Ninguém mais quer uma pessoa que pense diferente de si ao seu lado. É um “ame-o ou deixe-o” turbinado, reflexo dos novos tempos. Estamos em guerra. Ela está no nosso nariz, nas redes sociais, com torcida organizada, claque e cegueira absoluta de uma nação que não sabe muito bem o que quer. A estratégia já funcionou. Já passaram. O primeiro ponto é desqualificar o inimigo. O segundo ponto é distorcer o fato. O terceiro é a criação do estado de ódio. Todos estamos nessa. Todos. Não é mais um caso de educação. É um caso de lavagem cerebral pura, por todos os lados. A gente não está acostumado a ver as verdades. A pós-verdade, que é minha e ninguém tira, é muito melhor. Aos diferentes, tiros. Ou o botão de “desfazer amizade”. No fundo, no fundo, queremos uma sociedade de replicantes que pensam da mesma forma que nós. Nunca antes, na história deste país, pensar diferente foi tão perigoso.

     

    Carlos Guimarães é jornalista (PUCRS); comentarista esportivo (Rádio Guaíba); mestrando em Comunicação e Informação (UFRGS); especializado em Jornalismo Esportivo (UFRGS).

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